[Clipping] A sobrenatural Curitiba. Conheça as lendas urbanas da cidade

Capital paranaense “esconde” diversas histórias fantásticas por trás da arquitetura e até mesmo dos nomes de bairros. Pesquisadora Luciana do Rocio Mollon já reuniu mais de 300 delas, criadas no imaginário popular

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Luciana do Rocio Mollon ao lado do gato Kiko: pesquisadora já compilou mais de 300 lendas urbanas ao longo de sua vida (foto: Franklin de Freitas)

Publicado por Bem Paraná
em 25/10/2016

Quem é de Curitiba ou já passou pela cidade provavelmente escutou alguma lenda urbana da cidade. A mais famosa, certamente, é a da Loira Fantasma, uma mulher que pegava corrida de táxis e desaparecia misteriosamente do carro ao se aproximar do cemitério do Abranches, que seria sua morada. O cenário curitibano, porém, é povoado por uma série de outras histórias assim, passadas no boca a boca, num misto entre fantasia e realidade, atiçando o imaginário popular.

Com a proximidade do Halloween, que será celebrado na próxima segunda-feira, essas lendas e causos, passadas de geração para geração, voltam a ganhar força com seus fantasmas, espíritos e mistérios. E embora muitos questionem a veracidade das histórias, a especialista Luciana do Rocio Mollon, autora do livro Lendas Curitibanas destaca que a maioria guarda ao menos um fundo de verdade.

Lendas urbanas são histórias, causos, que sempre envolvem o sobrenatural e passam de boca em boca. Aí tem sempre aquilo de que quem conta aumenta um tanto, a velha história do telefone sem fio. Então sempre vão aumentando, diminuindo mais alguma coisa da história, e assim se cria uma lenda”, explica Luciana. “Pessoas diferentes, de vários locais da cidade, contam a mesma coisa. Com certeza tem um fundo de verdade”, complementa.

Luciana, inclusive, é uma das maiores especialistas na área. Quando criança, enquanto os colegas gostavam de ler e escutar histórias como a da Cinderela ou da Branca de Neve, ela pedia para sua mãe contar histórias mais aterrorizantes, como a da Loira Fantasma, do Castelo do Drácula ou mesmo da Maria Bueno, outra personagem que marca forte presença no imaginário curitibano.

211A paixão por lendas, inclusive estava no sangue. Ainda na juventude, Luciana entrou escondida numa espécie de galpão de seu avô, onde descobriu uma coleção de obras voltadas ao misticismo e à magia, além de diários nos quais ele anotava lendas urbanas e histórias de terror de Curitiba. Mais tarde, com aproximadamente 20 anos, essa paixão começou a se tornar um ofício quando Luciana começou a trabalhar no comércio, fazendo o cadastro das freguesas numa empresa de sua família.

“Sempre perguntava ‘a senhora mora no bairro tal? Lá tem lendas, histórias de fantasma?’ Aí elas iam contando e eu ia anotando tudo”, relata. “Daí em 2002 precisei fazer um curso de informática, era uma exigência do mercado de trabalho, e a professora ficou sabendo que eu gostava de lendas urbanas, gostava de escrever. Aí ela disse para eu fazer um blog. Hoje tenho mais de 300 lendas publicadas, além do livro.”

LENDAS URBANAS DE CURITIBA

A Águia Bicéfala
No vão entre o Edifício Acácia e seu vizinho, na Praça Zacarias, um pouco acima da marquise, há uma estátua de uma águia com duas cabeças, um símbolo maçônico. É que entre 1899 e 1961 o local pertenceu a uma fraternidade maçônica, que em 1919 inaugurou um templo no local, colocando no topo a famigerada estátua. Reza a lenda que durante a noite a escultura ganha vida e conversa, principalmente, com crianças.

