Saci para quê? Considerações sobre o Dia do Saci

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O saci na Festa do Folclore de Novo Hamburgo/RS

Publicado originalmente em 31/10/2015
Por Andriolli Costa

Como estudioso das mídias e pesquisador de cultura popular, acompanho com especial interesse ano após ano o embate entre amantes do Dia das Bruxas e defensores do Dia do Saci. Discussão essa que, como várias no âmbito das redes sociais, não leva a outro lugar que não a fadiga mútua. As postagens, memes e acusações se seguem até o ponto em que as pessoas simplesmente se cansam uma das outras e desistem de argumentar.

Este não é mais um texto de renúncia ao Halloween. Não busca fazer uma exaltação ufanista, muito menos se apegar a uma infrutífera discussão sobre o anglicismo que cerca nosso dia a dia. Isso não é o importante. A verdadeira chave da questão é perceber que o Dia do Saci não é mera alternativa tupiniquim ao Dia das Bruxas, mas um objeto de natureza totalmente diversa. E é essa natureza que será evidenciada aqui.

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Mais uma polarização não é o caminho

O bipartidarismo político já não é polarização ideológica o suficiente nas redes sociais? Ao que parece, não. Basta uma rápida olhada nas mensagens compartilhadas para compreender. As bem-humoradas artes da Sociedade dos Observadores de Saci — “Raloim? Só com carne seca!” — dividiam espaço com mensagens nacionalistas que berravam: “Halloween é o cacete! Viva a cultura nacional”. Isso sem falar nos comentários que taxavam de alienados ou antipatriotas aqueles que queriam celebrar a festa estrangeira.

A antipatia foi compreensível. “Feliz dia do pseudomoralista que diz que devemos comemorar o Saci no lugar do Halloween”, diz um tweet divulgado pela Veja SP. “Que chato esse pessoal reclamando que Halloween não é uma festa brasileira. Natal também não!”, alfineta o blogueiro gaúcho Rafael Rodrigues. A defesa da cultura local virou até mote de piada no Não Salvo.

Pelo Facebook, o usuário Fabio Donaire relembra que o Halloween não é uma apenas uma festa americana, mas a celebração do Samahin celta, que foi apropriado e reimaginado por diversas culturas — entre elas a dos Estados Unidos. Evidente que esse lastro muito se perdeu frente ao calendário econômico, mas ainda resta algo de memória desse rito antigo. E levando em conta que os próprios mitos brasileiros são gerados de influências indígenas, negras e europeias, Donaire conclui propondo: Saci e Halloween são fatias do mesmo bolo. E arremata:

“Enquanto você está aí pensando, o Saci deve estar em festa!”.

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Arte de José Ohi

Compreendo que as mensagens mais enfáticas em defesa do Dia do Saci vem da vontade de legitimar uma ideia frente a outra, hegemônica e internalizada. Ainda assim, com tantas reações contrárias, será que é este o caminho? Não acredito que seja possível convencer o outro a mudar de ideia — ou ao menos a simpatizar com a causa — agredindo e desqualificando seus comportamentos. A postura mais natural é que o interlocutor reaja defensivamente, e foi o que aconteceu.

 

O Dia do Saci não é um feriado nacional. A proposta de sua criação ocorreu em 2003, com dois projetos de lei que não foram aprovados. No entanto, de lá para cá, a data já foi instituída como feriado municipal em dez municípios, principalmente no interior de São Paulo. Isso não impediu que várias outras cidades também passassem a promover suas próprias brincadeiras em homenagem ao diabrete brasileiro. Esse é o espírito.

1-qVYHQeej5OcJBDLTW7ukyQO desejo de festejar não deve ser imposto a ninguém. Se não for algo espontâneo, vira teatro, vira encenação. A espontaneidade, afinal, é uma das principais características da cultura popular. O fato folclórico existe a partir do povo, e acompanha esta sociedade. Quando deixar de fazer sentido, vira outra coisa. Simples assim.

Aquele que quer se vestir de Fantasma ou Vampiro e pedir doces na rua tem tanto direito de fazer isso quanto quem deseja celebrar com um gorro vermelho na cabeça. O Dia do Saci não é — ou não deve ser — um contra-ataque ao Halloween. Afinal, se o desejo é trazer mais pessoas para a “equipe Saci”, não é assim que se convence ninguém.

