[Clipping] Guerra contra 
as traquinagens

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Melissa Bergonsi, Especial para o DIARINHO
Publicado em 30/10/2017

Atenção. Se amanhã seu sanduíche vier com cebola em vez de sem, se você não encontrar a chave do carro para ir ao trabalho, se o café cair em cima desse DIARINHO enquanto você lê a matéria, pare e escute. Ouviu um assobio agudo ao fundo? É o Saci Pererê aprontando com você!

Dia 31 de outubro, é o dia dele, o Saci, uma das figuras mais conhecidas do folclore brasileiro que possui tantas versões quanto o imaginário popular for capaz de criar. Mas também é dia de Halloween ou Dia das Bruxas, festa de origem celta que foi levada aos Estados Unidos por irlandeses colonizadores e que, com o passar do tempo, cresceu e se modificou até chegar em terras brasileiras com as influências que recebemos da terra do Tio Sam e, obviamente, com a globalização.

Isso por si só já garante uma boa pitada de travessuras, sustos e imaginação para o dia de hoje. Mas também traz à tona um embate que ofusca o encantamento que os dois folclores são capazes de exercer em adultos e crianças.

O dia 31 de outubro é como um encontro no ringue entre os mais ufanistas que defendem o Dia do Saci e rechaçam a influência norte-americana em nossas terras, os que brigam para poder curtir o Halloween em paz e, ultimamente com mais força, os adeptos a algumas linhas de religiões cristãs neopentecostais que não aceitam e não querem nenhuma das duas influências folclóricas porque as veem como afronta às suas crenças.

Essa “guerra” é tão marcante que há professores da educação infantil que preferem ignorar a data em sala de aula por conta das exigências de alguns pais de alunos.

Professores se viram
Inspirada em Monteiro Lobato, a professora Neide Regina Cesário, que comanda uma sala de Pré 2, no CEI Neide Merísio Molleri, em Camboriú, trabalhou com os alunos entre quatro e cinco anos de idade a obra “Sítio do Pica Pau Amarelo” em uma atividade para incentivar a leitura e a contação de histórias.

Fantasiados de Saci, Emília, Visconde de Sabugosa, a professora trabalhou pelo viés do resgate das histórias familiares e do ambiente rural das casas dos avós que vivem ou viviam na região rural de Camboriú. “Esse ano tive que trabalhar de uma maneira que não puxasse tanto para o Saci ou para a Emília. Tem muitos pais que não gostam e que já vieram reclamar comigo. Uma das alunas que foi convidada para ser a Emília, a mãe não permitiu por conta de sua religião. Então a gente evita,” revela.

A professora Neide disse que por esse motivo, nessa segunda e terça-feira, não trabalhará nenhum dos temas em sala de aula. Nem Saci, nem Halloween. “Eu não tenho como pedir para um pai, que não aceita, não trazer o seu filho para a escola. Então eu prefiro não trabalhar. Se não tivesse esse problema eu faria o halloween e o saci como já fiz tanto, por muitos anos, mas está cada vez mais difícil. Estamos ficando amarradas”, desabafou.

Para não deixar de falar das obras essenciais e da cultura brasileira, Neide explica que leva para o lado da lembrança do sítio dos avós ou do amor pela natureza. “O Curupi, por exemplo, trabalhei mostrando para eles que era um grande defensor das florestas como todos nós temos que ser”, disse.

Ao mesmo tempo, há outros professoras que unem as duas culturas e levam para sala de aula brincadeiras e personagens dos dois folclores como no CEI Judite da Rocha Dalago, onde a personagem Malévola da Disney estará lado a lado com o Saci Pererê nas salas de aula nessa segunda-feira.

Segundo a diretora Maria Helena Merenciano, a escolha da Malévola foi dos próprios alunos que têm liberdade para optar por personagens que representem o tema proposto. “Elas adoram a brincadeira da contação de histórias, é um dia lúdico com muito aprendizado”, disse.

O demônio é a ignorância!

Andriollo.jpgJornalista, pesquisador da cultura popular brasileira, o saciólogo Andriolli Costa, com mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e agora doutorando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS), foi vítima de ataques nas redes sociais por conta de seu interesse de estudo: o Saci.

Andriolli mantém um blog chamado “Colecionador de Sacis” e foi tema de uma matéria da Revista Piauí intitulada “A peleja do Pererê contra o Grúfalo” por conta de seu interesse de estudo e sua apresentação para crianças na Feira do Livro de Porto Alegre.

Ele participava de um concurso de contação de histórias ensinando a molecada a colecionar sacis. Do outro lado do palco, Luma Riella, 22 anos, enfrentava Andriolli contando a história do Grúfalo, uma mistura de urso com búfalo, escrita pela britânica Julia Donaldson.

A matéria da Piauí foi compartilhada no Facebook pela Folha de S. Paulo. Bastou isso para Andriolli passar de colecionador de Sacis a colecionador de ofensas. “Maconheiro, desocupado, débil mental foram alguns dos adjetivos que coroaram a postagem. Sem falar em ‘acusações’ de ser petista, esquerdista, marxista e suas variações. ‘Palestra sobre Deus ninguém faz’, arremata um comentarista”, conta o pesquisador em um texto da revista que produziu em comemoração aos 100 anos do livro de Monteiro Lobato “Saci Pererê: o resultado de um Inquérito”.