Gato Kiko
No século XIX morava na Rua Dr. Muricy, no Centro, um costureiro chamado Kiko. Ele amava felinos e afirmava que quando morresse gostaria de reencarnar num gato. Contudo, era perseguido por ser homossexual e acabou morto com um tiro. Anos mais tarde, abriu no local a loja Kisses, de roupa femininas, e em 2010 a dona encontrou um gato miando em sua porta. Adotou o bichano e batizou-lhe de Kiko em homenagem ao personagem do seriado Chaves. Há quem acredite que o animal seja a reencarnação do antigo proprietário do imóvel e que quem acariciar a cabeça do gato e fazer um pedido tem seu desejo realizado.

Espíritos da Reitoria da UFPR
São diversas as lendas envolvendo a Reitoria da UFPR, localizada no bairro Alto da XV. A mais famosa é sobre os suicídios, todos com pessoas se jogando do 11º andar do prédio – em 1989, um aluno que teve um caso com uma professora casada; em 2005 um estudante de História, que, reza a lenda, dizia conversar com um jovem que havia se suicidado ali anos antes; e em 2012 uma moça que, segundo colegas, teria problemas com a família. Há também quem diga que a garota escutava vozes no local.

Edifício Maison Blanche
Outro prédio que há quem diga ser assombrado. Nos anos 1930, quando funcionava no local o Cine Curitiba, uma senhora casada teria entrado no local com seu amante, mas acabou descoberta pelo marido e foi morta a facadas. Surgiu então a história de que seu espírito assombrava o cinema, demolido no final daquela década. Nos anos 1980, com o prédio já em pé, um marido teria mandado matar a esposa para ficar com o dinheiro do seguro de vida. Já em 2008, uma mulher que dizia ver espíritos no prédio e que estas almas atormentariam sua família jogou a própria filha, de apenas oito meses, do sexto andar do edifício.

Maníaco da Foice e o Lobisomem
Em 1977 um bandido apelidado de Paraibinha tocou o terror em Campo Largo, na RMC. Ele assaltava nas estradas rurais e matava suas vítimas com uma foice. Um dia entrou numa casa, roubou a família e matou todos os seus membros, menos Paulo, o filho mais novo que tinha 13 anos de idade e permaneceu escondido num armário do porão. O jovem, então, jurou vingança. O curioso, porém, é que ele tinha fama de virar lobisomem. E teria sido justamente numa sexta-feira de Lua cheia que o serial killer foi morto na estrada de uma vila rural chamada Morro Grande. Ele foi golpeado com sua própria foice nas pernas, nos troncos e nos braços. Seu corpo foi mumificado e está até hoje no Instituto Médico Legal.

Loira Fantasma
Na década de 60 uma loira muito bonita pedia corrida de táxi até o cemitério do Abranches. Quando chegava no local, ela pedia para o taxista aguardar um pouco, saída do veículo e entrava no cemitério desaparecendo em seguida. Dizem que ela assusta os taxistas porque quando era viva, teve uma morta trágica durante viagem de táxi, onde teria sido estuprada e morta por um taxista.

Maria Bueno
Jovem e bonita, Maria Bueno gostava de dançar e, por isso, vivia nos bailes, onde acabou conhecendo o soldado Inácio Diniz, do Exército, com quem foi morar. Uma noite, porém, Diniz estava de serviço no quartel e haveria um grande baile, do qual Maria insistia em participar. Seu companheiro, porém, a proibiu de sair e os dois tiveram uma discussão. Ele foi para o serviço e ela, para o baile. Seu companheiro então ficou a espionando, escondido na Rua Campos Gerais (hoje Vicente Machado). Quando a mulher passou sozinha, ele a degolou com um punhal. No lugar onde Maria Bueno morreu, foi colocada uma tosca cruz de madeira. Nos pés desta cruz, nasceu uma rosa vermelha. Maria Bueno era muito popular e admirada pelo povo, que ia rezar e acender velas. Contam que aconteceram graças e milagres, transformou-se numa grande romaria.

