Folclore e Religião – Cinco animais amaldiçoados ou abençoados pela sagrada família

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Por Andriolli Costa

Religião e cultura popular brasileira sempre andaram de mãos dadas, gerando episódios fantásticos que, se pouco têm de acuidade histórica, geográfica, ou biológica, são ricos em significado. Carregam a potência desse processo de secularização das crenças, da presença do divino no cotidiano do povo.

Um dos episódios que mais deu origem à lendas é o ciclo conhecido como “a fuga para o Egito”, quando a sagrada família – Maria, José e o Menino Jesus – fogem ao saber que o rei Herodes planejava matar todos os recém-nascidos da região. Durante a escapatória, Nossa Senhora teria pedido ajuda a vários animais. Os que a atenderam, receberam graças. Os que se recusaram, foram amaldiçoados e assim permanecem até hoje.

Separamos abaixo algumas dessas histórias.

Bem-Te-Vi

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Karl von den Steiner, encontra essa história em Mato Grosso, no início do século XX. Dizem que quando se escondia dos soldados, Nossa Senhora pediu abrigo na casa de um João de Barro, que imediatamente a socorreu. O curioso Bem-Te-Vi entrou gritando logo atrás, entregando a posição da família gritando “Bem-te-vi! Bem-te-vi!”. A Virgem o amaldiçoou e, deste momento em diante, o pássaro deixou de ter carne, é feito apenas de bichos (vermes).

Mula

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Essa vem lá de Portugal, num registro oral captado pelo projeto Lendarium, do Centro de Estudos Ataíde Oliveira. Dizem que depois do parto na manjedoura, o Menino Jesus estava com muito frio. A vaca que estava por perto chegava bem pertinho dele e bufava, esquentando a criança. Já a mula, ao invés de dar calor, destapava-o com a ferradura. Assim Nossa Senhora abençoou a vaca e amaldiçoou a mula, que por isso nunca mais pode ter filhotes. Disse assim:

“Eu te amaldiçoo, ó mula
Que não tenhas cria alguma
E alguma que tu tiveres
Dela não gozes ventura.”

Quero-Quero

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Augusto Meyer recolhe esta versão em seu Guia do Folclore Gaúcho. Dizem que quando a Sagrada Família fugia para o Egito, com medo das espadas dos soldados do rei Herodes, muitas vezes precisou se esconder na mata. Sempre que faziam isso, Nossa Senhora pedia para todos os bichos fazerem silêncio e ali permaneciam escondidos. Nessa época, os quero-queros viviam nas árvores, e um deles não conseguiu ficar calado. “Quero cantar! – Quero cantar!”. Nossa Senhora então o amaldiçoou. Desde então esses animais foram proibidos de viver nas árvores e de dormir, estando sempre alertas no campo. É por isso que o Quero-quero vive querendo até hoje.

Linguado

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Conta Apolinário Porto Alegre: “Um dia vinha Nossa Senhora muito cansada sob um terrível sol de verão. Quando ela aproximava-se duma praia, vinha o linguado para sestear, como é seu costume. A Virgem, lavada em suor e com a voz arquejante, dirigiu-se a ele: “Não podes dizer-me linguado, que horas são?”. Este mirou-a por algum tempo, aborrecido por ela vir perturbá-lo. Depois riu-se e arremedou-a, contra-fazendo-lhe o gesto e a voz: Não podes dizer-me, Linguado, que horas são?. A Virgem amaldiçoou-o então, dizendo-lhe que ficasse no estado em que estava, arremedando-a. Desde esse tempo ficou com a boca torta”.

Gambá e Mulita

Nem só de maldição é marcada a fuga para o Egito. Também em Augusto Meyer encontramos a história de que uma gambá amamentou o Menino Jesus quando o leite de Nossa Senhora não era mais suficiente. Em agradecimento, a Gambá fêmea não sente mais as dores do parto até hoje.

Em outras versões, quem amamentou o menino foi uma Mulita que por lá passava – uma espécie de tatu pequeno, comum no sul do Brasil. Seus filhos machos também ajudaram, arrastando a carroça de Jesus. Quando foi receber a graça, a Mulita pediu para que também sua comadre Tatu recebesse a benção. Assim, além de não sofrer as dores do parto, cada cria de mulita e de tatu só dá filhote do mesmo sexo. É daí que vem a trovinha:

O tatu mais a mulita;
É lei da sua criação;
Se é macho, não tem irmã;
Se é fêmea, não tem irmão.

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