Qual a origem do nome “Capelobo”?

Arte de Walmor Corrêa

Por Andriolli Costa

Uma figura mítica que tem fascinado muitos artistas contemporâneos, ao olhar para nosso imaginário popular, é a do capelobo. Os relatos colhidos por folcloristas dizem pouca coisa diferente daquilo que Câmara Cascudo registra em sua Geografia dos Mitos Brasileiros. Nele, o pesquisador aponta que o mito não está ainda muito difundido entre os mestiços, ficando mais restritos aos indígenas que contavam suas histórias no contato com os brancos. Copio abaixo o trecho para que possamos dar sequencia à sua problemática:

Como animal, o Capelobo parece com a Anta (Tapirus americanus), sendo maior e mais veloz. Tem cabelos longos e negros e patas redondas. A cabeça finda por um focinho lembrando o porco e o cachorro. No Maranhão é um focinho de tamanduá-bandeira. Sai à noite e ronda os acampamentos, barracões e residências perdidas na mata, catando cães e gatos recém-nascidos, como o Lobisomem. Apanhando animal ou homem, parte a carótida e bebe o sangue. Hematofagia do Lobisomem e mesma posição de ataque. Só pode ser morto com um ferimento no umbigo. Um meu informante, com doze anos de permanência nos rios paraenses, definiu o Capelobo como sendo o Lobisomem dos índios.

A forma de lobisomem indígena, já encantadora na época para ganhar o interesse do cronista, hoje se tornou coqueluche entre ilustradores em busca de uma criatura monstruosa, devoradora de miolos, quase indestrutível e com lastro nacional. No entanto, sempre que se menciona a origem do nome da criatura, o sufixo “lobo” leva a confusões que fizeram cair mesmo um pesquisador como Cascudo. Escreve ele:

“O nome de Capelobo é um hibridismo de capê, que tem osso quebrado, torto, pernas tortas, e o substantivo português lobo”.

Um dos problemas do texto de Cascudo é que por vezes ele trabalha com citações indiretas sem informar a fonte. Também é um problema quando se trabalha com um termo que seria supostamente indígena sem apontar a etnia. Existem cerca de 300 povos indígenas no Brasil, com línguas das mais variadas, por isso faz-se necessário ter claro de quem se está falando. Afinal, um termo para um povo vai querer dizer algo totalmente diferente para outro.

Entender seu raciocínio nos exige certa engenharia reversa. Cascudo está supondo que o nome seja união do Tupi – Cang (osso) e Peng (torto), como em “Capenga” – com lobo. Talvez para a etimologia da palavra aportuguesada isso funcione, mas se os relatos falam que este era um ser predominante no imaginário indígena, de onde viria a palavra LOBO?

Povo Apinajé. Foto de Curt Nimuendaju

Origens

Mais de uma vez já repeti que a discussão de origem é sempre uma armadilha. Primeiramente porque é muito difícil cravar com segurança qualquer versão definitiva de algo que ocorreu há tempos ancestrais. E em segundo lugar porque, na cultura, esta origem é sempre difusa. Nunca é um único fato ou elemento que dá forma à crença, mas sim um conjunto que vai da soma entre narrativas, distorções da escuta, aproximações simbólicas e assim por diante.

De toda forma, reconhecendo que o imaginário do Capelobo é muito maior do que qualquer fonte escrita possa contemplar, encontramos outro caminho para a sua etimologia na obra do etnógrafo Curt Nimuendaju. Nos seus trabalhos com os Apinajé, em 1939, ele explora a existência de outros povos – alguns deles míticos – que teriam coexistido com aquele povo na região da bacia do Araguaia-Tocantins. Entre eles estariam os Kupê-dyeb e os Kupê-rop.

Como informa a enciclopédia de Povos Indígenas no Brasil (PIB), do Instituto Sócio-Ambiental, os Apinajé estão classificados como “Timbiras Ocidentais”. Kupê ou Kupen seria um termo usado pelos Apinajé para identificar os não-timbiras, isto é, um “povo”, mas não o deles. Assim, temos várias histórias colhidas por Nimuendaju do povo morcego (kupê-dyeb), que no aportuguesamento daria origem aos Cupendipes.

