Na década de 40, saci virou “demônio do desperdício” em campanha de racionamento

Por Andriolli Costa
(atualizado em 04/09/2021)

“Você é sócio da light?”. Se você mora no sudeste, é provável que já tenha ouvido dos seus pais essa acusação diante do desperdício de energia elétrica. Estamos em vias de uma nova crise energética e se o lastro mais recente deste cuidado veio com os apagões entre 2001 e 2002, esta é uma oportunidade para relembrar outro acontecimento histórico.

No final da década de 1940, a Light – empresa de abastecimento do Rio de Janeiro – lançou uma campanha em favor do racionamento com um mote diferente. Nada de sociedade, a acusação era de amizade com o Saci! No texto da campanha, o Saci era apresentado como o “demônio do desperdício”, numa escolha que remete à demonização que o mito sofreu e ao comportamento anárquico que ele sempre manteve em suas histórias.

Outra referência que fazem é o fato do Saci ter furos nas mãos, por herança dos duendes portugueses. Ter a  mão furada serviu de metáfora para ser desperdiçador. Funcionou tanto que, ao noticiar o apodrecimento de 2 toneladas de cebola num armazém, o jornal A Manhã brincou que parecia até mesmo que o Saci havia passado por lá.

A Noite, RJ, 1949

Eu sou o Saci
O “Demônio do Desperdício”

Quem não conhece o Saci-Pererê, esse diabinho de um pé só das lendas brasileiras? Casa onde entra o saci, vira logo de pernas para o ar… Ele tem a “mão furada” e desperdiça tudo o que encontra… Cansado de viver no escuro das florestas o Saci sentiu-se atraído pelas luzes da cidade e imaginou a pior das suas travessuras… Deu agora para desperdiçar eletricidade… Evite que o Saci – o demônio do desperdício – se instale em sua casa, obrigando V. a gastar mais eletricidade do que realmente necessita para o seu conforto… Combata-o, economizando luz e força por todos os meios possíveis… Colabore dessa forma para evitar o racionamento que se tornará inevitável se não se equilibrar a tempo o consumo da eletricidade com a atual capacidade de produção da usina, fortemente prejudicada pela maior estiagem destes últimos 15 anos, em Ribeirão dos Lages!

A Noite, RJ, 1949

Nos tempos normais o único inconveniente dessas distrações é o aumento da sua conta de luz no fim do mês…, Mas agora, a possibilidade de produção das usinas que fornecem eletricidade para o Distrito Federal está’ reduzida, pois, nesta época de estiagem – a maior destes últimos anos – o volume das águas do Pirai e Lages se acha extremamente diminuído, ocasionando uma diferença para menos, de 243 milhões de metros cúbicos de água que gerariam força elétrica suficiente para movimentar todas as fábricas de tecidos do Rio durante 820 dias! Além disso, de ano para ano, o consumo de eletricidade nesta Capital, devido ao crescimento de sua· população e ao progresso sensível das suas Indústrias vem aumentando consideravelmente, sendo que de 1947 para 1948 a progressão foi de 14,8 %. Economizar eletricidade é, portanto, a melhor forma de evitar o racionamento. Faça isso em seu benefício e no benefício de toda a coletividade… Não dê ouvidos ao Saci… o demônio do desperdício… Ele enxerga no escuro, a senhora não!”

A Noite, RJ, 1949

Diabruras do Saci!
Maior número de velas do que o necessário!

Resista à tentação de aumentar o número de lâmpadas de sua casa ou de subistituir a que v. está usando por outras de maior intensidade.

É que, em virtude da prolongada estiagem, a represa de Ribeirão das Lages, cujas águas geram eletricidade na Usina de Fontes, está com o seu nível muito abaixo do nível verificado o ano passado, na mesma época, tornando imperiosa a necessidade de economizar eletricidade e evitar todo e qualquer gasto supérfluo de luz e força.

Nesta emergência, o único meio de afastar a possibilidade de racionamento da eletricidade é cada qual poupá-la sempre que for possível. Só assim, com a boa vontade e cooperação de todos, poderemos expulsar definitivamente o Saci – o demônio do desperdício – dos lares cariocas e impedir que se agrave ainda mais a situação atual.

A Noite, RJ, 1949. 

Diabruras do Saci – Deixar a porta do refrigerador aberta. Veja como o Saci está radiante com essa distração

Por muito cuidadosa que seja uma dona de casa ou uma empregada, sempre ocorrem distrações inspiradas pelo Saci – o demônio do desperdício, que implicam num gasto inútil de eletricidade.

