Por que a Quaresma é o momento mais sombrio do folclore brasileiro?

download__2_-667060
Procissão das Almas em Jacaréi/SP

Por Andriolli Costa

Se a sexta-feira 13 se espalha pelo imaginário do ocidente como sinônimo de má sorte, azar mesmo é se deparar com os horrores da Quaresma, o momento mais sombrio do folclore brasileiro, onde espíritos e lobisomens andam livres. Vamos entender o motivo.

E o que é Quaresma? São os 40 dias que antecedem à Páscoa, contados a partir da 4ª feira de cinzas. Os motivos para o número de dias varia, mas dizem que espelha os 40 dias que Jesus jejuou no deserto, onde foi inclusive tentado pelo demônio. Mas o que tem a ver com folclore?

Folclore é tudo o que caracteriza modos de sentir, pensar e agir de um povo, conferindo identidade e transmitido pela tradição. Sim, engloba mitos e lendas, mas também pratos típicos, modos de fazer, etc. Um saber paralelo, que corre ao largo do que diz Escola, Governo ou Igrejas.

Então Religião não é Folclore, mas há Folclore a partir das Religiões (todas elas!). Pela influência católica, tão forte entre os Portugueses, incorporamos por aqui várias tradições. O medo da quaresma é uma delas, e encontra seu ápice na Sexta-Feira Santa, o dia da crucificação.

f3da540e7770ded66af5920a60eeb182
Arte: Amaro Francisco Borges

O temor é tanto que se espalha ao longo de todos os 40 dias, criando um período de interditos – que já foram seguidos com mais rigor. Não se poderia dançar, namorar ou até rir, pois seria tripudiar do sofrimento de Jesus. A pena? A pessoa pode criar rabo de burro ou pés de bode!

Cantar e assoviar também é proibido. O folclorista Mario Souto Maior acrescenta: na semana santa não se pode cortar cabelo, pregar algo (remete aos cravos da cruz) e até tomar banho! É que a visão do próprio corpo nu podia fazer você “pecar em pensamento”.

Dos interditos mais famosos está o de não comer carne – bovina ou frango. Antes durante toda a quaresma, hoje mais restrita à sexta-feira santa. Cada região desenvolveu sua própria tradição do que comer na data. Aqui em MS comemos Sopa Paraguaia ou Chipaguaçú. No Espírito Santo temos a torta capixaba e assim por diante. Mesmo aqueles que escolhem comer churrasco reforçam o interdito. Afinal, se você faz uma coisa com o único objetivo de contrariar uma crença, está no final a reconhecendo.

Nossos vizinhos da América Latina também encontraram seus substitutos à carne! Bacalhau? Não exatamente. Já que carne de rebanho não podia, foram a outros bichos. Na Venezuela é famoso um empadão de jabuti (pastel de morrocoy). No Peru, porquinho da índia (Cuy).

Sexta-feira Santa é dos dias mais terríveis. Como Jesus morre nesse dia e só ressuscita no Domingo de Páscoa, o folclore considera esses como dias de ausência de Deus na terra. É aí que a bicharada corre solta. Espíritos, lobisomens, mulas-sem-cabeça estão com força total.

Vale lembrar que o lobisomem no Brasil não se transforma na lua cheia e sim nas quintas ou sextas. Na quaresma, todavia, ele se transforma todos os dias! E se normalmente costuma ser pouco perigoso, atacando bebês não-batizados e pequenos animais, na quaresma fica mais violento.

quaresma4
Arte: Rosasco

Nossos lobisomens, como os de Portugal, se transformam quando o amaldiçoado vai a um espojadouro de animais, tira sua roupa e ali rola. Sua transformação corresponde ao animal que ali esteve. Normalmente é um cachorrão de orelhas grandes, mas pode ser meio porco, touro, etc.

Se num mesmo local se espojaram mais de um animal, o lobisomem vira uma mescla deles todos. Quanto mais animais, mais forte. Hélio Serejo, no início do século XX, fala de um lobisomem porco, touro e cavalo que destruiu sozinho um forte na fronteira com o Paraguai.

Qualquer animal afeta a transformação? Não. O lobisomem se transforma em animais de fazenda. Nosso medo é que aquele próximo à nós se revele violento, por isso o mito é tão forte. Assim, lobisomens guará ou onça, por exemplo, só existem na ficção, não no folclore.

Existe lobisomem mulher? Bom, tradicionalmente eu diria que não. O sétimo filho homem após seis mulheres vira lobisomem e a sétima mulher após seis homens vira bruxa. Mas já há alguns relatos de mulheres lobisomem. E não são como as peeiras ou fadas dos lobos de Portugal

E a mula? A versão mais comum diz que é uma mulher que teve um caso com um padre e por isso foi amaldiçoada. Outras versões falam de um “relacionamento” com o pai, com o compadre ou o padrinho (pater). Oras, não há relacionamento com pai, há abuso. Ainda assim, ela é a monstra.

Existem algumas poucas versões em que o padre é amaldiçoado, mas normalmente a culpa cai só sobre a mulher. Ela é “sem cabeça”, mesmo tendo freios, por ter supostamente renegado a razão pelos prazeres da carne. Os freios estão lá pra representar o controle.

Outra assombração portuguesa que aparece na nossa quaresma é a Porca dos 7 Leitões. Uma mulher amaldiçoada após a morte por ter cometido 7 abortos. Um mito misógino? Por certo, mas há um detalhe importante. A porca persegue maridos adúlteros que vivem na esbórnia durante a noite.

quaresma1
Arte: Dudu Torres

Há uma interpretação que diz que as mulheres amaldiçoadas como porcas eram amantes de homens ricos que as forçaram a cometer abortos para não assumi-las. A porca assim os assombra para que nenhuma outra mulher sofra o que ela sofreu. Discuti esse mito, o que significava historicamente o aborto no contexto português da contra-reforma e o simbólico que o cerca numa live com o Pablo de Assis do Mitografias e a Mariana Bandarra do podcast Talvez Seja Isso (sobre o livro Mulheres que correm com lobos).

Por fim, é na quaresma que os espíritos ficam perdidos. Por isso é comum grupos que fazem a cantoria e a encomenda das almas, ajudando a encaminhá-las. Outras procissões relembram a lenda da Procissão das Almas. Dizem que uma senhora muito fofoqueira certa vez viu uma estranha procissão passar. Uma criança lhe deu uma vela que ela guardou e foi dormir. Quando acordou, viu que na verdade recebeu um Fêmur humano – um alerta que ela logo entendeu. Nunca mais futricou a vida de ninguém.

Esses são apenas algumas das tantas tradições que mostram porque a quaresma é tão sombria! Agora, se quiser sair nas horas mortas, é por sua conta e risco. Quer saber mais? Ouça o podcast que gravei sobre o tema.

Considere colaborar com o Colecionador de Sacis assinando os planos de financiamento coletivo recorrente em http://padrim.com.br/saci ou http://picpay.me/colecionadordesacis. Mas compartilhar já ajuda bastante!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s