Marias Degoladas (Popularium P.1)

Por Andriolli Costa

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Em 1899, um assassinato chocou a cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A faca do soldado que cortou a garganta de Maria rasgou também a história, e fez surgir uma das mais emblemáticas figuras do imaginário gaúcho e que ainda hoje se faz presente. Para alguns, ela se tornou santa; para outros, espírito da vingança que apareça cada vez que se chama três vezes pelo seu nome: Maria Degolada, Maria Degolada, Maria… 

Popularium é um projeto especial onde iremos dissecar mitos, lendas e folclores de maneira a entender como eles surgiram e como dialogam com a sociedade. A nova temporada, dedicada a Lendas Urbanas brasileiras será publicada em mundofreak.com.br. Para você ter um gostinho do que vem por aí, lançamos esta primeira visita ao tema. O episódio completo Marias Degoladas será lançado em 2021. Escute a temporada anterior do Popularium, publicada em 2017, a partir daqui.  

Apresentação e roteiro de Andriolli Costa. Edição de Leonardo Tremeschin. Esse programa foi apoiado pelo edital FAC Digital da Sedac RS em parceria com a Universidade Feevale. Acompanhe os sites e redes sociais das instituições abaixo:
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Capela dedicada a Maria Francelina

Roteiro

Essa história não se passa em uma cidadezinha desconhecida, daquelas onde a luz elétrica ainda teima em não alcançar. Também não aconteceu em uma noite de lua cheia, não ocorreu com algum amigo de um amigo meu, e nem se deu em uma época muito, muito distante.

Não. Essa história aconteceu no dia 12 de novembro de 1899 na cidade de Porto Alegre, em um morro localizado nas redondezas do bairro Partenon. Devido a proximidade com o Hospital Psiquiátrico São Pedro, na época, o marco topográfico era displicentemente chamado pela população de “Morro do Hospício”. Pouco depois, graças aos acontecimentos daquela tarde, ele receberia outra alcunha – um nome que marcaria tragicamente a história da capital gaúcha dali em diante: Morro da Maria Degolada.

A vítima, hoje sabemos, tem nome e sobrenome: Maria Francelina Trenes, alemã de nascimento. Alguns registros cravam ter sido ela uma prostituta; outros, que era uma mulher de “vários homens”. São relatos dignos de confiança? Ou apenas reflexo de como a sociedade da época – como a de hoje – retrata uma mulher cujo comportamento escapa da norma? O que sabemos é que aos 21 anos de idade, durante um churrasco com os amigos, ela foi assassinada pelo namorado: Bruno Soares Bicudo, soldado da Brigada Militar – como a PM é conhecida no estado. O motivo alegado pelo assassino no processo judicial disponível no Arquivo Público do Rio Grande do Sul é bem conhecido: ciúmes.

O registro do escrivão indica, em fria gramática, a violência do corte – que atravessou os tecidos do pescoço e só parou na coluna. Mas ninguém imaginaria que o talho do facão de Bruno Bicudo seria tamanho que rasgaria a própria História. Porque depois daquele dia em que morreu Maria Francelina, nasceram no imaginário popular outras tantas Marias. Era a Maria do Golpe – fazendo relação ao golpe de faca sofrido; a Maria Degolada e até mesmo a Maria da Conceição, emprestando da figura católica a fama de milagreira.

Para muitos, após sua morte, Maria virou santa. Devolveu voz a crianças mudas, recuperou a saúde de membros adoentados, trouxe cura as mais diversas enfermidades. Só nunca atendia policiais, e nem mesmo seus familiares. Desses, guardava verdadeiro ódio. Décadas depois, de santa, assume a forma de espírito vingador, quando sua imagem se mistura à da “loira do banheiro”. Maria passa então a assombrar colégios, aparecendo sempre que seu nome é chamado três vezes. “Maria Degolada, Maria Degolada, Maria Dego…”.

De fato histórico à santa, e então à lenda urbana mais famosa do Rio Grande do Sul, o que fez com que um assassinato cometido há quase 120 anos permanecesse tão vivo no imaginário do povo?

Neste programa, vamos dissecar o imaginário popular, refletindo sobre o que ele evoca no simbólico. Assim, veremos que estes mitos e lendas, em última instância, não dizem sobre monstros encantados, mas sobre nós mesmos. Eu sou Andriolli Costa e este é o Popularium – Lendas Urbanas.

