Saci também pula em terreiro de Umbanda #Saci100

umbanda

Douglas Rainho

Quem vê a gira de Umbanda, pode se perguntar, mas onde pode entrar Saci aqui? Religião trata realmente de folclore e mitologia? Então, respondo a vocês: Com toda certeza, tem saci dentro dos terreiros de Umbanda.

A Umbanda é uma religião brasileira com influências múltiplas das culturas formadoras do povo brasileiro. Encontramos elementos da cultura indígena africana e suas muitas tradições (com predomínio da cultura Nagô, Malê, Fon e Bantu) e também europeia. Desse amalgama todo, surge o povo brasileiro, a cultura brasileira, a Umbanda e também a figura que conhecemos hoje por Saci-Pererê.

De fato, muito dos elementos do Saci são herdados dessas figuras que se fundiram a entidade original. Como o mental coletivo é quem dá forma ao mito, isso é totalmente compreensivo. Podemos dizer que a pele negra acaba sendo herdada dos orixás Ossaim e Arôni. A forma de redemoinho e a própria perna única pode ser associada a essas duas entidades africanas, variando conforme a lenda. Mas e o cachimbo? Pois bem, Arôni possuía um cachimbo feito da concha de um caracol, no qual ele usava diversas ervas, não necessariamente o tabaco, um produto tradicional da pajelança latino-americana.

A figura do Saci é mais presente nas questões filosóficas e míticas da religião, não se apresentando de forma ostensiva dentro dos terreiros de Umbanda. Ou seja, o Saci não incorpora, mas pode ter sua presença evocada para determinados trabalhos, conforme a vertente que se pratica. Alguns dirigentes e praticantes acabam substituindo a figura do Saci pelo próprio Ossaim ou Arôni e outros tantos pelas figuras de Exu e Exu-Mirim. Contudo, as Umbandas com um viés mais de encantaria, conseguem trabalhar muito bem com a entidade Saci-Pererê, seja ela um elemental natural ou artificial, conforme alguns estudiosos do assunto debatem, ao ofertarem ao saci ervas, cachaça e fumo.

Aliás, esses elementos estão associados a diversas outras manifestações, seja dos próprios Exus, quanto de outros encantados, como o Negô d’água e muito mais. Praticamente temos a presença de fumo e cachaça (ou marafo, na linguagem de terreiro) em praticamente todas as evocações e em todos os “pagamentos” pelos serviços prestados.

A forma de manifestação do Saci, cabe bem na Umbanda, nas questões que precisam de interferência para descomplicar a vida das pessoas. O Saci, como um moleque levado, sabe exatamente como outros levados pensam, e pode por meio de sua sagacidade envolver os “adversários” em situações complicadas, impedindo que esses pratiquem o mal contra os seus protegidos.

Esse é um papel que também cabe a Exu dentro da Umbanda, onde percebemos como essa figura se encaixa bem nas linhas de Esquerda. O Saci, apesar da imagem até inocente que temos dele, graças a Monteiro Lobato, é um trickster (categoria de deidades ou entidades que são dúbias) e pode causar tanto “dores-de-cabeça” quanto ajudar sem a menor cerimônia, só porque querem.

Os Pretos-Velhos de Umbanda, contam causos de moleques levados que sempre dão trabalho para eles, mas que também trabalham embaixo de suas “vistas” para a prática das “mirongas de negô”. Dizem que para você chamar o Saci, basta assobiar com um bocadinho de fumo e um golê de Marafo que o moleque arteiro vem logo para te ajudar.

Dentro da Umbanda não se trabalha com práticas negativas para prejudicar alguém. Então o Saci, assim como todas as entidades, tem uma função de caridade e de prestação de serviços, para descomplicar a vida e desimpedir os caminhos. São seres mal compreendidos e deixados de lado, assim como os Exus, pois poucos querem se dar ao trabalho de compreender a complexidade de suas ações. Não podemos julgar, pois se até Maria Mulambo queria arrancar o couro do moleque serelepe para fazer uma casaca, imagina só o que ele não aprontou com a Moça?

A Umbanda como uma religião que utiliza muito de simbologia e metáforas, respeita as crenças, lendas e mitos que já existiam na terra brasileira, compreendendo que todos são interpretações para forças provenientes da Divindade Criadora e que são lícitas de serem evocadas, trabalhadas e também reverenciadas (mas não idolatradas) desde que a prática do bem sempre paute todos os trabalhos.

Saravá ao Saci e Saravá a todos os encantados brasileiros!


Douglas Rainho é Idealizador do blog Perdido em Pensamentos e Pai-Pequeno na Casa de Caridade Nossa Senhora Aparecida, em Santo André/SP. 

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4 Respostas para “Saci também pula em terreiro de Umbanda #Saci100

  1. Pingback: [Podcast] Papo na Encruza – Deuses Brasileiros | Colecionador de Sacis·

  2. Ganhei de presente uma escultura de um saci perere, só o conhecia como personagem de Monteiro Lobato. Lendo aqui, gostei muito do significado mistico, e até entendi o motivo de eu ter ganho esse presente. Muito intetessante, bacana mesmo! Obrigada

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  3. Hoje acordei e vi, pela clarividência, um Saci. Pensei então nele como um elemental mas logo as minhas mãos começaram a se mover como o fazem alguns Exus. Vi que se tratava de um Ser da Esquerda ou um elemental que trabalha com as Linhas de Esquerda. Para concluir, senti o ímpeto de perguntar para o Preto-Velho sobre o Saci – como vi que se tratava de um elemental da Esquerda, a minha atitude usual seria perguntar, primeiro, ao Exu. Neste texto, encontrei um grande resposta. Sou muito agradecida e torço para que continue a nos instruir. Que possa receber as graças pelas suas elucidações!
    Laroyê Exu! Salve as Suas Forças! Salve!

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