Deixar a porta do refrigerador aberta sem necessidade, por um instante que seja, é por exemplo uma forma de desperdício que pode ser perfeitamente evitada.

Além da luz que fica acesa no interior do refrigerador, a massa de ar quente que nele penetra força o motor a trabalhar mais do que devia, e isto representa maior aumento no consumo de eletricidade.

Na situação atual com a produção de energia elétrica seriamente ameaçada pela continua baixa do nível de água na represa de Ribeirão das Lajes, economizar eletricidade é o melhor meio de evitar no futuro o seu possível racionamento.

Agora, mais do que nunca, sua cooperação é indispensável neste combate ao Saci – o demônio do desperdício – para que, possa haver, sempre, abundância de luz em todos os lares cariocas, sem a menor restrição no seu uso.

Confira a transcrição do texto da edição de 24-07-1949 do Diário de Notícias.

saci light.jpg

“Esse é amigo do saci!”

É natural que V. se sirva da eletricidade que necessita para o conforto e a alegria do seu lar… Afinal é V. quem paga a conta no fim do mês… Isso não significa, porém, que V. deva esbanjar… Usar mais lâmpadas do que o necessário… Estamos diante de um problema muito sério, cuja solução depende da colaboração de todos… Devido à estiagem – a maior destes últimos 15 anos – o nível da Represa de Ribeirão das Lages baixou 7 metros, do nível normal o que equivale a um volume d’água de cerca de 215 milhões de metros cúbicos a menos. Este volume d’água movimentaria máquinas, que gerariam 143 milhões de kilowatts com os quais se iluminaria uma cidade como o Rio, durante 817 dias. Enquanto isso, o consumo de eletricidade do Rio de Janeiro vem aumentando vertiginosamente, de ano para ano, sendo que de 1947 para 1948 a progressão foi de 14,8%.

Para equilibrar a produção com o consumo, o caminho certo é economizar… Suprimir todo gasto supérfluo de luz e força… Só assim será possível evitar o racionamento que é justamente o que o Saci – o demônio do desperdício – mais deseja neste momento !

O uso racional de eletricidade evitará o racionamento”

O Cruzeiro, RJ, 1949

“Diabruras do Saci – Excesso de aparelhos elétricos

Essa infinidade de aparelhos elétricos feitos para o conforto e a distração da família, representam muito num lar moderno. Por outro lado, contribuem bastante para aumentar o desperdício de eletricidade. Como estamos atravessando uma fase difícil na produção de energia elétrica, seria aconselhável limitar um pouco o uso desses aparelhos … empregando apenas os que se tornem realmente indispensáveis e na medida justa das necessidades. Como foi anunciado, a prolongada estiagem fez baixar 9 metros o nível da represa de Lages, o que representa um desfalque de 324 milhões de metros cúbicos de água, equivalentes a 215 milhões de kilowatt-hora …Fôrça essa que daria para movimentar todos os bondes do Rio durante 8 anos e meio. Torna-se, portanto, imperioso economizar eletricidade, como o único meio de evitar o racionamento. Só assim, com a sua cooperação, com a cooperação de todos, poderemos impedir que o Saci – o demônio do desperdício- agrave ainda mais a situação. Não seja amigo do saci.”

Diário de Notícias, RJ, 1948

“Diabruras do saci – Gastar luz à toa!

Uma luz acesa numa casa, sem a menor necessidade, não tem muita importância… Mas quando esse fato se repete diariamente em milhares de residências, a eletricidade assim desperdiçada atinge um volume impressionante! Na presente situação, esse gasto supérfluo de luz e força está criando um problema muito sério. É que devido à prolongada estiagem – a maior destes últimos anos – o nível da represa em Ribeirão das Lages já baixou de 9 metros e continua a descer numa média de 9 cm por dia. A massa de água assim perdida atinge, neste momento, a 329 milhões de metros cúbicos que bastariam para gerar 215 milhões de kilowatt-hora .. força essa suficiente para movimentar todas as fábricas de tecidos do Distrito federal durante 4 anos! Para equilibrar a produção e evitar o racionamento o melhor meio é economizar eletricidade é impedir que o Saci – o demônio do desperdício – se instale em sua casa. Não seja amigo do saci!”

A Noite, RJ, 1949

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