Tocar essa música de 0’15 – 1’50

Você ouviu Olha Maria, de Chico Buarque, na voz de Mônica Salmaso. E a escolha dessa música vai na direção do nome que ela clama. Quem são as Marias? A referência religiosa é clara: um espelhamento da mãe de Jesus no cristianismo, mas não só isso. Estudos da onomástica lusitana mostram que apenas a partir da idade média, no século XIII, o nome Maria foi introduzido em Portugal. De início restrito às camadas mais pobres, e sem muita recorrência, vai se tornando mais e mais comum com o correr do tempo. Ao ponto em que no século XVIII, já era o nome feminino mais comum daquele país, batizando inclusive a realeza (ROWLAND, 2008, p. 24).

Segundo o Censo do IBGE, de 2010, Maria ainda é o nome mais popular entre os brasileiros[1]. O lastro cristão se une à familiaridade da herança portuguesa, tornando o nome presente mesmo em famílias que não compartilham desta fé, virando parte da cultura. Nos contos populares, a figura da Mãe Maria, juntamente com a de Pai João, tornaram-se os tipos primordiais para representar os negros no Brasil colônia. Índice de indeterminação do sujeito, com frequência batiza o interlocutor invisível, muitas vezes das camadas menos favorecidas. No jornal, se ouvia com frequência: “Você acha que a Dona Maria vai entender essa palavra?”.

A força do nome, inclusive, se impõe sobre os demais. Para ralhar ou mesmo fazer graça, é prática corrente tornar Maria um sufixo – possível de ser acrescentado ao nome de qualquer pessoa, independente do registro. “Fulana Maria, venha já aqui!”. Eu sei que você conhece quem faça isso. Já para outros, Maria é prefixo – sempre acompanhado de algum epíteto: Maria das Dores, Maria Aparecida…

Inclusive, na tentativa de se livrar da violência da alcunha de Degolada, há quase um século que os fiéis ventilam a história de que a santa não gosta de ser chamada assim. Prefere ser a Maria da Conceição. Vamos compreender as imagens que circundam estas duas faces de Maria ao longo do programa.

No livro que originou de sua dissertação de mestrado, Nico Fagundes estudou três casos no Rio Grande do Sul do que chama de “santas prostitutas”. Mulheres cuja imprensa da época e os relatos orais descreviam ora como promíscuas, ora como funcionárias ou donas de bordeis e que, após a morte – sempre por feminicídio, sempre por ciúmes – acabaram santificadas. (FAGUNDES, 1987). Nesse processo, quando se tornam fruto da devoção popular, o prefixo Maria acaba se fixando ao nome das santas, mesmo que nunca tenham sido chamadas assim em vida. Outra constante é que os pecados dessas Santas Marias não são absolvidos, são negados. As mulheres, antes acusadas de terem muitos homens, passam na narrativa dos fieis a serem descritas como virginais. E teria sido ao defender sua honra contra um estupro que perderam a vida.

Existem outros elementos recorrentes nesses casos de santas populares que ajudam a cimentar o acontecimento no imaginário do povo. Maria Francelina, de Porto Alegre, foi degolada pelo soldado Bruno Bicudo em 1899. Maria Bueno, santa de Curitiba, foi igualmente degolada pelo soldado Diniz, em 1893. Maria Pequena, a primeira santa de Passo Fundo/RS, foi assassinada com três facadas e uma degola por soldados maragatos em 1894. Isso sem falar em Maria do Carmo, santa de São Borja, degolada em uma festa de militares por um fardado que não soube lidar com a rejeição.

Veja; o assassinato, por si só, já é motivo suficiente para abalar uma comunidade. Mas quando ele é perpetrado por um militar ou policial, alguém da força de segurança, que deveria trazer a proteção e não o medo, o impacto no imaginário é muito maior.

E, é claro, existe ainda uma outra questão que vale ser ressaltada: a conivência dos poderes. Maria Isabel, a Guapa, santa de São Gabriel/RS foi assassinada por um cabo a mando da mulher de um rico fazendeiro, que seria seu amante, durante o Carnaval de 1924. Todos sabiam quem eram os responsáveis, mas o caso foi abafado.  Das ocorrências anteriormente relatadas, Bruno Bicudo foi o único preso e condenado, morrendo na cadeia em 1906 por complicações renais. Os demais militares foram todos absolvidos. Suas mortes, inclusive, serviram de demonstração dos poderes das santas – que promoveram a justiça sobrenatural quando a justiça dos homens se mostrou tão falha.

