O Saci – Hugo de Carvalho Ramos (1917)

“O Saci” é um conto que integra a coletânea Tropas e Boiadas, único livro publicado em vida pelo escritor regionalista goiano. O texto mesmo foi escrito em 1910, quando o escritor tinha apenas 15 anos de idade. Quatro anos depois, movido pela depressão, Hugo de Carvalho Ramos se suicida no Rio de Janeiro. Confira abaixo o texto na íntegra.


 

Hugo de Carvalho Ramos

418524_102Por aquele tempo o Saci andava desesperado. Tinham-lhe surrupiado a cabaça de mandinga. O moleque, extremamente irritado, vagueava pelos fundões de Goiás.

Pai Zé, saindo um dia à cata dumas raízes de mandioca-castela que sinhá dona lhe pedira, topou com ele nos grotões da roça.

O preto, abandonando a enxada e de queixo caído, olhava pasmado o negrinho que lhe fazia caretas e trejeitos, a saltar no seu único pé, e fungando terrivelmente.

— Vancê quer alguma coisa?, perguntou pai Zé admirado, vendo agora o moleque rodopiar como o pião do ioiô.

— Olha, negro, respondeu o Saci, vancê gosta de Sá Quirina, aquela mulata de substância; pois eu lhe dou a mandinga com que ela há de ficar enrabichada, se vancê me arranja a cabaça que perdi.

Pai Zé, louco de contentamento, prometeu. A cabaça, ele sabia-o, fora amoitada pelo Benedito Galego, um caboclo sacudido que, cansado das malandrices do moleque, a tinha roubado das grimpas do jatobá grande, lá nas roças do ribeirão.

Pai Zé fora um dos que o tinham aconselhado, para obstar que o saci, como era o seu costume quando incomodado, tornasse a levantar as árvores da derrubada que o Benedito fizera nessas terras.

Arrastando as alpercatas de couro cru pelas terras de Sô Feitor, pai Zé capengava satisfeito e inchado com a promessa do Saci.

Desde Santo Antônio que ele rondava Sá Quirina, procurando sempre ocasião de lhe mostrar que, apesar dos seus sessenta e cinco anos e meio, um olho de menos e falta de dente na boca, não era negro para se desprezar assim por um canto não – que substância ainda ele tinha no peito para aguentar com a mulata e mais a trouxa de Sá Quitéria, sua mulher, se ele tinha!

Mas a cafuza era dura da gente convencer. Toda a eloquência que ele penosamente engendrara em seu bestunto de africano e que lhe tinha despejado pela festa de S. Pedro, não teve outro resultado senão a fuga da roxa quando o encontrava.

— Mas agora, gaguejava o preto, eu lhe amostro, que o Saci é um bicho bom pra deitar um feitiço.

Com a rica dádiva dum quartilho de cachaça e meia mão do seu fumo pixuá, pai Zé alcançou do Galego a cabaça desejada.

Sá Quitéria, porém, não via com bons olhos o afã de seu velho pela posse da milonga. E ela também sabia deitar e tirar quebranto, se sabia! – Perguntassem à bruxa da Nhá Benta, que desde véspera de Reis estava entrevada na trempe do jirau; e não era o zarolho e cambaio do seu homem que a enganasse.

Por isso, a velha ciumenta estava de tocaia, desejosa por saber do seu intento. Lá ia pai Zé, arrastando novamente as alpercatas de couro cru pelas terras de Sô Feitor, à entrevista do Saci. Atrás dele, sorrateira, lá ia também Sá Quitéria.

O negro chegou aos grotões e chamou pelo Saci, que de pronto apareceu.

— Toma lá a sua cabaça de mandinga, seu Saci, e dá me cá o feitiço pra Sá Quirina.

O moleque desbarretou-se, tirou uma pitada grossa da cumbuca, fungou, e, entregando o resto a pai Zé, disse:

– Dá-lhe a cheirar esta pitada, que a crioula é sua escrava.

E desapareceu, fungando, pulando no seu único pé, nos grotões e covoadas da roça.
Ah, negro velho dos infernos, que conheci a tua tramoia, gritou Sá Quitéria furiosa, saindo do bamburral e segurando-o pelo papo.

13682SK1435504470GE na luta do casal lá se foi o feitiço que o pobre pai Zé adquirira com o sacrifício dum quartilho de cachaça e a meia mão do seu bom fumo pixuá.

Desde então nunca mais houve paz no casal, que se devorava às pancadas; e pai Zé arrenegava sem descanso o maldito que introduzira a discórdia no seu rancho.

— Porque, Ioiô – concluiu o preto-velho que me contava esta história -, a todo aquele que viu e falou com o Saci, acontece sempre uma desgraça.

RAMOS, Hugo de Cavalho. Tropas e Boiadas. Goiânia: Instituto Centro-Brasileiro de Cultura, 1917. p 25-26. 

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