Em um processo semelhante de aportuguesamento e escuta torcida, temos kupê-rop ganhando a forma de “cupelobo” e, por derivação, “capelobo”. Mas qual povo seria este? Rop ou Rob para os Apinajé, segundo Nimuendaju, seria a palavra usada para designar “Jaguar”. Povo onça? Não necessariamente. Jaguar era usado tanto para designar onças quanto cachorros. Mais um elemento que, no contato com o Europeu, certamente favoreceu a associação com Lobo.

O que isso significa?

“Nomear é conhecer”, este é o princípio da mitocrítica. O nome do mito é seu primeiro mitema, o menor unidade narrativa. Entre os povos indígenas que compartilham o mesmo significado de “Povo Jaguar” que os Apinajé, o Kupen-rob carregaria esta forma narrativa. Do contato com os brancos, o aportuguesamento do nome traz novas formas, que podem inclusive transformar não só sua aparência, mas suas ações, comportamento, etc. É de se imaginar que o Capelobo tenha se tornado mais “lobisomesco” justamente pelo seu rebatismo.

Isso quer dizer que o Capelobo é uma mentira e o Kupê-rop é verdadeiro? Não necessariamente. Afinal, se houver crença e esta for repassada adiante, o mito vive e existe. Também não quer dizer que Capelobo e Kupê-rop sejam sinônimos hoje em dia; afinal, a dinâmica da cultura popular fez com que ambos se tornassem seres distintos – ainda que partilhando o mesmo radical.

Abaixo, deixo o relato colhido por Nimuendaju entre outro povo, os Caiapó, no dossiê 104 mitos indígenas nunca publicados, da Revista do Patrimônio. Além da aparência de jaguar, há uma relação com a água que vale a pena notar.

Uma tropa de caçadores Kayapó estava acampada à margem de um pequeno lago muito profundo e de águas bem claras. As margens eram estranhamente limpas, como se fossem constantemente pisadas por gente, mas os Kayapó não deram importância a esse fato. Depuseram na margem os jabutis que tinham apanhado no caminho e foram caçar. Só deixaram atrás um menino que tinha subido a uma árvore. Algum tempo depois este viu como dois Kube-rop (rop – onça) assomaram d ‘água e saíram em terra. Tinham formas humanas mas as suas presas eram de um palmo de comprimento. Nos pulsos e abaixo dos joelhos usavam ligas vermelhas com borlas. Rodeando um deles o lago pela direita, e o outro pela esquerda, os dois recolheram todos os jabutis que os Kayapó tinham deixado, desaparecendo com eles nas profundezas do lago.

Quando os caçadores voltaram, o menino contou o acontecido a seu pai. “”Que estás dizendo aí?”, perguntou um outro que tinha apanhado algumas palavras do relato do menino. ”Nada, nada!”, disse o pai. Quando anoiteceu, os caçadores prepararam sua dormida rente à margem do lago. Depois de algum tempo, porém, o pai do menino declarou que ali não se podia agüentar, devido às formigas, e retirou-se com os seus parentes um pouco mais para longe. Mas também lá ele tornou a afirmar que as formigas não o deixavam dormir, mudando, sob este pretexto, o seu acampamento ainda mais para diante, no interior da mata. Durante a noite, enquanto os Kayapó estavam dormindo, subiram os Kube-rop do fundo do lago, matando a todos e carregando os cadáveres para a sua habitação subaquática. Na margem só ficou sangue.

A família do menino, que nada tinha sofrido, voltou à aldeia e contou o que se havia passado. Então, toda a aldeia dos lrãamráyre saiu contra os Kubê-rop; também as mulheres foram. Chegadas ao lado, estas fizeram ao seu redor enormes fogueiras nas quais esquentaram pedras, como para um forno de terra. Quando as pedras estavam em brasa, atiraram-nas, ao mesmo tempo, de todos os lados na água do lago, que logo começou a fumegar e ferver. Então apareceram primeiro as crianças dos Kubê-rop na superfície e foram mortas. Depois subiram também os adultos com os quais se procedeu da mesma maneira, ficando os Kubê-rop extintos.

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