 

Caminhos possíveis

Se uma campanha ideológica contrária ao Dia das Bruxas não é a melhor alternativa, então qual seria? Penso que há duas frentes possíveis. A primeira é a que se aproveita da data para apelar ao lúdico e à tradição, com ações divertidas e espirituosas que chamam a atenção do povo para a valorização da cultura brasileira sem agredir o interlocutor.

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Saciata em Guarulhos

Em Guarulhos, por exemplo, um projetor fez o saci pular de prédio em prédio, fazendo estripulias e lembrando o Dia do Saci. Na capital paulista, o professor de Filosofia da Cásper Líbero, Chico Nunes, também chamou a atenção com duas iniciativas em comemoração a data. No dia 30, junto ao jornalista esportivo Celso Unzelte, organizou uma partida de futebol de um pé só na quadra da Faculdade. No outro dia, distribuiu gorros e promoveu uma “Saciata”, que atravessava a Avenida Paulista.

A segunda frente possível, por sua vez, busca a valorização e ressignificação da cultura popular brasileira durante todo o ano, não apenas em uma única data (ou duas, contando o Dia do Folclore, em 22 de agosto). É esta que lembra as pessoas de como o folclore faz parte de suas vidas, mesmo que muitas vezes não se apercebam, e busca dar novo sentido à manifestações que por vezes são tidas como coisa de criança.

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Arte de Giorgio Galli

Destaco, nesta área, o trabalho feito pelos artistas das mais diversas mídias que se apropriam da cultura popular para comunicar com todo tipo de público. O violeiro Paulo Freire, autor de Nuá — As Música dos Mitos Brasileiros, canta a beleza da cultura interiorana e cativa pelo encantamento. Animações como a série Juro que Vi, de Humberto Avelar, resgatam o lendário pela estética do maravilhoso que lembra os antigos filmes da Disney.

 

O folclore também ganha novas roupagens nos quadrinhos e na literatura. Simone Saueressig, de Contos do Sul, escreveu a história da Iara mais assustadora que já li. Newton Rocha, com seu Nana Neném, conseguiu criar a ponte entre a Cuca bruxa e seus jacarés de maneira inventiva e marcada pelo gore. O quadrinista Giorgio Galli, de Salomão Ventura — Caçador de Lendas e também aposta no terror e na violência para dar novo sentido ao bestiário brasileiro.

Felipe Castilho, com seu Legado Folclórico, constrói uma super-equipe em que o Saci faz as vezes de professor Xavier. Roberto Causo, com a saga de Tajarê, e Christopher Kastensmidt, com a Bandeira do Elefante e da Arara, por sua vez, reimaginam um Brasil histórico e mágico, onde sacis, botos e icamiabas fazem parte do dia a dia do povo. Outro exercício criativo muito interessante foi o feito pelo podcast Agência Transmídia, que criou a proposta de um mockumentário sobre o Saci. Crianças, jovens, adultos… Não há quem não seja capturado pela força das narrativas.

Por que saci?

Tudo começa com o povo. Então vêm Monteiro Lobato. Talvez hoje, muitos que conhecem o trabalho do escritor apenas por posts compartilhados no Facebook, reconheçam em Lobato apenas a sua faceta controversa. De fato, há momentos de indefensável racismo e eugenia em seu texto, mas de maneira alguma sua obra pode ser reduzida a estes pontos. Lobato acreditava, acima de tudo, na autonomia brasileira. Desde o campo das artes, até a cultura popular e a economia. Talvez isso parece cafona hoje, mas Lobato foi capaz de dar a vida por essa crença.

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O Saci e a Cavalhada – Alfredo Norfini

Quatro anos antes de entrar na literatura infantil, em 1917, Lobato havia se frustrado ao se deparar com esculturas de gnomos “nibelungos” nos parques de São Paulo. Todos encapotados e prontos para o frio germânico frente ao verão tupiniquim. O escritor — já um renomado articulista — conclamou artistas nacionais para realizar aquilo que chamou de um 7 de setembro artístico, produzindo trabalhos centrados na figura do Saci.

