[Resenha] Histórias folclóricas de medo e de quebranto

Por Andriolli Costa25346384_10209608031831853_1229310738_o.jpg

É impossível para qualquer pessoa que comece a pesquisar sobre folclore nos dias de hoje não se deparar com aquele que talvez seja o mais pop dos folcloristas contemporâneos. O paulista Ricardo Azevedo,  68 anos, possui mais de uma centena de livros publicados, vários dos quais inspirados pelo folclore brasileiro. O autor possui inclusive um de seus livros, “Meu livro de folclore” transformado em app. Foi assim que “Meu aplicativo de folclore” lhe rendeu mais um prêmio Jabuti, somado aos outros tantos que já ganhou desde 1989.

Ainda assim, o primeiro livro de ficção que li de Azevedo – ou seja, aquele que foge do formato “almanaque” tão consagrado por ele – foi este exemplar de Histórias Folclóricas de Medo e de Quebranto (1996, ed. Scipione). Foi uma escolha interessante. Dedicado a um público jovem, o livro incorpora à narrativa o que promete no título: histórias com doses maiores de violência, maldição, pactos e inclusive sexualidade (na descrição de corpos nus ou de desejos carnais, por exemplo). Ainda assim, é curioso pensar na receptividade deste público às histórias do livro, que não negam sua origem popular nem no conteúdo e nem quanto à forma.

O livro traz quatro contos populares recontados pelo autor, com um lastro de ancestralidade que remete facilmente à idade média da península ibérica. São histórias tão famosas que fragmentos dela encontram espelhamentos no folclore de diversos povos. Evito relatar o desfecho de cada conto, mas não tema spoilers. Como as narrativas são tão difundidas que certamente muita gente já as conhece, a graça da poética popular não é o que acontece, mas como.

Os Contos

Em A vida e a outra vida de Roberto do Diabo, somos apresentados a uma clássica origem amaldiçoada. A rainha-mãe, incapaz de ter filhos, oferece sua carne e seu prazer ao diabo em troca do fruto de seu desejo. Assim nasce o primogênito do casal, mas como uma criança terrível. Mata os cães, cega os outros meninos que brincam com ele. O menino se tornaria um homem cruel, líder de bandoleiros. Sanguinário, descontava sua fúria até mesmo nas árvores quando não havia inimigos ao redor. Na metade do conto, descobre sua origem demoníaca e sua fúria apascenta. Luta contra os antigos asseclas e busca redenção com os conselhos de um sábio. Para purificar seu coração, Roberto deveria abandonar seu nome, viver como um louco, comendo apenas a comida dos cães e nunca mais emitindo uma só palavra até que o momento certo finalmente chegasse. E é assim que faz seu caminho até um outro reino, onde a força de seus atos – mais do que as palavras ou as aparências – lhe fazem atingir a paz que tanto buscava.

Em Viagem assombrosa de João de Calais, por outro lado, temos um príncipe de bom coração. Jovem e aventureiro, pediu ao pai um navio para comandar e singrar os mares em busca de desafios. Em cada cidade que aportava, descobria novas culturas e inquietações. Numa delas, viu um cadáver apodrecendo em praça pública, coberto de vermes. É que naquela terra, só tinha direito ao enterramento aquele que tivesse suas dívidas sanadas. João paga pelo morto e o enterra com a devida honra. Em outro momento, negociando com piratas, lhe ofereceram uma linda e jovem donzela como concubina. João pagou mais uma vez o preço e libertou a moça, que passou a navegar com ele. Constança tornou-se sua esposa, mas João não sabia que ela era na verdade herdeira de terras distantes. O desejo de poder no jogo dos tronos leva joão a ser enganado, esfaqueado e lançado ao mar. Mas aquele que honra os seus sempre recebe sua paga, e foi a generosidade do passado que salvou o príncipe.

Já em Maria Gomes, história que já rendeu um Jabuti a Ricardo Azevedo, temos diversos elementos reconhecíveis. O pacto aparece novamente: um pescador que mais uma vez fracassava em levar alimento para sua família escuta a proposta de uma voz misteriosa. Ele poderia ter todo o peixe que conseguisse carregar, desde que prometesse entregar ao vulto misterioso a primeira coisa que visse ao chegar em casa. O homem aceita, mas qual sua surpresa quando entra em sua propriedade e vê, de imediato, sua jovem filha Maria Gomes. O destino decidira: era ela a oferenda.

Resoluta, Maria Gomes entra no mar e é arrastada por magia até um castelo no fundo do mar. Lá há tudo: comida, biblioteca, mas também muita solidão. Sua única companhia é um vulto escuro, que dorme em silêncio ao seu lado todas as noites. Maria gomes fica cada vez mais triste, então o vulto lhe faz uma proposta: ela poderia voltar por um dia para a terra de seus pais, mas não poderia trazer de volta nada do mundo da superfície. Maria aceita, mas sua mãe lhe convence a trazer uma vela. Escondida durante e noite, a menina a acende e descobre que o vulto era na verdade um lindo príncipe amaldiçoado. Sua maldição, no entanto, era não poder ser visto por ninguém até que a maldição fosse rompida. Ao acender a vela, Maria aumentara a maldição por mais sete longos anos.

