Os 7 erros mais frequentes sobre o folclore brasileiro

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Ilustração de Eduardo Belga para a Mundo Estranho

Por Andriolli Costa

Completo em 2018 uma década de estudos dedicados ao folclore brasileiro, sempre com foco em nossos mitos e lendas. E acompanhando não apenas a produção acadêmica sobre o tema, mas também a literatura e as redes sociais, fiz notas mentais de equívocos que sempre se repetiam quando se falava em folclore brasileiro.

Cabe atenção com o termo “erro” que uso no título. Isso quer dizer que existe uma única verdade folclórica? Jamais. Existem infinitos sacis, que variam de acordo como o vê cada um que acredita. Mas aí é que está uma dimensão que não pode ser negligenciada: a crença. Muitos poderiam pensar que um erro desses repetido várias vezes poderia se tornar folclore. É possível, mas somente se houver crença envolvida. Folclore é vivência, experiência, tradição e identidade. Os erros que me refiro são esses que a gente acha que o povo diz, quando na verdade nunca disse.

E que equívocos são esses? Normalmente são fruto de má interpretação dos textos de folcloristas, interferências da cultura pop ou, especialmente, fontes de pesquisa que não se preocupam com a qualidade da informação que transmitem. Certamente sites como Sua Pesquisa, Brasil Escola ou demais agregadores de conteúdo tem sua importância, mas no âmbito do folclore são de grande pobreza bibliográfica.

A internet é uma imensa fonte de informação democrática. Entretanto, é também o ambiente propício para o compartilhamento e a repetição de informação errada. Nos estudos do imaginário falamos sobre a importância de se “perseguir a presa mítica”, e fazemos isso buscando as fontes primárias, e não seus repetidores. Mesmo em ambiente virtual, verão que é uma caçada e tanto. Será um pouco disso que faremos aqui.

Você certamente já percebeu como o mesmo texto se repete em vários sites diferentes, não é mesmo? Quem publicou primeiro? De onde saiu aquela informação? A autoria e as fontes primárias se perdem na rede, e o atestado de veracidade parece vir com o número de vezes que um fato é repetido.

E assim o erro vai se perpetuando. Já encontrei erros básicos como os apontados abaixo em projetos de lei, propostas de editais públicos, concursos e provas de colégio. Ora, se o objetivo é promover e divulgar o folclore, é preciso um mínimo de atenção e cuidado. Não se pode valorizar a cultura popular ao promulgar um equívoco. A riqueza folclórica está na crença compartilhada, nos valores identitários que o mito carrega – traços dos quais a informação falsa está despida.

Já no caso dos artistas, cabe um alerta. Não estou querendo impedir que você crie suas histórias inspiradas em folclore  da maneira que bem entender. Há, nos “erros” abaixo, criações literárias inclusive muito interessantes. A questão é que não se deve tratar o que não é folclórico como assim o sendo. Porque os mitos não são apenas historinhas curiosas, mas construções simbólicas complexas que mobilizam não somente o componente social, mas também uma ancestralidade que nos conecta enquanto gênero humano. Eles são de um jeito por um motivo, e também por estes motivos se transformam.

Por fim, é importantíssimo deixar claro que só existe uma autoridade inquestionável sobre os saberes folclóricos. E esta autoridade não sou eu, não é Luís da Câmara Cascudo, Silvio Romero ou Teófilo Braga. Essa autoridade é o povo. Os livros dos folcloristas trazem rastros dessa voz do povo, mas representam apenas o instante de um processo – o momento da escrita. Os trabalhos dos etnógrafos contemporâneos, rastreáveis pelos sistemas acadêmicos, são extremamente importantes nesse sentido por trazerem a atualidade dessa voz.

Mas se tiver a oportunidade, não deixe de conversar com pessoas também. Fale com seus avós ou parentes idosos, vizinhos e mestres da cultura popular da sua comunidade. Como já sugeri anteriormente, trabalhar com folclore é a oportunidade perfeita para descobrir sua cidade, visitar quilombos e aldeias. É sempre enriquecedor.

