Não, uma capelinha literalmente de melão não é um costume antigo. Mas pode ser algo novo

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Por Andriolli Costa

Vai se aproximando o período junino e as redes sociais vão sendo povoadas de compartilhamentos de imagens como esta acima. Você provavelmente já a viu, não é verdade? Uma imagem de São João Batista, cuidadosamente disposta no interior de um melão esculpido, adornado com cravos, rosas e folhas de manjericão. É tão literal que o estalo é imediato, e é impossível não cantarolar.

“Capelinha de melão, é de São João / É de cravo, é de rosa, é de manjericão / São João está dormindo não acorda não / Acordai, acordai, acordai João”.

O texto que acompanha a imagem relata que a música se deve a uma antiga tradição esquecida de realmente comemorar o dia do santo com uma capela feita de melão. Como ninguém sabia disso? E o texto vai fazendo seu caminho, espalhando a informação que, de tão boa que é, merecia mesmo ser verdade. Só que não é.

A origem da capelinha

A capelinha que viralizou foi criação de Adriana Franca e Zelda Rebelda, que ficaram responsáveis pela decoração da festa junina na escola de suas filhas, em Belo Horizonte, nos anos 2000.  Mais tarde, quando se mudou para São Paulo, levou a ideia para as outras escolas. Em seu blog, onde postou a foto que ganhou o Brasil, ela conta que a peça fez o maior sucesso com as crianças, que se ajoelhavam na frente da capela e faziam até preces.

A leitora Tamires Coelho pontua entretanto que antes da viralização, já na década de 80, seu marido encontrava capelinhas iguais no São João que passava no interior de Minas Gerais. Mais uma mostra da inspiração que essa literalidade gera.

Mas se não é daí que vem a origem da cantiga, de onde é? Capela, em algumas regiões de Portugal, pode ser uma coroa de flores ou folhas. Uma capelinha, portanto, é uma coroazinha feita de cravo, rosa, manjericão ou folhas de melão São Caetano – que é bem diferente desse que a gente está acostumado. Também eram chamadas capelinhas um tipo de folguedo junino que era dançado usando essas coroas, acompanhado por orquestra de violão, rabeca e clarineta. (fonte)

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Muita coisa da tradição a gente vai repetindo sem entender o sentido hoje, mas que surgiram a partir de um determinado contexto no qual eram completamente coerentes. Não há nada errado em buscar essas origens, o problema é saber em quais fontes confiar.

Um outro ponto dessa letra que repetimos muitas vezes sem refletir, mas que não chama tanta atenção quanto o primeiro verso é a necessidade de acordar São João. Câmara Cascudo diz que de Portugal veio o conto de que o santo era tão festeiro que sua mãe, Isabel, o fez dormir justamente nesse dia. Afinal, se ele soubesse a festa que se preparava aqui na terra, farrearia tanto que o planeta se consumiria em fogo.

Indiferentes a isso, brincamos com o perigo. É para isso que soltamos fogos de artifício, para com o barulho despertar o santo e fazê-lo descer para a festa que comemoramos no dia do seu aniversário.

A capelinha literal pode ser folclórica?

Quando critiquei a notícia falsa que se espalhava no Facebook, muitos leitores retrucaram dizendo que a capelinha era muito bonita e que, inclusive, pensavam em fazer uma para o São João deste ano. Isso nunca esteve em questão. Realmente é uma peça linda e super criativa! A crítica é à falsa origem atribuída: não havia um antigo costume que deu origem à cantiga.

Mas o fato de não haver um costume antigo não impede que surja algo novo. O folclore, lembramos, é dinâmico. Mutante e mutável, sempre em transformação. E a capelinha já faz parte de várias festas pelo Brasil. Cheguei a ver inclusive fotos de algumas que não eram sequer feitas de melão, mas de isopor pintadas em amarelo para imitar a fruta.

A origem da cantiga continua sendo a capelinha de flores, isso é imutável. A capelinha que surge é algo diferente, que vem complementar o festejo como uma homenagem contemporânea ao santo. Brincar, criar, transformar faz parte da cultura popular. Tornar algo folclórico ou não jamais será uma decisão individual, mas de aceitação coletiva. Se é moda ou tradição que se inicia, só o tempo dirá.

3 Respostas para “Não, uma capelinha literalmente de melão não é um costume antigo. Mas pode ser algo novo

  1. Pingback: PORANDUBA 26 – Folclore e Fake News | Colecionador de Sacis·

  2. Saudações Andriolli, sou Adriana Franca, quem fez esta Capelinha de Melão. Gostaria muito de saber como chegou a esta história. Até hoje, todos os textos que acompanhavam esta imagem eram pura fantasia, com histórias mirabolantes sobre e Capelinha. Esta história na verdade tem duas autoras, eu e Zelda Rebelda. Em 2000, ficamos nós duas responsáveis pela decoração da festa na escola das nossas filhas, em Belo Horizonte. Na pedagogia Waldorf,, pais assumem responsabilidades junto ao professores e toda a comunidade escolar. Como nada é perfeito, acabamos com toda a festa nas nossas mãos e em um gesto do tipo: vamos fazer a melhor festa junina, decidimos decorá-la com a maior beleza possível. Pesquisamos um tanto inventamos outro tanto. Começamos a observar as músicas, tentamos trazer os elementos nelas cantados. A Capelinha apesar de tão óbvia, para crianças, fica sempre neste âmbito, do encantamento, quase intocado por nós. Encantamento desfeito, realizamos tal qual a música reza para nós, brasileiros. Sabíamos que o simbolismo português era outro. Fizemos canteiros enormes de flores de papel coloridas. E o caminho para aquela que foi a primeira Capelinha de Melão, era florido, iluminado e ficava em um espaço especial do sítio aonde a festa acontecia. E qual não foi a nossa surpresa ao ver crianças em fila se ajoelhando diante da capelinha. De lá prá cá, não passo um ano sem a capelinha no dia de São João. Me mudei para São Paulo em 2001, e junto com a professora da minha filha, continuamos a agora tradicional Capelinha. Hoje, nesta escola, também Waldorf, existe um pequeno coreto aonde a Capelinha fica, bem na entrada da festa. Em seu altar. Esta da foto foi feita em São Paulo, em 2005. Posso te pedir para colocar o nome da Zelda Rebelda no crédito para a primeira capelinha? Forte abraço e adorei o seu blog.

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    • Maravilha, Adriana! Acrescentei os créditos à Zelda. As histórias inventadas sempre me deixaram com a pulga atrás da orelha e fui traçando a foto mais antiga até chegar ao seu blog. Fico feliz que tenha gostado! Grande abraço!

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