Para o pesquisador, dois grandes fatores explicam os xingamentos: a ignorância sobre a importância dos mitos e da cultura brasileira e o fundamentalismo religioso. “Parcelas da religião cristã acreditam que o saci é um demônio. Isso é um problema que paira no folclore brasileiro como um todo. Todos os encantados são entendidos como demônios, como diabos, sendo que são apenas encantados que pertencem menos ao plano físico e mais ao plano do simbólico. Tratá-los assim como diabos e demônios é um problema ancestral que escalonou a um nível assombroso em algumas religiões neopentecostais onde o Saci e todos os outros mitos são tidos como demônios e, por isso, negados”, explica.

Os mesmos motivos incentivam o preconceito contra as figuras mitológicas do Dia das Bruxas ou do Boi de Mamão, como aconteceu com o muro grafitado da Praça da Cultura que foi sabotado recentemente em Balneário Camboriú.

Em terra de Direitos Humanos, Saci é rei
Algumas das centenas de versões de lendas sobre a origem do Saci, davam conta que como negro e escravo, preferiu cortar a própria perna presa a grilhões, para que pudesse saltar em direção à liberdade. Morre em decorrência da amputação e retorna como encantado, como o Saci capaz de proezas incríveis. Outras, porém, apontam que ele seria um escravo exímio na arte da capoeira. “De tão bom, o fazendeiro manda cortar sua perna direita para que ele deixe de ser exibido. Então ele morre, mas retorna como Saci e vai sempre rir dos poderosos e debochar das figuras de autoridade, vai lutar contra aqueles que tentam restringir sua liberdade”, conta Andriolli. Segundo o pesquisador, essa característica, além de ser um espelho da brasilidade – usar do humor frente às dificuldades – também aponta para o Saci politizado, o Saci que luta contra os preconceitos e abusos, o Saci que é rei na terra dos direitos humanos.

“Ele é um mito de liberdade por causa do seu capuz vermelho, que é um símbolo de liberdade desde a Roma antiga quando a deusa Libertas oferecia esse capuz para os escravos que eram libertados. O capuz vermelho também está presente nas imagens clássicas que trabalham com a liberdade. Nas revoluções, como a Francesa, na Guerra Civil norte-americana, há um resgate histórico desse símbolo do barrete vermelho. É também por isso que os duendes usam todos uma carapuça vermelha. Porque eles são livres como a natureza”, revela. É por isso que, na lenda, tirar o capuz do Saci é receita básica para conseguir capturá-lo. “É claro que a gente vê uma metáfora nisso. Muitos tentam tirar a liberdade do Saci e por tirar a liberdade do Saci a gente pode pensar: tirar os direitos conquistados pelos negros, pelos homossexuais, pelas minorias. Tirar a liberdade de expressão. Estamos vivendo hoje uma tomada dos nossos direitos. Esse saci que é um mito da liberdade nos convida para a luta, para as ruas, para vestir nosso capuz. Ele nos leva ao enfrentamento”, garante.

Saci x Halloween
Será que o Saci se daria bem com as figuras do Dia das Bruxas para que fizessem suas traquinagens juntos? Ele continua nas fazendas, nas matas ou já veio para a cidade grande, em meio a prédios, comer fast food?

O saciólogo se diverte com as perguntas do DIARINHO. “Primeiro, sim. Imagino que ele se daria bem com as figuras do Halloween, mas não sei se ele não passaria a perna nelas com sua astúcia”, brinca.

Andriolli diz isso porque não é um polarizador que coloca a celebração do Dia do Saci em oposição ao Dia das Bruxas. Para ele, cultivar as brincadeiras e o imaginário que as figuras do folclore trazem deve ser genuíno, natural e livre, como o próprio Saci defende.

O pesquisador explica que a ponta dessa briga ganha força em 2003, quando é fundada a ONG brasileira mais consistente com o trabalho de valorização do mito e do folclore brasileiro: a SOSACI – Sociedade dos Observadores de Saci. “Eles vem com uma pegada da luta anti-imperialista, onde as narrativas estrangeiras estão tomando conta do Brasil e nós esquecendo as nossas. Por isso é comum vermos frases como ‘halloween é o cacete!’ ou “halloween com moranga só se for com carne seca’. Essa é uma bandeira deles que eu acho válida a princípio. Mas eu vejo que isso não faz sentido e não comunica com o jovem que está na internet consumindo cultura do mundo todo”, diz.

Para ele, os polarizadores também deveriam se inspirar em Monteiro Lobato que permeou suas histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo com figuras do folclore universal. “Lá não conviviam apenas Saci e Cuca, mas também mitos da mitologia grega como a Quimera e o Minotauro, personagens do cinema como o Gato Félix, Tom Sawyer. Esse universo fantástico compartilhado é uma bandeira que Monteiro Lobato trouxe e com isso ele valorizou o folclore brasileiro junto ao folclore universal e essa cultura pop”, argumenta.

Sobre comer fast food? Não, o Saci não comeria um McDonald’s, segundo Andriolli. “Fast food é todo formalzinho, as receitas do Mac são padronizadas. O Saci é contra padrões. O que ele vai fazer é bagunçar o seu lanche. Pedir sem cebola e vir com. Ele vai dar nó no seu fone de ouvido, ele gosta de aprontar”. Com isso, o pesquisador afirma que o Saci não vive mais no campo. Sim ele está nas nossas cidades também. “ O grande trabalho que tento fazer é mostrar essa presença constante do Saci. Ele rompia com a vida monótona do caboclo, assim ele faz na cidade grande, com quem está atrasado para chegar no trabalho, com quem tem que pegar o trem, mas perde. Esse é o Saci”.

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