Ideias inovadoras para trabalhar folclore na escola

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Arte sobre foto de Josiane Geroldi

Por Andriolli Costa

O mês de agosto vem se aproximando. “Agosto, o mês do desgosto” para alguns; “o mês do cachorro louco” para outros. No caso, vamos nos concentrar em outro epíteto: “Agosto, o mês do folclore”. Período no qual se concentram grande parte das ações de divulgação e ensino da cultura popular brasileira , especialmente nas escolas.

Ao longo dos anos tenho feito várias consultas aos leitores do blog e aos curtidores do Facebook do Colecionador de Sacis. E os depoimentos sempre se repetem: na escola, folclore era abordado exclusivamente em agosto, sempre como sinônimo de mitos e lendas. E isso, claro, durante os anos iniciais. Quando o aluno partia para o ensino médio, o folclore – entendido como coisa de criança – ficava para trás.

Se por um lado é interessante ver essa movimentação da escola em um momento do ano, por outro fica evidente como o tema é ignorado durante o restante do período letivo. Isso fica ainda mais claro quando observamos os números de interesse de busca pelo termo “folclore brasileiro” usando a ferramenta Google Trends. Um pico imenso em agosto que não se repete minimamente nos outros meses, com a exceção de um leve respiro no 31 de outubro – quando alguns municípios comemoram o Dia do Saci.

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Gráfico de buscas pelo termo “folclore brasileiro” no Google Trends

Essa não é uma peculiaridade deste ano, mas algo que se repete desde 2004 (o período máximo de filtro da ferramenta). E quais são as consultas mais feitas nesse mês? Entre as mais buscadas, encontramos as palavras-chave atividades, brincadeiras e jogos. Os resultados apontam para várias atividades de impressão, exercícios de colorir ou  dobrar, brinquedos de material reciclável e garrafas pet.

Nesse artigo pretendemos compilar e sugerir ideias inovadoras para trabalhar o folclore em ambiente escolar. E para todos os públicos! A partir delas, você pode bolar suas próprias atividades e, quem sabe, trabalhar o folclore o ano inteiro e não apenas em  um único mês. Folclore afinal faz parte de nossa vida, de nosso dia a dia, o que precisamos é ter essa percepção para transmitir a verdade da cultura popular para os alunos.

Incompreensão

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Foto: Andriolli Costa

Desde 1965 o Brasil celebra o dia 22 de agosto como o Dia do Folclore. A data não foi escolhida por acaso: representa a publicação de uma coluna do britânico William John Thoms, em 1846, na qual o neologismo folk lore, o “saber do povo”, foi cunhado.

Mas mesmo com os mais de 170 anos de criação, a palavra folclore continua sendo mal-compreendida. O termo não é sinônimo de mitos e lendas – estes fazem parte de um braço do folclore, a literatura oral. Em verdade, todos os modos de sentir, pensar e agir de um povo guiados e repetidos pela tradição são folclóricos: gestos e posturas, pratos típicos, cantigas de roda, danças e festas populares também fazem parte desse mesmo guarda-chuvas.

Infelizmente algumas escolas com fundamentação religiosa vão encarar o imaginário popular como incompatíveis com a crença no Deus cristão. Em bom português, tratam folclore brasileiro como “coisa do demônio”. Proíbem, portanto, qualquer livro que mencione folclore de entrar nas bibliotecas. Já ouvi casos inclusive de páginas de livros didáticos abordando folclore arrancadas antes das obras serem distribuídas aos alunos. Enfim, além de uma ignorância, a prática é uma negligencia com a própria história do povo brasileiro – da qual o folclore não pode ser descolado.

Outras instituições de ensino tem uma visão também redutora. Compreendem folclore como um saber menor – ou como um falso saber. Um conhecimento pré-científico, abandonado à luz do verdadeiro conhecimento, o das ciências positivas. Também este é um olhar castrante, pois ignora que ciência e folclore não são oponentes, apenas buscam respostas para coisas diferentes. O folclore vai dizer sobre afetos, identidade e simbolização do mundo e isso também possui lugar na formação humana – independente da idade.

Por fim, ter claro que folclore é esse modo de sentir, pensar e agir nos permite desvincular a ideia de que este se concentra apenas nas zonas rurais. Folclore é coisa de brasileiro. Não está “lá”, mas “aqui”. E pode ser trabalhado de diversas maneiras. Aqui, vamos nos centrar em sugestões voltadas para mitos e lendas, mas lembre: folclore é muito mais que isso!

