Saci ou Saduci? A importância de distinguir folclore de ficção

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Por Andriolli Costa

As redes sociais são grande espaço para compartilhamento de informações inverídicas, muitas delas construídas propositalmente para incentivar o compartilhamento a revelia de sua correspondência factual. E esse espaço para as chamadas fake news também afeta o âmbito do folclore.

Um dos maiores exemplos já tratado por aqui foi o caso da história da Iara guerreira. Nela, uma narrativa de empoderamento feminino constrói uma protagonista poderosa, invejada por seus irmãos e por isso condenada. A história faz sucesso pois entra em diálogo com muitos de nossos anseios contemporâneos. Mas a obra, como mostramos, é ficção e não tem relação nenhuma com o mito da iara – ligado sim a violência dissimulada, às águas que tanto trazem a vida quanto, revoltosas, a morte.

Não tardou para que a mesma situação ocorresse com o saci, um dos maiores mitos do folclore brasileiro. Recentemente tomei conhecimento de que está circulando pelo Facebook a história de que o mito do saci teria uma origem “histórica”. Ele seria, na verdade, um príncipe africano chamado “Saduci”, que foi capturado e escravizado pelos portugueses. A mesma postagem explica a partir da vivência do príncipe as relações com gorro, cachimbo e a perna que lhe falta.

Essa tentativa de dar uma origem histórica a um mito vem de uma corrente chamada Evemerismo, que remete ao pensador grego Evêmero que acreditava serem os deuses reminiscências das ações de reis e líderes do passado cuja memória se perdeu. Uma perspectiva curiosa, mas extremamente especulativa.Como exercício ficcional é super válido e criativo, mas me preocupa o número de pessoas compartilhando como sendo “a verdadeira história do saci” e manifestando o desejo de ensinar essa versão nas escolas agora que estamos no mês do folclore.

Antes que mais uma fake news folclórica se espalhe, já deixo aqui o alerta que deveria parecer óbvio: essa história é ficção. Quem se der ao mínimo de trabalho de jogar no Google verá que o conto que deu origem ao texto compartilhado foi postado em 2012, criado pela usuária Emy Moraes que ainda se manifesta no último parágrafo:

“Achei que as crianças afro-descendentes precisam de histórias bonitas para terem orgulho de si mesmas e não só histórias de dor e sofrimento”.

Ou seja, é um conto escrito para empoderamento, e por isso é necessário, mas não tem qualquer lastro folclórico. Se o texto for trabalho enquanto ficção, não há problema, mas qual o sentido em tratar como folclore algo que não é?

Quando expus a confusão, recebi como resposta um comentário que compreendo, mas que me entristece muito: “Mediante todas as nossas vivências nesse território e no apagar dessa mesma história nossa pelo opressor europeu, é nessa história que vou acreditar daqui pra frente”. É a pós-verdade chegando ao folclore, onde se escolhe crer que algo é da cultura sem que nunca o tenha sido.

Fico triste pois a história do saci é riquíssima, tem muito a engrandecer a cultura negra e é verdadeira. Mitos são grandes verdades, existem num contar e recontar que não estão na minha crença ou na sua, mas nas pulsões ancestrais que orientam. Fossem nossas histórias folclóricas mais divulgadas, cenas assim não se repetiriam tanto.

Há tanto desconhecimento sobre o tema, tanta gente ávida por conhecer mais sobre nossos mitos e nossa cultura tão rica… Inventar é pegar o caminho mais fácil. Escute, pesquise, abra seus ouvidos para os mitos. Eles tem muito a falar se você estiver disposto a ouvir.

Fontes:

Quer saber mais sobre o saci, com rigor e seriedade? Escute nossos podcasts:

  • Popularium 10 – Os Barretes Vermelhos (um mergulho no mito do saci)
  • Poranduba 9 – #OcupaSacy (entrevista sobre saci, racismo e dinâmicas de poder)
  • Poranduba 10 – O Saci de Lobato (reflexão sobre Monteiro Lobato e o Saci)
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3 Respostas para “Saci ou Saduci? A importância de distinguir folclore de ficção

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