Ipupiara ou Negro D’água? Quem é a criatura no novo filme de Del Toro?


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Por Andriolli Costa

Estamos no auge da Guerra Fria, e isso é mais do que suficiente para estabelecer um contexto. Os embates entre as duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, já não se limitava mais ao poderio bélico ou ao sucesso econômico, mas também a uma corrida tecnológica que incitava a inovação e o experimentalismo. Tudo poderia representar uma vantagem contra o adversário – mesmo que longe dos parâmetros científicos. Foi assim que surgiram projetos, alguns ainda hoje nebulosos, que investiam em abordagens parapsicológicas ou até mesmo sobrenaturais. Telepatia, hipnotismo, percepção-extra sensorial e, por que não, a busca por seres fantásticos que pudessem pender a balança da guerra para o lado desejado.

Esse é o pano de fundo que Guillermo del Toro estabelece seu novo filme, o premiado A Forma da Água (2017) que estreia no Brasil apenas no dia 2 de fevereiro. Em mais um conto de fadas sombrio, o diretor estabelece a relação entre Eliza – uma faxineira muda  que trabalha em uma instalação militar – com uma misteriosa criatura anfíbia e humanoide captura na América do Sul. “Os nativos da Amazônia o cultuavam como a um deus”, explica o agente do governo interpretado por Michael Shannon no trailer, pouco antes de iniciar uma sessão de tortura com choque.

A cena foi suficiente para despertar nossa curiosidade. Um monstro sendo cultuado na Amazônia? Seria referência a alguma criatura do folclore brasileiro? De início dois seres se enquadrariam com maior facilidade na aparência do monstro: o ipupiara e o negro d’água. Qual deles seria? Mais do que mera especulação, o filme nos deixa uma ótima oportunidade para explorar melhor as características de cada mito.

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O Ipupiara

Este é um dos mitos mais antigos já registrado no Brasil. Está presente na carta de São Vicente do padre José de Anchieta de 1560, juntamente com Curupira e Boitatá. Segundo o jesuíta, o nome seria tupi para “aquele que mora na água“. A criatura era mais um dos “fantasmas” que assolavam os indígenas, matando e afogando aqueles que atravessavam o rio em suas canoas feitas de um só pau ou casca. Nenhuma referência à sua aparência é mencionada.

26195712_565396570466628_5734643176487069591_nTambém foi em São Vicente/SP, a primeira vila brasileira, que se registra a morte de um Ipupiara. O combate da criatura contra um comandante português foi narrado por Pedro Magalhães Gândavo em 1564. Conforme o cronista, o ser tinha 15 palmos de comprimento (o equivalente a 3,5 metros), corpo peludo e grandes cerdas no focinho, como bigodes, bem como uma barbatana capaz de o sustentar ereto. Entre urros e tentativas de mordida, o Ipupiara foi morto e arrastado para longe da água para secar.

Fernão Cardim, em anotações feitas entre 1583 e 1601, também descreveu os ipupiaras. Para ele, inclusive existem monstros masculinos e femininos. “Parecem homens de boa estatura, mas tem os olhos muito encovados. As fêmeas parecem mulheres, tem cabelos compridos e são formosas: acham-se estes monstros nas barras dos rios doces”. A criatura era conhecida por matar suas vítimas por meio de um poderoso abraço, estourando os homens por dentro – como as serpentes constritoras. No entanto quando sentem que a vítima morreu, “dão alguns gemidos como de sentimento e, largando-a, fogem“.

A descrição de Cardim é a que mais dá margem para uma referência ao filme. O sentimento descrito pelo monstro ao matar parece dialogar com a sensibilidade que Del Toro planeja incorporar ao seu monstro. Não há referências a barbatanas, como em Gândavo, e a ideia de que existem machos e fêmeas dão a essa versão um componente sexual que falta nas demais.

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O Negro D’Água, por Lêdo Ivo

Negro D’Água

Enquanto Ipupiara pertence ao imaginário indígena, ganhando forma no folclore brasileiro com o passar dos séculos, o mito do Negro D’água é bem mais recente. Não encontrei referências a ele anteriores ao ciclo das barcas no Rio São Francisco, iniciado em 1880. É inegável também o paralelo com os anos finais da escravidão, quando estes negros libertos representavam uma ameaça a ser temida, evitada, aceita ou em alguns casos controlada. É muito comum neste mito a oblação, uma oferenda respeitosa para permitir a passagem seguro do barco ou uma pescaria de sucesso. É um mito da regulação entre homem e a natureza, centrado na força das águas.

Esta criatura recebe diversos nomes dependendo da região. Caboclo d’água, Bicho d’água, Compadre d’água são alguns deles. Também são variadas as descrições.  Conforme Noraldino Lima, em obra de 1925, o tipo do caboclo d’agua que se recolhe maior número de depoimentos é o seguinte: “baixo, grosso, musculoso, cor de cobre, rápido nos movimentos e sempre enfezado”. A criatura traria o cabelo ruivo, como fogo, mas que se mostrava branco feito algodão nos caboclos mais velhos.

Wilson lins, décadas depois, encontra criatura semelhante: “baixo, troncudo, bela musculatura, pele bronzeada e olho no meio da testa”. José Teixeira, em O Folclore de Goiás, não fala nos olhos,  mas encontra outra característica da animalidade: o corpo coberto de pelos. “É todo preto, cabeça pelada. Mãos e pés de pato. É bobagem atirar bala, bate no couro peludo do negro e mergulha na água”.