COMPILAÇÃO DE IDEIAS

1. Repensar o lugar das garrafas

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Saci para levar para casa em Mococa. Arte sobre foto de Eliana Galvani

Em entrevista com os organizadores do #OcupaSacy, no Sesc Interlagos – o maior evento dedicado ao duende brasileiro já feito no país, discutimos sobre a necessidade de repensar o lugar do ato de prender o saci na garrafa no folclore brasileiro. Isso por remeter a todo um histórico de aprisionamento, captura e servidão negra no país.

Se formos interpretar pela visão do imaginário, como reflito ao final do podcast sobre o Saci de Lobato, percebemos que toda tentativa de prender o saci e tirar sua carapuça mágica é uma tentativa de controlar os elementos caóticos da nossa vida. Mas nós não podemos controlar tudo, e abrir mão dessa obsessão por controle também é tirar o saci da garrafa.

Desde que comecei na contação de histórias, incentivo o público a abandonar a ideia da prisão de sacis para pensar na amizade com os sacis. É certo obrigar alguém a estar do seu lado? Não é muito melhor ele querer estar contigo? Querer ser seu amigo? Perceba que com isso eu estou e não estou falando de saci. A mensagem acaba impregnando.

Mas é inegável que a relação entre sacis e garrafas é muito forte. Haja vista a linda reação de encantamento que contadores de história, como a Josiane Geraldi – na foto que abre este artigo – consegue tirar das crianças. A própria logo do Colecionador de Sacis tem um saci na garrafa (mas, vale pontuar, fiz questão de pedir ao ilustrador para a garrafa não ter tampa). Não precisamos abolir as garrafas de vez, mas podemos repensar relações e trabalhar outros elementos que não a captura e prisão.

Soltura de sacis: Depois da minha apresentação em Mococa/SP, quando as professoras tinham trabalhado várias garrafinhas de sacis com os alunos, veio das próprias crianças a ideia: queriam fazer uma soltura de sacis! E foi um grande evento, igualmente lúdico e que permite a discussão de muita coisa, inclusive folclore. Por que então não trabalhar, ao invés de uma caça ao saci, uma soltura de sacis?

Babá de sacis: Também em Mococa conheci uma iniciativa muito interessante. A professora Eliana Galvani, sacióloga de plantão, faz a seguinte brincadeira com os alunos: durante alguns dias, cada aluno deveria levar para a casa a garrafa do saci e cuidar muito bem dela. Ao final, deveria desenhar ou escrever como foi sua experiência cuidando do saci em casa – os passeios que fez com ele, o que o duende aprontou… Uma dinâmica super bacana que permite trabalhar folclore durante muito tempo e em experiências individuais.

O que fechar na garrafa: Queremos saci livre, então o que poderíamos deixar fechado pra sempre na garrafa? Achei fantástica uma dinâmica usada por alguns educadores do Ocupa Sacy. As crianças deveriam escrever todas as experiências ruins que sofriam, como bullying ou racismo, em um papelzinho, dobrar e colocar dentro da garrafa. Ao final, o educador retirava e lia alguns papeis, e se o aluno quisesse poderia botar para fora algum sentimento negativo que estivesse sentindo. É uma atividade transformadora.

2. Retornar à Terra

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Sacicleta da Casa Herbert de Souza em Pernambuco. Arte sobre foto de divulgação.

Trabalhar o folclore é uma ótima maneira de envolver o público com elementos ligados aos saberes práticos, aos modos de fazer, ao conhecimento da terra. Meter a mão na massa, colocar os pés no chão, tudo mediado pelo encantatório.

Educação ambiental: Sempre achei muito padronizadora a ideia de que todos os mitos do folclore brasileiro são protetores da natureza. É ignorar toda a riqueza que cada um traz dentro de si, para tornar todos “amigos do curupira”. Mas é possível trabalhar educação ambiental respeitando a essência de cada mito! O leitor Pietro Adjano, que fazia estágio de psicologia em uma escola infantil de Curitiba, contou que os sacis por lá ajudavam no combate à dengue virando os pratinhos de água das plantas. Para os sacis era a bagunça de que sempre gostaram.

Passeios pela cidade: Todo ano a Casa de apoio Herbert de Souza, de Pernambuco, realiza sua famosa “sacicleta”. Munidos de gorros e com bonecos de saci, passeiam pelas ruas da cidade guiados pelo educador. O trabalho aqui é mais lúdico, mas quem disse que não se aprende com isso? A deriva guiada pode levar a espaços urbanos que o público pode passar a conhecer graças ao saci. Também com o objetivo de incentivar a deriva que encontramos aplicativos e iniciativas que beberam muito da fonte do Pokemon Go, como o BioExplorer desenvolvido por alunos da USP – onde o saci aparece quando você pega todos os animais – e o Pega Pega Sacy, do #OcupaSacy.