Gato Boris
O gato Boris, negro, morava dentro de um sebo e costumava passear pelo Largo da Ordem. Dizem que nas noites de Lua Cheia ele virava homem e passeava pelos bares ao redor. Em fevereiro deste ano, porém, acabou falecendo após ser atacado por um pitbull e sofrer por conta de um problema no coração. Agora, há quem diga que o fantasma do gato doe livros para crianças carentes em noites de luar.

Mula Milagrosa
Um padre que rezava missas na Igreja Nossa Senhora das Dores tinha uma mula de estimação chamada Bela Vista, que ficava do lado de fora da igreja e costumava brincar com as crianças que moravam na região. Algumas beatas, porém, não gostavam do animal de estimação e ficaram irritadas ao saber que o padre queria o usar em uma festa da paróquia e reclamaram com o bispo, que proibiu a entrada da mula na igreja e ainda acabou por ordenar sua transferência para um sítio na cidade de Quitandinha. Lá teria salvo um menino que se afogava numa lagoa próxima e salvo uma jovem que era seguida por um bandido numa floresta ao aparecer com uma cabeça de fogo.

Vaca do Bacacheri
Entre os bairros de Curitiba, há ainda a história do bairro Bacacheri, um tanto cômica. Conta-se que pela região morava um francês que tinha uma vaca chamava Cherry. Essa vaca, porém, acabou sumindo, fazendo com que seu dono saísse desesperado em sua busca, gritando, numa mistura de português com francês: “Cadê minha baca cherry? Baca cherry?”. Ele, inclusive, teria desaparecido durante as buscas e há quem diga que até hoje seu espírito grita durante as noites “cadê a baca cherry?”.

Bruxa Ana Formiga
Perseguida em sua terra natal, a Escócia, a feiticeira Ane O’Neil desembarcou no Brasil em meados do século XIX. Desembarcou no porto de Paranaguá, subiu a Serra e veio para Curitiba, onde montou sua tenta na Rua Benjamin Lins para realizar curandeirismo e ler a sorte de pessoas. Ela, porém, era hipoglicêmica e, por isso, comia muitos doces, recebendo o apelido de Ana Formiga. Um dia, porém, foi presa por um cabo ao roubar guloseimas numa confeitaria. O homem era recém-casado e acabou amaldiçoado pela bruxa, que bradou: “Quando eu sair deste lugar , farei um feitiço forte e você perderá a sua amada”. Dito e feito: um dia após a libertação de Ana, a esposa do cabo acordou com uma rã seca que tinha presa às pernas uma rosa branca e uma cruz na boca. A mulher também teve pesadelos com formigas invadindo sua casa. Uma semana depois, ela morreu de uma doença que os médicos não souberam diagnosticar. Hoje, onde era a antiga casa da bruxa fica um hotel de luxo. Há quem diga ter visto vultos estranhos e que o telefone toca misteriosamente em quartos desocupados do local.

O palhaço e o Motoqueiro do Presídio Ahú
Nos anos 1970, um tarado se vestia de palhaço e perseguia mulheres com uma serra elétrica em vilas rurais da Região Metropolitana de Curitiba. Preso, acabou mandado ao presídio do Ahú, onde sofreu na mão de outros presos e acabou falecendo. Teria virado um fantasma, que aparecia, até o fechamento do local, vestido de palhaço com uma serra elétrica para assustar os homens que cometeram crimes contra as mulheres.

Na década seguinte, foi vez de outro homem passar a “assombrar” o local. Seria um rapaz que, depois de descobrir ter contraído o vírus da Aids de uma loira namoradeira, passou a andar de moto espirrando ácido no rosto das loiras que encontrava pelas ruas. Condenado, foi levado ao presídio, onde morreu. Há, porém, quem diga que ele ainda sai nas noites de lua cheia do presídio com sua moto para seguir com sua vingança.

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