As Folcloristas – Mulheres que marcaram a cultura popular brasileira

INEZITA BARROSO

Por Andriolli Costa

Quem inicia as leituras sobre temas folclóricos logo passa a reconhecer vários nomes. Silvio Romero entre os pioneiros, Simões Lopes Neto entre os regionalistas, quem sabe até um Barbosa Rodrigues pelo conjunto da obra. Câmara Cascudo, certamente é o principal, a ponto de Carlos Drummond de Andrade sugerir seu nome como próprio sinônimo do Dicionário do Folclore Brasileiro. “Já consultou o Cascudo? O Cascudo é quem sabe. Me traga aqui o Cascudo”.

Mas e quanto às mulheres? Certamente o campo do folclore contou com a participação de muitas entre suas inspirações. Eram as mães, avós ou mesmo amas que forneciam ao futuro pesquisador o “primeiro leite materno” de sua literatura – ainda nos termos de Cascudo. Monteiro Lobato, inclusive, dedica o Inquérito sobre o Saci à memória da “saudosa tia Esméria, e de quanta preta velha nos pôs, em criança, de cabelos arrepiados com histórias de cucas, sacis e lobisomens”.

Só que não é a isso que me refiro. Onde está a memória das mulheres folcloristas? Quais contribuições elas trouxeram para os estudos da poética popular? Como em tantas áreas do conhecimento, houve um nítido apagamento dessas histórias e que uma pesquisa rápida foi impossível de dar conta. Ainda assim, encontramos alguns exemplos que podem instigar novas descobertas e referências.

Conhece mais alguma folclorista? Mande a história para nós!

Alexina de Magalhães Pinto (1870-1921)

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Folclorista e educadora mineira, foi pioneira na utilização da cultura popular para compor livros destinados à educação infantil. Usava os provérbios para ensinar diferença de norma culta para a coloquial; investigava os aspectos morais das brincadeiras e as questionava quando necessário.

Livros:
Contribuição do folclore brasileiro para a biblioteca infantil (1907)
Os nossos brinquedos (1909)
Provérbios, Máximas e observações usuais (1907).

Cecília Meireles (1901-1964)

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Em paralelo às suas atividades como poetisa e pedagoga, Cecília também atuou como folclorista. Entre 1926 e 19333 produziu uma série de desenhos para estudar gestos e ritmos ligados à cultura negra no RJ.  Convidada para integrar a Comissão Nacional de Folclore, participa de maneira atuante com textos e colaborações. Buscava no folclore um elemento que facilitaria a compreensão entre os homens no pós-guerra.

Livros:
Batuque, Samba e Macumba – estudos de gesto e de ritmo 1926 – 1934.
Notas de Folclore Gaúcho-Açoriano.
As artes plásticas no Brasil – artes populares.

Stephana de Macedo (1903-1975)

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Cantora pesquisadora recifense, abriu caminho na grande mídia para artistas mulheres como Ely Camargo e Inezita Barroso. Recolheu cocos, toadas pernambucanas, cateretês, maracatus e corta-jacas.  Grava diversos discos, sendo que o primeiro deles, em 78 RPM, foi lançado em 1928.

Maria de Lourdes Borges Ribeiro (1912-1987)

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Folclorista, pesquisadora e poeta natural de Aparecida/SP. Uma das fundadoras do Instituto de Estudos Valeparaibanos. Sua pesquisa era especialmente voltada para as danças populares, mas também foi organizadora de exposições de artesanatos, procissões e manifestações das mais diversas matizes.

Livros:
Inquérito sobre práticas e superstições agrícolas de Minas Gerais (1971)
Na trilha da independência: História e Folclore (1972),
O Jongo (1984)

Regina Lagerda (1919 – 1998 )

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Folclorista, pintora e professora de Goiás. Foi a primeira diretora do Instituto Goiano de Folclore, e assumiu o cargo em 1964, hoje já extinto. Dedicou-se aos temas da cultura popular nas mais diversas áreas do serviço público, organizando exposições e gerenciando museus.

Livros
Papa Ceia – Notícias do Folclore Goiano (1968)
Folclore Brasileiro – Goiás (1977)
Histórias que o Homem de Bronze Contou (1981)

Ely Camargo (1930-2014)

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Folclorista, cantora, violonista e radialista de Goiás. Deslanchou na carreira a partir dos 32 anos, quando se mudou para São Paulo e assinou contrato com a Rádio e TV Tupi. Reuniu vasto material folclórico que preservava na forma de álbuns e que apresentava nos programa de rádio que apresentou já de volta à Goiânia. Destacam-se os LPs: Canções de Minha Terra (1962), Folclore do Brasil (1964), Danças Folclóricas e Folguedos Populares (SD)

Ruth Guimarães (1920-2014)

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Folclorista, escritora e poetisa. Foi aluna de Roger Bastide na USP, amiga pessoal de Mário de Andrade e Antônio Cândido. Traduzia a essência do caipira do Vale do Paraíba em romances e pesquisa. Centrava seu trabalho nos costumes, lendas e folclore negros e do interior paulista. É tida como a primeira escritora negra brasileira a ter projeção nacional com seu romance Água Funda.