Trilhas Ecológicas: O sócio-educador Luiz Eugenio de Arruda é o organizador e um dos fundadores das Expedições Anarco Pedagógico Atemporais, projeto que reúne um pouco de deriva e interdisciplinaridade em caminhadas guiadas em Aquidauana/MS. O saci habitava muitas histórias dessa deriva. O fantástico, entretanto, virou motivo de deboche por uma matéria do Balanço Geral.  Nem sempre a mensagem encontrará seu eco, infelizmente.

Mas a sugestão é mais do que válida: trabalhar o folclore em meio a trilhas, explicando elementos da flora a partir de sua relação com os mitos. Em O Saci (1921), inspirado por Barbosa Rodrigues, Monteiro Lobato menciona que o Curupira anda sempre com um galho de japecanga (também chamada salsaparrilha). No mesmo livro, o duende brasileiro deixa uma florzinha de Miosótis  para se despedir de Narizinho. Hélio Serejo diz que a samambaia havaiana é ideal para simpatias de afastar Caipora. João Simões Lopes Neto, em 1914, dizia que o saci gaúcho tinha a carapuça toda feita de flor de corticeira. E quem não se encantaria ainda mais ouvindo o vento soprar por entre os bambuzais, de onde nascem os sacis nas noites de tempestade – sempre a partir do sétimo gomo?

 

3. Redescobrir a Cidade

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Boca de Ouro, Papa Figo e Emparedada convidam para o Catamarã Assombrado, em Recife/PE

A memória é o maior tesouro de um povo, e o folclore pode ser o gatilho para despertar lembranças. Seja com atividades de educação patrimonial, seja com visitas guiadas pela cidade ou pesquisas históricas, podemos descobrir muito sobre nós mesmos – e nossas comunidades – a partir do imaginário popular.

Desfile de Mamulengos: O projeto “Histórias que os Bairros contam” da Prefeitura de Campo Grande mobilizou alunos das escolas públicas em um grande concurso. Na primeira fase, os grupos deveriam entrevistar moradores do bairro – normalmente os mais velhos – para descobrir histórias que representassem aquela comunidade. Muitas foram lendas urbanas! Os textos dos alunos foram compilados em livrinhos que serviram de guia para a segunda fase do projeto: construir um boneco mamulengo a partir da pesquisa e levar para um desfile num ginásio da cidade.

Passeios assombrados: Uma das maiores peculiaridades da lenda em relação ao mito é sua fixação em um tempo e espaço. A lenda está vinculada àquela região, àquela rua, àquela casa assombrada. É justamente por isso podemos descobrir muito sobre a cidade a partir delas. É o que faz, por exemplo, o passeio Catamarã Assombrado organizado pelos companheiros do site O Recife Assombrado, guiando turistas e moradores pela capital pernambucana. Trabalho semelhante é realizado em outras cidades do Brasil, seja por agências de turismo, seja por grupos de caminhada urbana. Por que não investir em algo assim para sua escola?

4. Abraçar a Cultura Pop

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Arte sobre ilustração de Fábio Meirelles

O que faz as crianças não terem interesse em folclore? É o videogame? O mangá? Os pokemons? Quantos infinitos adversários vão aparecer pela frente, recebendo essa culpa? Talvez seja justamente a insistência em contar sempre as mesmas histórias, dos mesmos jeitos, que façam o folclore pouco interessante.

Pokemons brasileiros: Já postei por aqui as dezenas de pokemons criados por artistas nacionais inspirados em mitos do nosso folclore. Que tal pedir aos alunos para criarem seus próprios pokemons? A partir de pesquisa, eles poderão criar as características de seus monstrinhos e depois poderão explicar suas escolhas para a turma.

Cosplay: E se ao invés dos mamulengos da ideia anterior, o resultado da pesquisa dos alunos não fosse um desfile de cosplays? Só que ao invés de personagens de animes e quadrinhos, veríamos sacis e curupiras? A ideia veio ao ver o trabalho do Fellipe Barroso que fez cosplay de Curupira da série Juro que Vi, de Humberto Avelar (2004)

RPGs:  O mercado anda cheio de opções para jogos de interpretação de personagem inspirados em folclore brasileiro. Que tal mediar uma sessão de jogo onde seus alunos podem conviver com as criaturas na imaginação? Uma das opções mais recentes, o jogo A Bandeira do Elefante e da Arara mesmo com ambientação histórica teve toda uma preocupação inclusiva, seja nas mecânicas, seja na condução. Inclusão e diversidade, inclusive, é algo que não pode ser negligenciado ao se falar de folclore.