Qual outra alternativa se tem? Procure sempre as fontes primárias, ou os sites que os indicam. Para um agregador fácil, a Fantastipédia teve uma curadoria bastante atenciosa. Para certa profundidade analítica, pode buscar o podcast e os roteiros do Popularium, que produzi em 2017. Para um mergulho completo, o Dicionário do Folclore Brasileiro é indispensável, mas não pare nele. A Brasiliana da USP, a Biblioteca Digital Curt Nimuendajú e os sistemas de domínio público trazem riquíssimo material também de autores como Fernão Cardin, Barbosa Rodrigues e Couto de Magalhães – tudo de graça.

7) A palavra “Salamanca” na lenda da Salamanca do Jarau é sinônimo de lagarto

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A Teiniaguá em série de cartões postais de dança. Foto: Tony Seitz Petzhold, 1945

Mesmo no Rio Grande do Sul muita gente, quando conta a história da Teiniaguá , pensa que “salamanca” é algo como “salamandra“. Colabora o fato da princesa moura ter sido transformada pelo diabo em uma lagartixa. Entretanto, isso não procede. Vários autores, inclusive Simões Lopes Neto, diziam que o termo vem da própria cidade espanhola de Salamanca, cidade de origem da “fada velha” antes de vir parar no Cerro do Jarau, próximo ao Uruguai.

O historiador Gonzalo Abella, no livro Leyendas, mitos y tradiciones de la Banda Oriental sugere ainda que Salamanca, na verdade, seria uma castelhanização do termo de slamanc, que na língua dos pampas significaria “ritual secreto”. Interessante, mas encarem com desconfiança.

6) O lobisomem brasileiro morre com bala de prata

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A cultura pop, especialmente o cinema hollywoodiano, popularizou a ideia de que lobisomem só pode ser morto por prata. Isso, entretanto, nunca valeu para os licantropos brasileiros. Os registros folclóricos dizem que para desencantar um lobisomem é preciso simplesmente fazer correr sangue do monstro – tomando cuidado de não se deixar contaminar pelo fadário. Isso pode ser difícil se a criatura tiver couro grosso. No caso de mortes a tiro, é preciso envolver a bala com a cera de uma vela consagrada rezada durante a missa do Galo.

5) Lobisomem brasileiro se transforma a partir do Lobo Guará

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Lobisomem em Guerreiros Folclóricos, por Joe Santos

Não existe qualquer relato de um lobisomem guará no folclore brasileiro. Nossa tradição de lobisomem é a ibérica, e assim como em Portugal, a criatura carrega na verdade muito pouco de lobo. Os nossos lobisomens se transformam ao se espojar num local onde outros animais se deitaram – e vai levar para sua forma bestial traços desses outros bichos. O legítimo lobisomem brasileiro tem muito de porco, cachorro e até mesmo touro e cavalo. Sempre com orelhas muito grandes que batem enquanto a criatura corre.

Saiba mais sobre o mito no Popularium #7 – O Lobo do Homem

4) O Saci Pererê era um indiozinho com duas pernas e rabo

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Página do livro “Dossiê Saci”, de Margareth Marinho

Está aí um erro que já repeti. É comum encontrar em sites sem fonte na internet a ideia de que o Saci Pererê nasce de um mito Guarani, o Jasy Jateré, e era um indiozinho com duas pernas e rabo – características que vai perdendo com a africanização do encantado. Essa é uma meia verdade: existe o mito Guarani do Jasy, e ele realmente é anterior ao nosso Saci, mas em nenhum momento teve essas características físicas. O Jateré sempre foi um duende branco e loiro que nada compartilha da descrição sugerida.

Intrigado com essa falta de correlação entre o mito Guarani e o que se falava sobre ele por aqui, fui pesquisar. A citação mais antiga sobre essa descrição que encontrei na internet foi de uma entrevista no Brasil de Fato ano 2, em 2004, com o Mario Cândido da Silva Filho, membro fundador da Sociedade dos Observadores de Saci, onde se lê:

Segundo Cândido, o mito do saci é encontrado também na Argentina e no Paraguai, como um curumim (criança indígena) peralta, com duas pernas e um rabo.

Procurado pelo Colecionador de Sacis, Cândido se mostrou surpreso e disse não recordar nenhuma entrevista ao jornal – muito menos com essa descrição. “O que me preocupa nessa matéria do Brasil de Fato é que certamente eu não atestei a existência de um Saci com rabo e que isto pode parecer que nós, na SOSACI, pensamos dessa forma, o que não é verdade.”