O diabrete foi escolhido como estandarte para esta defesa proposta por Lobato. Isso porque o Saci representa a trindade fundadora da cultura popular brasileira. Ele surge como o anão bípede Guarani Yasi-Yaterê; perde a perna e ganha sua negritude com a chegada dos escravos africanos — que assumem o domínio da contação de histórias — e herda do fradinho da mão-furada português a carapuça vermelha, bem como os furos nas mãos de onde dança a brasinha que lhe acende o cachimbo.

Na exposição, houve belíssimos trabalhos inscritos, mas várias recusas. Afinal, os artistas também estavam inseridos numa ontologia da modernidade marcada por uma racionalidade lógico-referencial, tributo direto da razão científica, positivista e cartesiana. Mesmo a arte, dominada pela preocupação positivista com observações objetivas, análises e classificações da vida humana ignorava ou menosprezava os saberes populares, que sob sua ótica pareciam primitivos e vulgares.

Indiferente a isso, Lobato insistia na temática — e também no Saci. Tanto que também em 1917, Escreve para a edição vespertina do jornal O Estado de S. Paulo o artigo Mitologia Brasílica. Nele, promove uma nova campanha e convida todos os leitores a compartilhar suas histórias sobre o duende brasileiro. Para tanto, deveriam responder ao seguinte questionário:

1. Sobre a sua concepção pessoal do Saci; como a recebeu na sua infância; de quem a recebeu; que papel representou tal crendice na sua vida, etc.;

2. Qual a forma atual da crendice na zona em que reside;

3. Que histórias e casos interessantes, passados ou ouvidos sabe a respeito do Saci.

1-mvJceF076yrk3R_NxfCgxwO resultado foi publicado no livro O Saci: Resultado de um Inquérito (1918), assinado por “um demonólogo amador”. Nele, estão presentes inúmeras histórias, das narrativas populares às elaborações literárias, com descrições diferentes da criatura, mostrando como o mesmo mito pode ser construído de maneira diferente no imaginário de cada comunidade.

Os sacis descritos no livro são dos mais variados. Há diabretes com cascos, com garras, chifres e rabo. A imagem do Saci utilizada por Lobato para ilustrar a capa da publicação, por exemplo, mostra um Saci com dentes pontiagudos, chifres córneos e um porrete a mão, com o qual castigava os transeuntes. Um retrato da riqueza do mito. Todos tem um saci diferente para chamar de seu.

O Saci hoje

Em 2006, o folclorista Carlos Carvalho Cavalheiro propôs uma retomada do Inquérito sobre o Saci, com o objetivo de publicar um livro — nunca lançado, no ano seguinte. Mesmo assim, são reunidas quase 50 histórias sobre o diabrete. As comparações entre os dois dossiês são inevitáveis, e pautam parte do que se pretendeu com esta observação. Assim, se antes Lobato podia atestar que “não há menino que em dia de vento não arregale o olho para um rodamoinho de poeira e não ‘veja’ nele, com os olhos da sugestão, o moleque de uma perna só” (1998), hoje, como destaca um dos depoimentos, “É raro encontrar um piá que troque os truques de um Pokémon pelas peraltices do Saci”.

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Mas realmente é preciso trocar um pelo outro? Exigir que as crianças não corram com pokébolas no cinto, mas com garrafas e peneiras? Não é nada disso. O folclore não é um pedaço de Mata Atlântica, que deve ser mantido intocado e preservado para que não se perca para sempre. A cultura popular é viva e dinâmica, mutante e mutável. Este imaginário popular deve ser alimentado, não defendido. Afinal, se perde sentido, o que resta é puro anacronismo.

O Colecionador de Sacis

1-1u41D58x7nafY0WIfvca2QO Colecionador também inspirou um curta-metragem dirigido e roteirizado por mim, na oficina de cinema de Magnum Borini. Lançamento até o fim do ano.Este está longe de ser o caso do Saci. E isso não é apenas uma consideração, mas um fato. Desde o início do ano, de inicio por hobby, mas logo por interesse acadêmico, criei no Twitter o perfil do Colecionador de Sacis. Nele, um algoritmo adaptado retwitta todos os posts com a palavra saci publicados na rede social. Em média, são 1000 tweets que envolvem a criatura folclórica de uma maneira ou de outra toda semana.