Super Trunfo: O leitor Herbert Pianezolla deu uma sugestão interessante: partir da pesquisa para os alunos fazendo, a mão mesmo, cartas ilustradas contendo as características de cada mito, ao estilo Super Trunfo. As cartas poderiam depois serem comparadas umas com as outras, e explicadas em classe.

Saiba quem produz: Só por que é folclore, não quer dizer que é infantil. Existem diversos filmes, livros e quadrinhos para os mais variados públicos que podem servir para despertar discussões importantes  de maneira transversal ao ensino da cultura popular. Conheça os autores, convide-os para suas escolas, comprem seus livros para as bibliotecas. Há muita coisa nova e boa sendo produzida sobre esse tema. Quer conhecer mais sobre esses produtores de conteúdo? Em 2017 realizamos o evento on-line Folclore BR: Somando Visões, com uma série de transmissões pelo Youtube de mesas temáticas sobre mitos brasileiros e cultura pop. Escolha seu tema de interesse e assista aqui.

5. Ouvir o que o mito tem a dizer

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Crianças ouvindo o assovio do saci no Cine Caramelo. Arte sobre foto de Leonil Junior

Termino todas as minhas apresentações dizendo que as crianças que quiserem ver o saci devem antes de tudo saber ouvi-lo. E eu as ensino a ouvir e ver o saci. Nessa foto, que ilustra a postagem, um menino estava tanto querendo estar com o saci que fazia força. Ao final da apresentação ele me chamou de canto: “moço, moço! Eu escutei!”. E eu tinha certeza que sim.

Pensando na nossa discussão, convido todos que querem trabalhar com folclore a fazerem o mesmo esforço do garoto e realmente ouvirem os mitos. Eles tem muito a nos dizer. Como eu sempre repito, essas não são histórias sobre monstros encantados, mas sobre nós mesmos. Nossos medos, nossas angústias, nossos sonhos e desejos. Quando essa chave a virada, encontramos a verdade do mito.

O exercício de ouvir os mitos é muito particular, cada um vai encontrar seu modo. O começo de tudo é ter uma certeza: não é delírio, não é ignorância, é força poética. Partindo disso, se permita ouvir o mito vivo. Quais seus sentidos? Como ele se apresenta nos dias de hoje?

Faço vários exercícios de análise desse tipo nos meus podcasts. Primeiramente no Popularium, um programa roteirizado onde cada episódio é dedicado a um mito – ou conjunto de mitos – e sua relação com o contemporâneo. Mula sem cabeça e misoginia; Negrinho do Pastoreio e racismo; Negro D’água e intolerância religiosa e assim por diante.

No Poranduba, o programa atual, trabalho alternando dois estilos de programa: um de entrevistas e outro com áudiodramas e reflexões. Tudo envolvendo folclore nacional. O primeiro me permite abrir o diálogo, não mais o monólogo como no Popularium, e o segundo abre espaço para que eu mostre outras obras e aprofunde pensamentos. Talvez nem todo aluno consiga ler tranquilamente Simões Lopes Neto, mas quem sabe com uma ajudinha de trilha sonora e dramatização uma leitura guiada não o ajude?

Por outro lado, uma das vantagens do Popularium ao ser roteirizado é que eu conseguia disponibilizar a transcrição completa do programa para consulta – juntamente com a bibliografia. Isso permitiu que o professor Geoci da Silva, do Rio Grande do Norte, imprimisse parte do roteiro do episódio sobre o Saci e trabalhasse isso com alunos de 15 anos de idade de uma escola pública da cidade. As respostas foram impressionantes.

É esse o tipo de coisa que ouvir o folclore nos permite escutar.

  • Conhece mais alguma iniciativa bacana? Botou em prática uma dessas ideias? Comente aqui!
  • Quer saber mais sobre o Colecionador de Sacis? Conheça nossos trabalhos.
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Uma resposta para “Ideias inovadoras para trabalhar folclore na escola

  1. São ideias ótimas! Adorei especialmente a ideia de integrar o folclore ao contato com a natureza. Mesmo em cidades grandes dá para fazer, buscando uma estrutura de apoio ou soluções mais simples, como visitar um parque. Muito bacana mesmo! Vou levar algumas ideias para o encontro de mediadores de leitura que devo fazer em breve e citarei você!

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