É de se supor que um texto enviado como release foi alterado e uma descrição foi atribuída por engano. Como fonte de autoridade, a SoSaci acabou pautando esse erro que foi repetido durante tantos anos. Leia a matéria aqui.

3) Saci quando morre vira orelha de pau

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Este não é exatamente um erro. Afinal, quando a autoria se perde, e existe crença envolvida, o folclore também se transforma. De qualquer forma, acrescento aqui de curiosidade, pois foi  um fato que me chocou um pouco ao constatar. Afinal o próprio Colecionador de Sacis surgiu quando, ao andar por São Leopoldo/RS e ver a quantidade de orelhas de pau pelas ruas, pensei que a cidade era um verdadeiro cemitério de sacis. Alguma coisa havia de ser feita.

Pois é possível que essa angústia não seja tão necessária. Estudando sobre o saci em todas as fontes primárias, e comparando com os relatos antropológicos de sua crença, percebemos que o único que menciona o fato de que os sacis quando morrem aos 77 anos se transformam em orelhas de pau é o próprio Monteiro Lobato. E isso exclusivamente no Sítio do Picapau Amarelo (1921), nenhuma menção ao fato é registrado em qualquer um dos mais de 70 depoimentos de Saci Pererê – Resultado de um Inquérito (1918).

Podemos então supor que o detalhe foi criação ficcional lobatiana. Interessante notar que outro nome para as orelhas de pau é “urupês”, os cogumelos que se fixam às árvores que serviram de inspiração para o conto onde surge o personagem Jeca Tatu (1914). Lobato comparava o caboclo ao fungo parasita, uma “velha praga da terra”. No entanto, poucos anos depois, revê sua imagem negativa sobre o caipira graças às campanhas sanitaristas e constrói um outro ideário de sua relação com a terra. Os urupês do Jeca se tornam as Orelhas de Pau do saci, que mesmo após a morte permanecem vivas e em harmonia.

2) Iara era a melhor guerreira da tribo

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Iara em ensaio fotográfico de Fernando Sette Câmara

Aquele que deseja levar o folclore a sério deve ter sempre um olhar de dúvida para a ausência de elementos que ancorem um relato sem fontes. Todo texto que começa com “Diz uma lenda dos índios do Amazonas” já me deixa de orelha em pé. Que indígenas são esses? De que etnia? Uma generalidade dessas abre espaço para muitas inquietações.

E é com base nessas generalidades que um texto passou a circular muito nas redes sociais, servindo até mesmo como questão de concurso público. A história é a seguinte:

“Diz a lenda que Iara era a melhor guerreira da tribo.Os irmãos de Iara tinham muita inveja, resolveram matá-la à noite enquanto dormia. Iara que possuía um ouvido bastante aguçado, os escutou e os matou. Com medo da reação de seu pai, Iara fugiu. Seu pai, o pajé da tribo, realizou uma busca implacável e conseguiu encontrá-la, como punição pelas mortes a jogou no encontro dos Rios Negro e Solimões, alguns peixes levaram a moça até a superfície e a transformaram em uma linda sereia”.

Existem vários elementos que explicam o sucesso desse texto. O principal deles é que se encaixa perfeitamente em nossa busca por histórias de mulheres fortes e empoderadas, trazendo inclusive uma mensagem sobre as terríveis consequências de uma inveja misógina. Encarada como ficção, é uma ótima história. Entretanto, no âmbito das ficções coletivas, da crença popular, ela não procede.

A citação mais antiga de uma história que lembra essa da Iara guerreira é deste blog, de 2001. Conta que Iara era um homem munduruku chamado Miryan, que amaldiçoado por Tupã ao matar os irmãos, vira a Iara. O blog, novamente, não traz fonte. Tendo em vista tudo o que se foi visto sobre Iaras, parece ser mais uma ficção.

Nos estudos do imaginário, uma das coisas mais importantes ao fazer com que um mito se revele é descobrir seu nome. Isto porque, muitas vezes, o nome está dissimulado.  Aqui, por trás do nome “iara”, encontramos muito mais um mito das Icamiabas do que qualquer outra coisa.

