RPG inspirado no folclore brasileiro foge do didatismo e ensina pelo encantamento

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Por Andriolli Costa

Aquele que põe as mãos num exemplar do recém-lançado RPG da série A Bandeira do Elefante e da Arara vai encontrar, logo de cara, uma série de pistas de toda a preocupação e reflexão envolvidas neste projeto. Uma obra que, para Christopher Kastensmidt, é de longe o melhor trabalho dos seus mais de 20 anos de produção de conteúdo.

A capa já diz a que veio. Sem soltar as rédeas de seu cavalo, uma exploradora aponta o arcabuz para os olhos cegos de uma serpente que arde em chamas azuis. É a boitatá, que ilumina a noite com seu fogo fantasma. A imagem, que ganhou o coração do escritor como a favorita do livro, foi feita pela ilustradora Marcela Medeiros. No briefing que a guiou, uma orientação bem clara: poderia haver arma, mas não disparo. Uma exigência para cravar 12 anos na classificação indicativa.

Pode parecer mera questão burocrática, mas é mais do que isso. O livro foi totalmente pensado para a adesão em ambiente escolar, e tudo o que poderia representar um entrave para isso foi alterado. A começar pela opção de deixar de lado o Roleplaying Game e estampar na capa “Livro de interpretação de papéis”.

A escolha não foi despropositada: tanto RPG quanto a ideia de jogo tem um lastro que algumas escolas podem não achar adequado para seu contexto. O foco, então, fica na interpretação. Termos canônicos também foram substituídos: não se fala em um Mestre, mas em Mediador. Não se fala em Jogadores, mas em Participantes. Artes com sangue e violência foram igualmente deixadas de lado.

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Tarde de lançamento do RPG na Nerdz, em Porto Alegre

Quem não vê o produto final pode pensar em autocensura. O caso, em verdade, é de adequação ao público – e a um público que tem como intermediário a escola. Nada disso fez falta. A preocupação sempre foi com a educação, mas diversão era fundamental. “Não pode parecer livro didático”, orientava Christopher.

Nem teria como. Livros didáticos não contam com o trabalho de um grupo de ilustradores que fornecem identidade visual para a Blizzard, a DC e outras grandes produtoras de ponta do mercado do entretenimento. Menos ainda retratando sacis, capelobos, mapinguaris e ipupiaras.

Produção

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Ataque do Ipupiara, por Cássio Yoshiyaki

O texto do RPG já estava praticamente pronto desde 2015 quando Christopher Kastensmidt o levou ao ex-editor da Devir, Douglas Quinta Reis, a quem o livro é dedicado. Surgiu naturalmente, como resultado de um mundo ao qual o escritor se debruçara desde 2010, quando foi publicado o primeiro conto do que se tornaria uma série. E, mais do que série, uma marca. Para a Devir estava tudo pronto, mas não para Christopher.

“Eu não queria lançar de qualquer jeito. O mercado exige que você lance um produto nacional com qualidade internacional. Se não, chovem críticas”, explica Christopher. A qualidade foi atingida não apenas por meio dos artistas de renome, encabeçados pela diretora de arte Ursula Dorada “Sulamoon”, mas também pelos cuidados editoriais. O escritor pediu à Devir, editora que publicou diversos clássicos do RPG no Brasil, para usar os mesmos requisitos gráficos no livro. O mesmo material de capa e o mesmo papel de uma edição impressa de D&D foram usados na Bandeira. Algo que impressiona, ao se considerar o preço de capa: apenas R$ 28.

Na contracapa, mais pistas do desenvolvimento do projeto. O livro conta com apoio do Ministério da Cultura através de leis de incentivo. Uma solução estratégica que permitiu o preço subsidiado tão abaixo do mercado – mais um elemento que favorece sua adesão pelo público. Mais do que isso, 1400 exemplares serão doados gratuitamente para escolas de vários estados brasileiros como contrapartida. Contemplados pelo projeto estão Bahia, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Santa Catarina

Mecânicas

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Esconjurando mula sem cabeça, por Gabriel Rubio

Com o texto e as artes em estágio avançado, em 2017 foi o ano do ajuste de mecânicas. É aí que entra no projeto o produtor Vitor Severo Leães que, entre outras atividades, coordenou o retorno dos leitores beta e das primeiras aventuras mediadas no universo do livro. Assim o jogo foi sendo refinado. Se nas versões iniciais era preciso duas horas para aprender as regras e montar um personagem, hoje é possível começar a jogar em apenas 20 minutos. “Eu sempre dizia que o sistema podia mudar, mas não a filosofia”, conta Christopher.

Qual filosofia é essa? Vitor exemplifica. “Uma das coisas mais comuns no RPG é agilizar a criação dos personagens por meio de classes. Você é um bárbaro, um ladrão, um guerreiro e se define por isso. Mas o Chris não queria assim. Ele dizia que não é a profissão que determina quem você é, e era importante levar isso para a escola”.

Outro detalhe interessante nas mecânicas está na linguagem. Como as histórias se passam num Brasil colonial, há toda uma situação de incomunicabilidade que deve ser resolvida. Indígenas não são tratados no coletivo, mas como membros de povos com culturas e idiomas próprios. Africanos escravizados, da mesma maneira, possuem identidades variadas. Europeus, encarados como um grupo único, mascaram os conflitos e alianças entre os povos. Tudo isso está lá para quem se permitir entender.

A Bandeira do Elefante e da Arara lança uma nova luz sobre a história e o folclore do Brasil. Leva diversão e encantamento a um conteúdo cujo lastro final não deveria ser o vestibular ou uma prova de fim de semestre, mas o nosso reconhecimento enquanto povo. O universo está posto a nossa frente em pouco mais de 200 páginas. As histórias que serão contadas só dependem de você.

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