Como as descrições são tão plurais, muitas versões do Negro D’água podem ter servido de inspiração para o filme. As “mãos de pato”, com membranas para a natação, capturam bem a imagem do filme. A pele lisa e as características anfíbias também. Um dos pontos negativos é que muitas versões do Negro d’água o descrevem como baixinho e troncudo, enquanto o monstro da Forma da Água é esguio e alto. Outro desencontro é quanto a região: sua presença se dá principalmente no sudeste, nordeste e centro-oeste do Brasil. Nada na Amazônia. Por outro lado, as oblações – na forma de oferendas de fumo e cachaça ao encantado, podem ser confundidas pelos estrangeiros como uma forma de adoração divina.

Monstro da Lagoa Negra

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Quando começamos a especulação sobre qual criatura folclórica teria inspirado Del Toro, muitos disseram que a referência era nenhuma. A Forma da Água seria apenas a versão do diretor de um clássico da Universal, Monstro Da Lagoa Negra, lançado em 1954. Esta, no entanto, também não é uma resposta suficiente. Afinal, no próprio filme dos anos 50 a Amazônia era mencionada como habitat da criatura.

Em entrevista ao jornalista Tom Weaver, o produtor do filme William Alland – também responsável pelo argumento do roteiro, recorda que a ideia surgiu anos antes em uma festa na casa de Orson Welles. Nela, Gabriel Figueroa, um cineasta mexicano (e não brasileiro, como tem circulado nas redes) insistia com os convidados sobre a existência de um povo peixe na Amazônia:

–  Figueroa falava que havia esta criatura vivendo na Amazônia que era metade homem e metade peixe. Uma vez por ano ela aparecia e tomava para si uma donzela. Depois disso partia e a aldeia ficava segura por mais um ano. (…) Por cinco minutos ele ficou ali, insistindo que não era um mito, que realmente havia tal criatura, e que o povo na Amazônia falava disso o tempo todo.

Cerca de 11 anos depois, Alland se baseou nesta conversa para escrever uma história chamada The Sea Monster. Com toques de A Bela e a Fera e tratamentos de Maurice Zimm, Harry Essex e Arthur Ross, surgia finalmente o roteiro de O Monstro da Lagoa Negra.

O que temos então é um americano que ouviu de um mexicano uma narrativa fantástica da América do Sul. Uma fonte terciária que pode ter derivado um mito realmente existente ao ponto dele se tornar irreconhecível. Fica difícil saber se Figueroa ouviu a história no Brasil ou em algum outro país. Afinal, a floresta amazônica também integra o território de Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Da mesma forma, fica difícil saber se entre as centenas de povos indígenas há algum que possua exatamente o mito narrado sobre o homem peixe.

No entanto, já ouvi uma história semelhante. Não com peixe, mas com uma serpente. Escreve Jesus Paes Loureiro, grande pesquisador do imaginário amazonense, que os tupinambá do Pará acreditavam que havia destas criaturas no lago Juá, pouco acima de Santarém. Quando alguma cunhatã era suspeita de ter perdido a virgindade, seus pais levavam-na ao lago cheia de presentes. Lá vivia uma serpente a serviço do deus do amor, Rudá, que era capaz de reconhecer as moças que se mantinham virgens. Se fosse donzela, a entidade recebia os presentes e partia. Do contrário, a garota era devorada.

Fruto deste amálgama de interpretações, o monstro de A Forma da Água representa os mistérios do fundo do rio. Esta mesma água que dá a vida, mas que também, uma vez revolta, pode tirá-la. Sensível e acalentadora em instantes, violenta e mortal em outros, encontramos os ingredientes certos para mais um mergulho no encantamento do diretor.

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9 Respostas para “Ipupiara ou Negro D’água? Quem é a criatura no novo filme de Del Toro?

  1. Pingback: Fatos desconhecidos – Os erros na abordagem dos deuses brasileiros | Colecionador de Sacis·

  2. Agora que vi que tem a versão em português, depois de ler tudo em inglês haha
    Excelente texto! Não tinha ideia de que havia alguma inspiração mitológica em ambos os filmes

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  3. Boa noite, eu poderia falar muitas coisas a respeito deste ser (negro d´água,), mas sei que cada um acredita ou não nesta criatura, se existe ou não, se é real ou ilusão a sua existência. Porém eu não acreditaria , não mesmo, jamais acreditaria se visse uma matéria a tal respeito, ou se ouvisse alguém que falasse de tal ser, mas tenho plena convicção que tal ser existe, pois já vi um, em nada se parece com esse do filme, a constar por sua musculatura, assim como as barbatanas. Se uma pessoa não passou pela experiência, só resta mesmo acreditar ou não acreditar…crer por crer, isso é acreditar no testemunho e pronto. Assim como só resta a quem ler o que eu estou dizendo, acreditem se quiserem …..passei pela experiência com tal ser, é o que posso dizer.
    RRV Minas Gerais

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  4. Pingback: PORANDUBA 3 – Urbânia | Colecionador de Sacis·

  5. Será que a estória que o mexicano ouviu não era a lenda do boto? A estética de del Toro parece ser realmente baseada no clássico mostro da lagoa negra e o roteiro tem um bom tanto de “A Bela e a Fera”. Entretanto, é comum que se considerem botos (e as baleias) “peixes”.

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  6. Pingback: PORANDUBA 20 – Folclore e Apropriação Cultural | Colecionador de Sacis·

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