[Clipping] O assobio do Saci

Por Correio do Nordeste
Em 31/10/2011

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Capengando em uma perna só, cachimbo na boca e gorro vermelho na cabeça, o Saci inspira gerações de compositores que assobiam suas melodias e versam suas travessuras. No dia em que se festeja o Dia do Saci, o jornalista Flávio Paiva lança mais uma canção sobre o Pererê da floresta.

Já no fim da primeira década do século XX, o Saci era sucesso na gravação da dupla Os Geraldos, com o gaúcho Geraldo Magalhães cantando “Saci Pererê”, de Chiquinha Gonzaga. Em 1912, era tema de solo para piano de Heitor Villa-Lobos, quinta parte da sua suíte “Petizada”. E, daí para cá, o personagem vem ganhando vida e versões, cantado inúmeras vezes pelo cancioneiro brasileiro em registros que, se não narram suas peripécias, pelo menos, citam o habitante mítico das florestas brasileiras.

Seus assobios e feitos estão registrados em discos de cera, como nos casos da polca “Saci”, de J.B. Nascimento, gravada em 1913 pelo grupo Sexteto da Casa; e do cateretê “Saci-Pererê“, gravado por Torrinha & Canhotinho, em 1959. Em vinil, a saga musical do negrinho de uma perna só se vê multiplicada, com diversas gravações da década de 1970, “entre os sacis e as fadas” (verso de “O Vira“, de 1973, gravado pelo grupo Secos & Molhados).

Entram no time dos porta-vozes os gaúchos Kleiton e Kledir, com a “Canção da meia-noite” (1975); Guto Graça Mello, que compõe o instrumental “Saci“, para o disco do “Sítio do Picapau Amarelo” (1977); também com músicas de mesmo nome, a Banda Terreno Baldio (1977) e de Guilerme Lamounier (1978).

Em 1977, aliás, entra no ar o programa televisivo “Sítio do Pica Pau Amarelo”, baseado na obra de Monteiro Lobato, um dos grandes divulgadores do Saci no Brasil.

As aparições televisivas do Saci impulsionaram novas composições e, na década de 1980, grandes nomes de nossa música entoaram melodias para ele, como é o caso de “Saci“, de Paulo Jobim e Ronaldo Bastos, gravada pelo grupo Boca Livre, “Saci-Pererê“, de Gilberto Gil, e “Sasaci Pererê“, de Jorge Ben Jor, que chegou a encarnar o personagem no especial “Pirlimpimpim“, de 1982, da TV Globo, em comemoração aos 100 anos de Monteiro Lobato. A música foi lançada em LP homônimo pela Som Livre.

Personalidade
“Quem vem vindo ali/É um preto retinto e anda nu/Boné cobrindo o pixaim/E pitando um cachimbo de bambu”, anunciam Guinga e Paulo César Pinheiro em sua música “Saci“, descrevendo o ser lendário.

Com uma origem provável entre os indígenas, o Saci sofreu muitas influências das diversas culturas que chegaram ao Brasil durante a colonização, ganhando assim o gorro vermelho, contribuição europeia, a pele negra dos escravos africanos, e traços de personalidade diversos. Nas músicas, ele toma formas que vão do sombrio ao lúdico, além de traços ecológicos, como a defesa das matas e ainda a alegria de suas molecagens. Nos versos finais da música de Guinga e Paulo César, fica evidente o medo que a figura provoca e a forma jocosa com que ele encara essas reações: “Quando ele vê que eu me benzi/E que eu me arredo, cruz credo/Solta uma gargalhada/Some na estrada/É o Saci”.

Com Jorge Ben, ele entra no tom das brincadeiras infantis, pelejando contra a também mítica Cuca. “Dona Cuca vai querer/Que você aposte/O seu cachimbo e seu chapéu mágico/Contra uma torta de jiló, melancia e alho/Cuidado Saci, cuidado com a toca/Treine bem e não se compromete”, canta Ben Jor. Em “A Dança do Saci Pererê”, de Angélica, e “Saci”, da Timbalada, ele ganha abordagens menos nobres, mas ainda assim está lá. “Eu quero dançar com você/Pula pula pula/Numa perna só”, dizia Angélica e “Num pé só, num pé só, Num pé si, num pé si, Num pé só, num pé si, No saci”, a Timbalada, ambas em alusão ao caminhar capengado.

Pesquisa
Estudioso de Saci, ou sociólogo, como ele bem se identifica, o jornalista e escritor Flávio Paiva também entrou no hall destes compositores, engrossando o caldo de canções sobre o Saci. “Estou aqui meu Saci/estou aqui chamei você/Pererê chamei você/Pode chegar, me abraçar/o vento é bom de assobiar/Sou Boitatá, sou Caipora/Me apavora, eu vou gostar”, escreveu em música feita com Orlangelo Leal, do grupo Dona Zefinha, e lançada em disco acompanhando seu livro “A Festa do Saci” (Cortez Editora, 2007).

Membro da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci), Flávio chegou a fazer uma pesquisa sobre as aparições do personagem em músicas. “Pesquisei o arquivo do (colecionador) Nirez, da Rádio Universitária. Nos últimos 100 anos, em todas as décadas, compositores brasileiros importantes fizeram música para o Saci”, ilustra, demonstrando a musicalidade do tema.

No Dia do Saci, comemorado hoje e do qual ele é um dos defensores, Flávio Paiva lança “Se você fosse um Saci”, em parceria com Valerie Mesquita, em que mexe com a figura do Saci. Já é a terceira de sua autoria. “Ano passado fiz a música com o Calé Alencar. Essa música que fiz com a Valerie já tem uma pegada mais próxima do infanto-juvenil. A ideia é fazer para quem quiser usar na festa”, explica, sugerindo que a música seja utilizada para animar as festas do Saci marcadas para esta segunda-feira.

“A importância de composições sobre o Saci é uma demonstração de que ele existe. Quando você compõe música para o Saci, você está fortalecendo o vento que rodopia e ele anda dentro”, garante.

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