Histórias que os bairros contam – Campo Grande/MS

Por Andriolli Costa

Na correria da vida cotidiana, nem sempre temos tempo para pensar nos detalhes que nos cercam. Uma rua fica sendo apenas o trajeto necessário que nos leva de um lugar para o outro, um bairro parece somente um lugar onde, por acaso, nossa casa se encontra. Mas por trás de todo logradouro existe um nome, uma história – e infinitas outras que orbitam ao seu redor. E revelar estas narrativas, construindo uma outra relação com o espaço público, é o trabalho da educação patrimonial.

Foi para fortalecer essas relações de afeto que em 2006, mais de dez anos atrás, a prefeitura de Campo Grande/MS realizou o projeto “Histórias que os bairros contam”. Alunos das escolas públicas da capital foram convidados a reunirem em seu bairro as histórias fantásticas, os causos, os seres mais marcantes. Num segundo momento, cada personagem seria transformado em um mamulengo, num desfile de encerramento.

O resultado foi dos mais variados. Alguns colégios exploraram as histórias curiosas sobre personas reais, moradores de rua, gente conhecida, fundadores do bairro. Outros se voltaram para a escola, preferindo relatos que se passaram com funcionários ou moradores das redondezas do ambiente escolar. E houve ainda os que acabaram se atendo mais ao relato de uma só pessoa. Abaixo, fizemos uma seleção dos contos que envolvem lendas urbanas, fornecendo um breve panorama daquilo que causa espanto em cada região da cidade.

Percebam que os temas das lendas urbanas são muito concretos: divórcio, estupro, violência urbana, sequestro. Mesmo assim, em sua objetividade moderna, geram episódios fantásticos. Há ainda o medo do desconhecido, o outro misterioso que pode estar representado na caroneira que se revela um espírito ou na paquera que se revela morta há muito tempo. A regulação social do imaginário permanece viva, os mitos se transformam para cumprir seu papel ancestral.

Mulher do Algodão e Mulher do Algodão Doce

A versão mais conhecida no Cerrado da “mulher de branco” que assombra as escolas é a Mulher do Algodão. No Jockey Club, os alunos da E. M. Padre José Valentim encontraram uma narrativa bastante cruel. Dizem que o fantasma era uma menina que foi estuprada e morta no banheiro da escola. O homem que a matou colocou algodão na sua boca, arrastou seu corpo até a privada, chutou seu corpo e ainda a xingou. Para fazer com que a aparição surja, é preciso dar três chutes no vaso sanitário e falar três palavrões.

Uma alternativa colhida na mesma escola é a lenda da Mulher do Algodão Doce! Dizem que era uma merendeira da escola que, enquanto fazia doce, foi esfaqueada pelo guardinha. Na sua maldade, o homem colocou algodão no nariz, na boca e nos seios da mulher, que foram cortados. O corpo foi mais tarde enterrado no banheiro do colégio. O encanto, aqui, é um pouco mais complexo: é preciso chutar o vaso, dar descarga e falar palavrão, sempre três vezes seguidas. Então se deve apagar e acender a luz e abrir e fechar a torneira. Quem fizer isso, ao abrir a porta do box, vai dar de cara com o fantasma.

Muito parecida é a história colhida pela E. M. Múcio Teixeira Junior, na Vila Carlota: a Mulher da Faca. Dizem que é um espírito que tem raiva das crianças, por que teria sido uma a responsável por sua separação do marido. O fantasma, famoso por decapitar crianças, aparece quando se chuta o vaso três fazes e se fala três palavrões. Interessante é que há também um ritual de esconjuro: para que ela suma, basta dizer o nome de três belas flores.

Carros e caronas fantasma

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O opala preto que assustava os moradores do bairro Tiradentes na década de 1970

Já ouvi muita gente, com ares de deboche, dizendo que hoje em dia ninguém mais teme os seres folclóricos; o medo mesmo é quando alguém encosta de moto ao seu lado em uma rua escura. Ignoram essas pessoas que o motor à combustão não espantou o imaginário fantástico, e episódios folclóricos envolvendo veículos são mais comuns do que se imagina.

Na minha infância, no bairro Maria Pedrossian, lembro das crianças mais velhas tentando me assustar a cada carro com farol apagado que cruzava a rua. Diziam ser carros fantasma, que perseguiam as pessoas. História semelhante encontraram os alunos da E. M. Profª Oliva Enciso, no Tiradentes. Diziam que um Opala preto andava por aí desde os anos 1970. Alguns contam que transportava bandidos, outros, que transportava os mortos.

Outra já clássica lenda urbana foi encontrada pelos alunos da E. M. Prefeito Manoel Inácio de Souza, no bairro Santo Antônio: a caroneira fantasma. No caso eram duas mulheres que pediam carona até a porta de um cemitério. Quando chegam no destino, o motorista se volta e encontra apenas dois esqueletos no banco de trás.

Já no bairro Santo Amaro, temos uma variação, registrada pelos alunos da E. M. Santos Dumont. A moça esquece a jaqueta no carro de um rapaz que acabara de conhecer, que tenta devolver a peça no dia seguinte. Para a surpresa dele, descobre que a garota está morta há muito tempo. E que aquela, curiosamente, era sua jaqueta favorita.

Distritos e Zona Rural


Longe do centro urbano, encontramos narrativas diferentes. Histórias sobre o canto misterioso do Urutau (a mãe da lua), sobre madrinhas Mula sem Cabeça e outras assombrações. Duas delas se destacam.

Na Zona Rural, a E. M. José do Patrocínio trouxe narrativas sobre os Enterros, os tesouros enterrados que aparecem aos escolhidos na forma de uma luz fantasma. Dizem que era um aviso, pois no tempo da guerra muita gente enterrava ouro para fugir e acabavam morrendo pelos caminhos. Quem tem coragem de buscar um enterro deve fazer isso sozinho e ter o coração puro. Do contrário, nada encontrará além de carvão.

Por sua vez, os alunos da E. M. Isauro Bento Nogueira, do distrito de Anhanduí, trouxeram a história de um lobisomem que teria passado pela região. Dizem que tinha forma de lobo, olhos vermelhos, pelo todo preto e as pernas traseiras maiores que as dianteiras. O monstro tinha correntes amarradas nas patas e no pescoço, e apareceu na rua que hoje é a avenida Anhanduí. Muitos tentaram correr atrás do bicho , mas ninguém o alcançou – mesmo ele não estando correndo. Quando chegou a barranca do rio, pulou dentro e ninguém mais viu pra onde se foi. Até hoje o lobisomem faz suas aparições, e você sabe que ele está por perto graças ao uivo dos cachorros e à catinga de seu couro.

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