Conto – É um pássaro? #Saci100

2e21

Texto da Revista Saci Pererê – 100 anos do Inquérito. Clique aqui para ler e baixar.

Por Andriolli Costa

O vulto passa por cima dos prédios, desafiando a gravidade com saltos precisos e impossíveis. Na rua, os curiosos se acotovelavam.

— É um pássaro? – quis saber uma senhora gorda, ajeitando os óculos de aro grosso.

— Olha, dizem que já foi. – respondeu uma vozinha debochada, com ares de sabe tudo.

— É um avião? – insistiu um rapaz com cara de empresário, tentando tampar o sol com uma pasta de couro.

— Desculpe, você tem algum tipo de demência? – respondeu a voz. O homem se virou, procurando seu interlocutor. Olhou para baixo procurando confusão. Não valia a pena, decidiu.

— Avião? – um taxista ali parado se intrometeu. — Hehe, só se for aviãozinho do tráfico.

— Não entendi, é por que ele é preto? Racismo é engraçado pra você, agora?

O taxista quis bater boca, mas preferiu arrancar quando o anão ruivo começou a arrancar lajotas da rua e jogar em sua direção.

— É por isso que eu prefiro Uber – bufou.

As pessoas tentavam se afastar daquele homem bizarro que insistia em comentar tudo o que falavam sobre aquela sombra saltitante. Preferiram não falar mais nada e começaram a se afastar cabisbaixos, como quem sai do Banco do Brasil fingindo não ver os pedintes que aguardam na porta.

Vendo que ninguém mais lhe dava atenção, o anão precisou apelar.

— Vocês querem saber o que é? Eu posso contar.

As pessoas voltaram a se aglomerar em torno dele. Poucos, no entanto, o encaravam. Aqueles olhos amarelos eram estranhos demais. Intensos demais. Contrastavam com a pele branca e os cabelos desgrenhados, vermelhos como fogo. Quando achou que havia gente o suficiente ele apontou para o chapéu virado aos seus pés. Não deu mais uma palavra até que algumas notas tivessem se amontoado.

— Não é um pássaro, não é um avião. – começou, guardando o suspense – Ele é um saci.
Parte da aglomeração começou a ir embora. Alguns, mais revoltados, tentavam pegar o dinheiro de volta, mas eram afastados a chutes pelo anão. Ele continuou.

— Pensem no que sabem dele. Pensem no que sai nos jornais. Uma sombra, dizem que com uma perna só. Salta como se andasse sobre o vento, capuz vermelho na cabeça…

— E a capa?

A voz era de uma menina. Pouca idade, os olhinhos brilhando. Usava allstars coloridos com canetinha e a camiseta com estampa do Jovem Nerd.

O homenzinho sorriu, exibindo dentes levemente pontiagudos, mas que nada tinham de ameaçadores.

— Bem observado. A carapuça virou máscara, um lençol vermelho no pescoço virou capa. É que esse saci há algum tempo resolveu deixar o mato e virar super-herói na cidade grande. Aqui os mitos são outros.

Mais gente foi embora. “Bobagem”, reclamavam. Lamentando a perda de tempo e dinheiro. Apenas a menina ficou. Ela ajeitou a mochila nas costas, sorriu com um pouco de dúvida.

— Tipo o Superman? – quis saber.

— Eu diria que está mais para o Batman.

— E como você sabe disso?

— Digamos que eu já fui o Robin.

Ela riu para ele. Verdade ou mentira, tinha sido uma história divertida. Colocou uma moeda da mesada no chapéu. O homem pigarreou. Colocou mais um real e voltou a andar em direção ao trem. Estava quase colocando os fones de ouvido quando mais uma dúvida soou na cabeça. Voltou-se novamente para o anão.

— Se você é o Robin, por que não está lá ajudando? Ele precisa de um sidekick.
O sorriso do homenzinho desapareceu. Ele a encarou com aqueles olhos amarelos, mordendo o lábio inferior com o canino pontiagudo, como que matutando na melhor resposta. Ainda a encarando, sentou-se em um banquinho.

— Você lê os quadrinhos, né?

— Só os encadernados.

— Certo, certo. Mas você vai entender.

Ele esticou as perninhas, tão curtas que chegavam a ser engraçadas. Subiu as pernas da calça. Uma lágrima ameaçou se esgueirar pelo rosto peludo.

— Sabe como é. Nem sempre o Batman chega a tempo de salvar seus companheiros.

E no lugar daqueles famosos pés, um dia virados ao contrário, havia apenas próteses. Duas próteses de madeira que encerraram sua carreira de vigilante.

A menina foi para casa em silêncio. Pensava em qual supervilão teria feito aquilo. Seu único consolo é que agora ela sabia a quem recorrer. Aprendera com o homenzinho a fazer o bat-sinal, conseguira o relógio do Jimmy Olsen. Se as coisas ficassem feias, era só assoviar.

Ele viria.

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