Se o perfil dos algozes se repete, também é fácil notar a reincidência do golpe. Cortar uma garganta é um ato simbólico por vários motivos. Na metáfora imediata, há uma relação com o silenciamento. Da garganta ecoa nossa voz, é a origem da comunicação verbal.  O desejo de calar uma pessoa, especialmente uma mulher, se manifesta na violência dos atos: a degola, a esganadura, o sufocamento. Na Legenda Áurea, livro com a hagiografia dos santos, encontramos exemplos assim. É o que houve com Santa Lúcia, por exemplo, que em seu martírio teria sido torturada e humilhada das mais diversas formas e ainda assim não parou de pregar o nome de Deus. Como ação final, atravessaram uma espada em sua garganta, e ainda assim ela continuou pregando (DE VARAZZE, 2003, p. 79).

O antropólogo Oscar Calávia Saez não se surpreende com a quantidade de mártires e santas populares degoladas ou decapitadas. E muito recai sobre o paradigma da virgindade. Para ele há uma ligação imediata entre a integridade do sexo e a ferida na garganta. As narrativas condensam temas-chave: “De um lado, uma agressão sexual frustrada por algum expediente maravilhoso; de outro, a morte da virgem que (…) se prende à degolação” (CALÁVIA SAEZ, 2003, p. 16). Podemos entender melhor essa relação retornando à hagiografia de Santa Lúcia: quando seu algoz ameaçou leva-la a um prostíbulo para que fosse violada, respondeu: “O corpo só é corrompido se o coração consentir, porque se você me fizer violentar, será contra minha vontade, e ganharei a coroa da castidade” (DE VARAZZE, 2003, p. 79). Depois, 10 mil “depravados”, como escreve o texto, tentam carregar a mulher, mas o Espírito Santo impede que ela seja movida. Diante das tentativas frustradas, a degola foi o caminho encontrado para calar sua voz e violar seu corpo.

Em seu dicionário de símbolos, Chevalier e Gheerbrant apontam para os sentidos que constelam sobre a garganta. A cabeça é a razão, o corpo é a manifestação da matéria. Da relação da cabeça com o corpo, temos o Espírito. Por isso a decapitação é o aniquilar total do outro, rompendo seus vínculos com estes três elementos fundamentais. Assim, se no caso da Mula sem Cabeça o simbólico construído é de renúncia à razão e entrega total ao corpo – e com isso aos desejos da carne – no caso da degola temos o contrário: o rompimento radical com a carne, a expiação de qualquer pecado anterior. Esses movimentos na ordem do imaginário se manifestam diretamente na crença dos fiéis, prontos para defender a castidade dessas mulheres que, talvez, em vida, tanto tivessem criticado.


[1] Para consulta: http://www.censo2010.ibge.gov.br/nomes/search/?nome=Maria

Referências Bibliográficas

ARQUIVO HISTÓRICO DO RIO GRANDE DO SUL. Maria Degolada: Mito ou Realidade?. Porto Alegre: Edições EST, 1994.

CALAVIA SÁEZ, O. Religião e restos humanos: cristianismo, corporalidade e violência. Antropologia em primeira mão. V. 9, n. 1, 2003.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, A. Dictionnaire des symboles. 11 ed. Paris: Robert Laffoni et Jupiter; 1990.

COSTA, Andriolli. Histórias que os bairros contam em Campo Grande/MS. Colecionador de Sacis, 2017. Acesso em 29 out. 2020. Disponível em  https://colecionadordesacis.com.br/2017/12/14/historias-que-os-bairros-contam-em-campo-grande-ms/

______. As muitas faces de Maria – O feminicídio que gerou a lenda urbana mais famosa do RS. Colecionador de Sacis, 2018. Acesso em 29 out. 2020. Disponível em  https://colecionadordesacis.com.br/2018/06/16/maria-degolada/ .

DE VARAZZE, Jacopo. Legenda Áurea: vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003

FAGUNDES, Antônio Augusto. As santas prostitutas: um estudo de devoção popular no RS. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1987.

ROWLAND, Robert. Práticas de nomeação em Portugal durante a Época moderna: ensaio de aproximação. in: Etnográfica, v. 12, n. 1, 2008. p. 17-43

SANTOS, Conceição Aparecida dos. Como nascem os santos: o caso Maria Bueno. Dissertação (mestrado). Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal do Paraná, 2010. 191 p.

______. As santas da Vila Maria da Conceição. In: TAVARES, F.; GIUMBELLI, E. Religiões e temas de pesquisa contemporâneos: diálogos antropológicos. Salvador: EDUFBA, ABA Publicações, 2015.  p. 273 – 303.

STEIL, Carlos; TONIOL, Rodrigo..Maria Degolada: de mulher a santa e de santa a mulher. In: Zanotto, Gizele. (Org.). Religiões e Religiosidades no Rio Grande do Sul. Passo Fundo: Editora da UPF, v. 1, p. 211-242, 2012.

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