Arrependida, a menina aceita fazer qualquer coisa para remediar o feitiço. Deve então cortar o cabelo, se vestir de homem e partir para longe montada em um cavalo branco encantado. Só quando fosse o momento certo, poderia se revelar. É a redenção de Maria por sua curiosidade, mas também a demonstração resoluta de sua força de vontade.

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Ricardo Azevedo

O último conto do livro, A Moça de Bambuluá, acompanhamos João, um andarilho tocador de viola, que de repente, se depara com os gritos de sofrimento de uma mulher. Ao se aproximar, encontra o espectro de uma cabeça flutuante, que lhe pede ajuda: à meia-noite, no alto do barranco, três vultos aparecerão, agressivos e violentos. João deveria enfrentá-los, mas sem revidar. No máximo poderia enrolar o corpo em uma bola e rolar barranco abaixo. Assim, ele a libertaria. Encantado pelo rosto do espírito, o homem enfrenta o desafio. Apanha, quebra-se todo, mas consegue rolar até o barranco. Lá, encontra o espírito, agora mais do que uma só cabeça: os feitos de João lhe descobriram os ombros e os seios, mas não os braços para escondê-los.

No dia seguinte, João enfrenta os vultos novamente. Agora são seis adversários, que lhe arrancam sangue e o deixam perto da morte. O homem escapa, e encontra a mulher-fantasma, agora com braços e o ventre. João quer fugir, não aguenta mais lutar, mas ela implora e ele não resiste: enfrenta, desta fez, nove vultos que o deixam em coma. A mulher, agora completa, cuida de suas feridas. Quando acorda, fazem amor e prometem juras.

A história poderia acabar aí, mas é apenas o começo. A mulher revela ser a princesa de uma terra encantada chamada Bambuluá, e só poderia casar com João quando ele aprendesse a língua dos pássaros. Ela o apresenta a uma velha professora que poderia lhe ensinar, mas as lições demorariam 5 anos. Anualmente, naquele mesmo dia, a princesa prometera voltar para ver como andava o estudo. Ocorre que a velha, simpatizando com João, quis que ele casasse com uma de suas filhas. Por isso, a cada visita da princesa, fazia o violeiro tomar uma dose de licor com sonífero, e o homem dormia durante toda a visita da princesa sem nunca a encontrar. Até que um dia, a mulher simplesmente não veio mais. Só a força de vontade de João, que enfrenta resoluto inimigos do físico e da mente, puderam fazer com que ele encontrasse novamente a princesa. Para isso, contou com a ajuda do príncipe, do rei e do imperador dos pássaros – cada um mais velho e poderoso do que o outro.

Características do conto popular

Interessante notar algumas características dos contos populares. A primeira delas pode ser identificada na estrutura do texto: sentenças muito breves e repetições, feitas para carregar a história de sentido e não dispersar o entendimento do público.

Outra característica se vê quanto a estrutura da narrativa: aqui não encontramos a jornada do herói pasteurizada e decupada em atos ritmados e cronológicos, como num filme de Hollywood. Aqui o herói percorre sua grande jornada a partir de várias outras, numa epopeia formada por episódios que nem sempre parecem conversar entre si. Os personagens mudam de uma virada para a outra como se fossem totalmente diferentes. Os desafios também se mostram outros. Ao final, somos lembrados do motivo de origem quando enfim a história é concluída.

O ritmo é dado principalmente pela tripartição: joão encontra o príncipe dos pássaros, que não consegue ajudá-lo. Depois busca o rei dos pássaros, que também fracassa. A primeira ocorrência introduz o elemento à trama, a segunda estabelece um padrão. É justamente na terceira que temos a ruptura, quando o padrão é rompido e o objetivo alcançado.

O leitor que não compreender a riqueza desta rede de cultura (mais complexa e tramada que a pobre metáfora da “colcha de retalhos”) pode cair na tentação de buscar um “jeito certo” de se contar uma história. Seria um grave erro. É o que fazem Emília e Narizinho após ouvirem Histórias de Tia Nastácia.

— Essas histórias folclóricas são bastante bobas — disse ela. — Por isso é
que não sou “democrática !” Acho o povo muito idiota…
(…)
— Eu também acho muito ingênua essa história de rei e princesa e botas encantadas — disse Narizinho. — Depois que li o Peter Pan, fiquei exigente.

Os contos populares carregam uma mensagem profunda e coletiva, às vezes mais de uma. Sua autoria é compartilhada, por isso difusa, mas justamente por isso mais rica. Quem entende esse valor consegue buscar nelas mais do que aparentam na superfície.

Nota: 5/5

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