Iara nunca foi mito indígena. O que havia no Brasil pré-colombiano era o Ipupiara (aquele que vive na água, em tupi) – terrível criatura que atacava os homens, matava-os em abraços constritores e devorava olhos, dedos e genitália. De criatura feminina, havia a Mãe D’água, representada como uma serpente – em homologia com as águas do próprio rio. Iara é, portanto, um mito colonial que surge nas comunidades ribeirinhas a partir de uma mistura da crença do caboclo com o imaginário das sereias europeias. Sem qualquer história de origem.

Saiba mais sobre o mito da iara no Popularium #3 – O Rosto da Iara.

1) O Boto usa chapéu para disfarçar seu nariz

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Boto homem, por Mikael Quites

Fiquei surpreso com a quantidade de pessoas que interpretam – e repetem – erroneamente uma informação tão básica. O folclore diz que o boto cor-de-rosa, nas noites em que assume a forma humana, sofre de uma transformação incompleta. Mantém algo que, mesmo no universo da cultura, não apaga sua verdadeira natureza: o seu respirador. Justamente por isso ele nunca tira o chapéu, para evitar ser descoberto.

O respirador em questão é o chamado “espiráculo”, o buraco no topo da cabeça que todos os cetáceos possuem. No entanto,  quando vão falar desse mito, diversos sites – para não falar canais do Youtube – dizem que o boto homem não dispensa o adereço para disfarçar seu nariz grande, de boto.

Não existe lógica interna que explique como uma chapéu pode disfarçar um “nariz gigante”, o que por si só não faria sentido. Mais do que isso, entretanto, está a simbólica que existe para além do órgão indicado.

Nos estudos do Imaginário não se busca analogias, mas homologias – isto é, as relações de semelhança imagética que fazem com que símbolos constelem ao redor de um mito. O boto, enquanto mito de sedução, o é por vários motivos. Um deles é a relação de homologia que existe entre o espiráculo em sua cabeça e a glande do pênis.

Câmara Cascudo já apontava essa relação que se mostrava desde a Grécia antiga, quando os golfinhos eram animais consagrados à Afrodite – a deusa do Amor que nasceu do esperma de Urano. Jesus Paes Loureiro, estudioso do imaginário amazonense, aponta também o próprio movimento de natação dos botos ao acompanhar os barcos; subindo e descendo, como na rítmica sexual.

São elementos como esse que dão sentido ao mito para além de uma mera história de ficção. São cultura viva, rastros ancestrais de um imaginário pulsante. Quer saber mais? Escute o Popularium #1 – Os Filhos do Boto.

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5 Respostas para “Os 7 erros mais frequentes sobre o folclore brasileiro

  1. Essa dá bala de prata é perigoso, imagina você atacar um lobisomem com a prata quando a fraqueza dele é outra kk.
    Tá falando sério agora, é só curiosidades mais vamos lá:
    1) A Salamanca aparece em um dos livros dos monstros do RPG do Pathfinder (um tipo D&D), só não lembro qual (eles têm uns cinco), mas acho que é a versão de algum outro país da América do Sul.
    2) Acho que veio de alguma Dragão Brasil (revista de RPG) esse negócio de lobisomens que viram lobo guarás.
    3) Acho que essa do Boto é algum erro de comunicação que ficou por aí. Porque quando as pessoas ouvem respiradouro, pensa em nariz, já que poucas pessoas conhecem o bicho boto e que ele é um parente dos golfinhos. Lembro que vi essa versão do nariz em um calendário do folclore brasileiro, feito por uma empresa japonesa para dar aos funcionários, como brinde de final de ano.

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    • Opa, que bacana essa do Pathfinder! Sei que tem Salamanca no Uruguai. Vou conferir.

      Eu tinha essa dragão com adaptação pra lobisomens guará. Mas acho que a ideia bombou mesmo com Guerreiros Folclóricos, em 2015. De la pra cá só tem ilustra de lobisomens guará nas redes.

      O boto com certeza é má interpretação. E pior, isso vai se espalhando até chegar no institucional. Triste

      Curtido por 1 pessoa

      • Tá como Carbuncle, está no Bestiary 3. Acho que tem uma Cégua (uma mulher com cara de cavalo morto) também mais não lembro como foi traduzido o nome, mais acho que está nesse manual também.

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  2. Pingback: Jarau – Conheça a animação inspirada na lenda da Salamanca do cerro | Colecionador de Sacis·

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