Fatos desconhecidos – Os erros na abordagem dos deuses brasileiros

 

Por Andriolli Costa

O canal do Youtube da página Fatos Desconhecidos publicou um vídeo explorando os “deuses da mitologia brasileira”: Nhamandu, Tupã, Jaci, Guaraci, Rudá e… Iara e Ipupiara. Isso sem falar nos Sete Filhos de Karana, também colocados no mesmo balaio.

Acredito que é bastante positivo quando páginas grandes abordam esse tema por levar a um público maior as histórias fantásticas de nosso folclore. No entanto, seja por falta de pesquisa séria, seja por falta do acesso a fontes de qualidade, o vídeo traz vários erros importantes que faço questão de apontar.

Mitologia ou mitologias?

O vídeo traz a preocupação de pontuar que os jesuítas muitas vezes agiram para o apagamento ou demonização da cultura indígena. Entretanto, um erro que se comete muito e que também atua no sentido do apagamento é o de tratar os mais de 300 povos indígenas que habitam hoje nosso país como se fossem um povo só, com crenças e costumes homogêneos.

É verdade que o vídeo fala que existem versões. Entretanto, a questão é mais relevante do que isso. Tau e Kerana pertencem a mitologia Guarani, no sul da América e jamais os sete monstros deixaram essas fronteiras. Tanto que até hoje temos Jacy Jaterés, Luisons e Kurupis presentes na cultura popular do Paraguai e Argentina, mas não por aqui.

É impossível pensar os filhos de Kerana dentro da mitologia Tupi, que por sua vez é dominante no norte do continente e em quase todo o Brasil. Guaraci e Jaci, mencionados no vídeo, existem entre as crenças de ambas as etnias, mas as diferenças são tantas que compartilham pouco mais que o nome. Jaci, entre os Guarani, seria um homem, irmão bastardo de Guaraci e invejoso dos domínios do irmão. Nada relacionado à história de amor narrada pelos Tupi.

Deuses ou mitos?

Outro momento em que o vídeo peca é ao dar o status de divindade a alguns dos seres retratados. Iara e Ipupiara, por exemplo, nunca foram deuses. São encantados, seres fabulosos mas sobre os quais não incide nenhuma adoração – e aqui está a diferença para os entes divinos.

Ipupiara, mencionado como uma suposição no vídeo, não era protetor das águas, no sentido ambientalista da coisa. Era uma criatura brutal e devoradora, que atacava os homens, matava em seu abraço e devorava olhos, dedos e genitais. Iara inclusive NUNCA foi mito indígena, surge com os colonizadores que mesclam o imaginário das sereias europeias com o do ipupiara autóctone.

Fontes

Demonstrando que fontes são um problema para a página, a ilustração da Iara feita por Bianca Duarte do Brasil Fantástico foi utilizada no vídeo como sendo de “domínio público”. Vale insistir num trabalho mais consistente de pesquisa para os vídeos do canal.

Para saber mais

Explico as diferenças entre Iara e Ipupiara no podcast Popularium #3 – O Rosto da Iara. De maneira resumida, trato do Ipupiara também nesta postagem onde levanto suposições sobre o monstro do filme A Forma da Água, de Guillermo del Toro.

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Uma resposta para “Fatos desconhecidos – Os erros na abordagem dos deuses brasileiros

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