Fiz uma análise mais sistematizada dos posts que apareceram no Colecionador entre 1ª e 3 de maio de 2015. No total, excluindo o uso da palavra-chave gerada pela própria interação com perfil, foram cerca de 450 tweets diferentes. Mas do que falam eles? Basicamente, há duas grandes categorias: saci como metáfora e saci como comparação. Há a ainda saci como instituição (ao nomear um local, uma operação militar, uma banda) e como inspiração, ao servir como gancho para músicas, filmes e ditos populares revisitados. Isso sem falar na relação com a cultura pop. Os usuários usam saci para brincar com a cultura otaku, com histórias em quadrinhos ou filmes Holywoodianos. Discutem política, religião…. todo assunto é assunto para o saci.

Saci nas redes

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Quando se supõe que uma avaliação escolar será muito difícil, a prova será “do saci” — como também é a chuva que cai com grande intensidade. A pessoa muito irritada, acordou “virada no saci”, o que também se diz de quem planeja enlouquecer de tanto curtir em uma festa. Saci pode ser apelido ou simplesmente uma ofensa (5% dos casos). É indicador de feiura, traquinagem, curiosidade, e o que se diz de uma pessoa chata, ou de um moleque.

Quando alguém se machuca, torce ou quebra uma das pernas, a comparação é inevitável. Apenas quatro tweets, entretanto, utilizam a perna única como sinônimo de deficiência. Inclusive, o fato de ser unípede, mas poderoso e veloz, representa no imaginário a ideia de uma solução criativa para um problema.

Sua negritude é lembrada em relativamente poucos casos, alguns de postagens de tom racista. É o que aconteceu num período anterior ao da coleta, quando os usuários do twitter usaram da comparação com o Saci para ofender uma participante do BBB.

Uma fã de MC Veroki, desiludida com a vida amorosa, provoca no verso: “amor é que nem saci, tem que ser muito trouxa para acreditar”. O verso da funkeira introduz muito bem uma questão curiosa. Em várias situações, o Saci é utilizado como referência a algo duvidoso ou inexistente. (quase 4%). Essa postura faz com que o uso do saci ganhe ares de comentário político, criticando determinadas situações que vivenciamos em nossa realidade social.

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A crença ou descrença no diabrete é indiferente; relevante mesmo são os usos e apropriações que mostram que o folclore não está à parte de nossa sociedade, mas em diálogo com o presente.

Mais que piadas, o saci ressurge em ditos populares contemporâneos, adequados aos desafios de nosso tempo. Isso é perceptível ao se notar que 12% dos quase 500 tweets analisados era uma variação da expressão “minha vida está mais parada que saci de patinete” — sendo que, por vezes, o que está vagaroso não é a vida, mas o Whatsapp, a timeline ou a internet. Aquele que está com grandes problemas pela frente tem toda a consciência de que está “na pica do saci”. Diversos usuários sabem que “em terra de saci, qualquer chute é voadora”, ou ainda que neste mesmo reino dos pernetas, “calça jeans dá para dois”.

Falar do Saci é falar do Brasil

Edison Carneiro, autor de A dinâmica do folclore definia a expressão como os modos de sentir, pensar e agir de um povo em relação aos fatos da sociedade e aos dados culturais de seu tempo. E sob a pressão da vida social, o próprio povo seria o responsável por atualizar, reinterpretar e readaptar constantemente estas manifestações.

É nesta dinamicidade que se percebe a presença do saci nas redes como uma resposta à reflexão apocalíptica de que os Media de Massa representariam o fim da cultura popular. Indiferente ao meio, concreto ou virtual, esta pesquisa atesta aquilo já proposto por Cascudo em meados do século passado: “Onde estiver um homem viverá uma fonte de criação e divulgação folclórica”. Onde houver um brasileiro, lá haverá um saci.

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Nesta dimensão identitária que fechamos a discussão aberta na introdução deste texto. O Halloween, como é majoritariamente encarado hoje, celebra a cultura pop, os monstros do cinema, os livros de terror. E há muito espaço para isso. O saci, por outro lado, nos lembra o tempo todo de quem somos. E as vezes isso não é apenas importante, mas necessário.

Andriolli Costa, 27 anos, é natural de Mato Grosso do Sul. Jornalista e doutorando em Comunicação pela UFRGS, é membro número 930 da Sociedade dos Observadores de Sacis. Desde 2015, gerencia o perfil e a página do Colecionador de Sacis.

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