Livros:
Água Funda (1946)
As Mães na Lenda e na História (1960)
Medicina Mágica: As simpatias (1986)

Inezita Barroso (1925-2015)

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Cantora, atriz, apresentadora de TV e folclorista. Começa a carreira cantando os sambas recolhidos por Mário de Andrade. Mais tarde, ela própria parte em viagens de pesquisa, recolhendo desde sambas anônimos e cururus a pontos de candomblé, que resgada e preserva. Sua contribuição não se deu em livros, mas com os álbuns que gravou. Destacam-se, desta forma, seu primeiro compacto Funeral de um Rei Nagô/Curupira (1951) e o projeto Inezita em todos os cantos (1975), um panorama sonoro do Brasil folclórico.

Emilia Biancardi (1932 – atual)

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Folclorista e etnomusicólogoa baiana fundadora do grupo parafolclórico Viva Bahia, o primeiro do Brasil, em 1962. Seu interesse pela música popular Coleção de Instrumentos Musicais Tradicionais Emília Biancardi, que hoje compreende mais de 1000 instrumentos oriundos dos cinco continentes.

Livros:
1969 – Cantorias da Bahia
1983 – Dança da Peiga
2001 – Raízes Musicais da Bahia

Marlei Sigrist (1949 – atual)

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Folclorista e professora do departamento de Artes da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Nascida em Valinhos, no interior de São Paulo, e apenas aos 31 anos muda-se para MS. Fundadora de grupos parafolclóricos Sarandi Pantaneiro, Camalote e grupos mirins. Atualmente é presidente da Comissão Sul-Matogrossense de Folclore. Seu livro, Chão Batido, é a maior referência da cultura popular do Estado, antes visto como mera curiosidade. Trata de danças, folguedos, mitos, lendas e costumes.

Livros:
Chão Batido (2000)
Pantanal: sinfonia de sabores e cores (2005)
Mestres do Sagrado (2014)

Cáscia Frade

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Maria de Cáscia Nascimento Frade é folclorista nascida em Carangola, MG. Fundadora do Núcleo de Cultura Popular da UERJ. Coordenou na década de 1980  uma equipe de pesquisadores que produziu o Guia do Folclore Fluminense. O livro reúne festas, danças, grupos rituais, jogos, mitos sistematizados para registro e acesso. Debruçou-se sobre vários temas, especialmente os ligados à educação e as festas populares, como a do Divino Espírito Santo.

Livros:
Guia do Folclore Fluminense (1985)
Cavalhadas, Ciclo da Quaresma, Festas de Fogueira (1980)
Jogos e brincadeiras infantis no Rio de Janeiro (1978)

Neide Rodrigues Gomes

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Folclorista com forte atividade na cidade de Joanópolis/SP onde fundou o Ponto de Cultura Ora Viva São Gonçalo. Durante anos foi presidente da Comissão Paulista de Folclore e hoje continua na instituição como vice-presidente. Coordenou o carnaval de rua do Museu da Língua Portuguesa. Seus estudos centram-se em festejos populares, como as festas do divino. Atualmente é diretora geral da Confraria do Divino Espírito Santo de Joanópolis.

Livros: 
As Pastorinhas de Pirenópolis – orgs (2014)
Teatro de Bonecos – uma experiência mágica na educação

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4 Respostas para “As Folcloristas – Mulheres que marcaram a cultura popular brasileira

  1. Andriolli, não pode ficar de fora a sua amiga Glaucia Santos Garcia. Que por muito tempo junto com seu falecido amigo Cláudio Ribeiro sustentaram sozinhos o site Jangada Brasil. Eu não conheço nenhuma mulher que tenha conhecimento e paixão maior pelo nosso folclore.

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  2. Andriolli, estou lisonjeada com a inserção do meu nome junto à outras mulheres tão importantes na construção de conhecimento na área do folclore brasileiro.Lembrei-me de tantas outras que conheci e admiro, como Laura Della Monica(SP), que pesquisou na equipe de Mário de Andrade, minha grande mestra na PUCCamp. Também lembrei de Zezé Collares em MG, que com a criação do grupo Banzé levou aos quatro cantos um pouco do folclore mineiro. Isso só para exemplificar, mas quero dizer que sua matéria é importante para nos despertar para uma lacuna existente na literatura do folclore brasileiro sobre a participação das mulheres. Já socializei no grupo da Comissão Nacional de Folclore e está lançado o desafio de fazer um levantamento de nossas companheiras de lutas. Elas já aderiram à ideia e, brevemente, você terá mais notícias, pois faremos um trabalho em rede. Obrigada por nos despertar.

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