Quem eram os escravos de jó?

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Arte: Jean-Baptiste Debret

Por Andriolli Costa

Como várias das cantigas tradicionais brasileiras, a clássica Escravos de Jó tem sofrido uma série de atualizações por pais e educadores preocupados com as mensagens a serem transmitidas aos seus filhos. Surgem então os Amigos de Jó, que jogavam caxangá. Também não são mais “guerreiros”, mas “festeiros” os participantes da brincadeira. Para além de qualquer acusação de “politicamente correto”, pretendemos neste artigo explorar como possível o lastro da cantiga, para compreender o que está ou não sendo alterado.

Quem busca pelo significado da música nos mecanismos de busca se depara com uma terrível série de especulações apresentadas com ares de certeza. Na Super Interessante, encontramos a ideia de que o Jó bíblico teria sido apropriado pela cultura negra para “simbolizar o homem rico”. Já na Fatos Desconhecidos, encontramos a suposição de que “zigue zigue zá” era o ziguezague que os escravos faziam para fugir do capitão-do-mato. Palpites com zero rigor, que não devem ser levados a sério.

Pontuamos, de início portanto, que não existe uma resposta já construída. O que temos são pistas que podem ser seguidas. Vamos começar a desvelar esses caminhos agora.

Escravos de Jó

“Escravos de Jó
Jogavam caxangá
Tira, põe, Deixa o Zé Pereira ficar
Guerreiros com Guerreiros
Fazem Zigue Zigue Zá”

Em suas variáveis, temos “Deixa o Zambelê ficar” ou então “entrar”. Na minha infância, me lembro de simplesmente “deixa ficar”, sem determinar o sujeito.

Conhecendo a estrutura da transformação da cultura popular, um comportamento bastante reincidente é a transformação de palavras pela aproximação ao português. Foi assim, por exemplo, que o Mboitatá vira “Boi”, sendo inclusive encarado como touro de chifres de fogo em comunidades caiçara com forte influência portuguesa. Assim que Taperê deriva em um sobrenome lusitano, Pereira, como em Matinta Pereira.

A interpretação que mais faz sentido para mim é a seguinte: nos idiomas Bantô e outras línguas africanas, Inzó ou Únzó significam “Casa, Terreiro, Habitação”. Os escravos de Jó, portanto, não remetem ao Jó bíblico, mas aos “escravos domésticos”. Zambelê deriva no português Zé Pereira. As demais palavras, ainda cabe investigação.

Faria sentido trocar Escravos por Amigos? Depende do sentido que se busca. Ao evocar os “Amigos de Jó”, tiramos o contexto histórico da escravidão que subjaz no imaginário da música. Voltamos então ao Jó da bíblia, aquele que foi testado por Deus e duramente castigado para provar sua fé.

Que fizeram então os “amigos” deste Jó? De início se compadeceram de seu sofrimento. Depois, ao verem a persistência do castigo divino, passaram para um tom acusatório. Se o homem sofria, era porque devia ter feito coisas horríveis! Assim, esses falsos amigos, que se tornaram ao final um fardo para Jó, só colaboraram para seu tormento.

Há ainda uma outra versão atualizada. Ao invés de escravos, são Guerreiros Nagô os brincantes. Como substituto, compreendo ser mais válido que louvar a fajuta amizade com Jó. Temos aí outra coisa sendo criada a partir da tradição. Se será apropriada pelo folclore ou desaparecerá como modismo, apenas o tempo dirá.

Fonte: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8139/tde-26052014-104009/en.php

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