[Clipping] A decepção política de um fidalgo do sertão

Passado integralista do pesquisador provocou desprezo da intelectualidade

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Publicado na Folha de S. Paulo
Em 27/12/1998

Tal como ocorre em Gilberto Freyre, o seu duplo na sociologia, não há conflitos nem luta de classes na obra de Luís da Câmara Cascudo. O seu pendor aristocrático talvez seja a melhor explicação para essa ausência. Em “A História da Alimentação no Brasil”, ele entrega de bandeja sua visão política do Brasil: “O fidalgo plantador de canaviais no Brasil não era o nobre inescrupuloso, sem remorsos e sem memória, que ia para as Índias. No Brasil, era um plantador. Na Índia, um saqueador violento”.

Monarquista, católico a ponto de andar com um rosário no bolso, onde carregava também um patuá, Câmara Cascudo via fidalguia até nos senhores de escravo. Coisas como essa provocariam o boicote da esquerda a sua obra.

Esse viés aristocrático explicaria a sua ligação com os integralistas e o seu interesse pelas “coisas vulgares”, como dizia. Só aristocratas podiam dar-se a esse luxo nos anos 30; a classe média letrada vivia com a cabeça na França.
A participação de Câmara Cascudo no movimento integralista não é marginal. Ele tornou-se líder dos integralistas no Rio Grande do Norte em 1932, como revela uma carta encontrada pela Folha no memorial do escritor. Em junho desse ano, Arlindo Veiga de Paula, um integralista de São Paulo, escreve-lhe: “Queria convidar o amigo para chefe provincial patrianovista dessa província”. Faz também um cumprimento: “Parabéns pelo que tem feito na defesa dos idos Impérios”.

Como líder integralista, Câmara Cascudo desfilava de camisa verde em Natal, escreve para as revistas “Anauê” e para o jornal “A Ofensiva”. Não era só o traço autoritário e ordenador do movimento que encantava-o, segundo Claudio Emerenciano, professor de ciências políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “Nesses textos, ele defende a erradicação do analfabetismo e ataca o centralismo da Revolução de 1930”, diz.

Segundo o pesquisador Vicente Serejo, a ligação de Câmara Cascudo com os integralistas era mais cultural. Tanto que ele publica a tradução que fez de “Os Canibais”, de Montaigne, nos “Cadernos da Hora Presente”, publicação dirigida por Gustavo Barroso, o mentor intelectual do integralismo e amigo do etnólogo.
Em 1938, ele experimentou o auge de sua passagem pelo integralismo. Recebeu uma comenda de Mussolini, o ditador italiano, por conta do livro “Em Memória de Stradeli”, sobre o viajante italiano que passou pelo rio Amazonas no século 19. Em 1942, quando submarinos italianos torpedearam navios mercantes brasileiros, ele devolveu a comenda, segundo o filho. “Não uso medalhas de quem mata brasileiros”, teria sido sua justificativa.

No mesmo 1938, ele se desligou do movimento integralista, quando este tenta derrubar Getúlio Vargas, conta o filho. “Eu vi papai queimando as camisas verdes, as insígnias e os livros integralistas. Eu tinha 7, 8 anos, mas não esqueço dessa cena. Ele dizia: “Sou um desiludido’. E nunca mais se ligou à política.”

A desilusão política e o puxão de orelhas de Mário de Andrade, aconselhando-o a descer da rede e estudar a cultura que passava debaixo de seu nariz, pariram o etnólogo. Não que Câmara Cascudo não se interessasse antes pelo folclore e pelo dia-a-dia do sertanejo. Em 1934, por exemplo, ele publicou um relato sobre suas andanças pelo interior do Rio Grande do Norte, batizado “Viajando o Sertão”.
Não há nesse livro, porém, o veio que consagraria Câmara Cascudo -a ligação do homem comum brasileiro com o mais elevado cânone ocidental. Estudos sobre folclore já havia aos montes no Brasil, uma tradição que remonta a Sílvio Romero (1851-1914). A novidade em Câmara Cascudo é a visão enobrecedora do negro analfabeto, do pescador miserável -uma herança de seus modos aristocráticos.
Parece haver nessa visão uma clara influência do romantismo alemão, que ele absorveu durante os anos em que estudou em Recife, onde Tobias Barreto havia deixado um séquito de germanófilos. Uma frase de Câmara Cascudo resume essa filiação: “Goethe é a chave”, dizia, referindo-se ao poeta e filósofo alemão, de quem traduziu alguns poemas.

Câmara Cascudo convoca toda a tradição ocidental, e às vezes a oriental, para estudar o folclore brasileiro. Homero, Heródoto, Quintiliano, Terêncio, Plauto, Dante, Shakespeare, Montaigne, Goethe -é esse universo que ele vai cotejar com os costumes mais banais.

Dos autores modernos, lê Freud, os ensaios antropológicos de Malinowski, do etnólogo norte-americano Stith Thompson, mas sem muito entusiasmo. Sua cachaça eram os clássicos: “O vício da literatura greco-latina vacinou-me contra as ditaduras mentais contemporâneas”, escreveu.

Se ficasse só no fascínio pelos clássicos, Câmara Cascudo seria mais um ventríloquo da província. Mas ele fugiu dessa camisa-de-força ao mergulhar no que era “negado pelo letrado, esquecido pelo professor, ironizado pelo viajante”, como escreveu na introdução de “Cinco Livros do Povo” (1953).
Nessa operação, Câmara Cascudo revelou um mundo novo: estudou as histórias contadas pelas amas-de-leite, a jangada e os jangadeiros, a rede de dormir, os jogos infantis, a cachaça, a morte, os romances trágicos do sertão, os ditos populares, as origens da alimentação brasileira.

Suas fontes são a sua própria experiência, pessoas comuns como os pescadores mestre Filó e Pedro Perna Santa, as pesquisas de campo, os livros que importava da Europa, a Biblioteca Nacional do Rio, a Torre do Tombo em Lisboa e professores de universidades estrangeiras. Sua experiência nunca é escamoteada: “Todos os anos vividos no sertão do Rio Grande do Norte foram cursos naturais de literatura oral”, escreveu no prefácio de “Literatura Oral” (1952).
Quando a experiência e os livros não são suficientes, ele buscava as informações por carta. Só para escrever o livro sobre o viajante italiano Stradeli, Câmara Cascudo diz ter escrito 80 cartas. A carta era a sua Internet.

Talvez seja a herança aristocrática que tenha levado Câmara Cascudo a se interessar não por revoluções, mas pela história da normalidade, em que os conflitos ficam camuflados. “O que me interessa é a vida do povo na sua normalidade. Dedico-me a descobrir as permanências na vida brasileira”, escreveu na coluna de jornal “Acta Diurna”, que manteve por cerca de 30 anos.
Em vida, Câmara Cascudo conheceu o sucesso, foi convidado para dar aulas até na Sorbonne, mas também foi criticado pelos acadêmicos.

Câmara Cascudo incomodava pelo pouco apego ao rigor acadêmico, pelo texto leve e delicioso e pela falta de cerimônias em decretar verdades onde seria mais prudente cultuar a dúvida. “Entre os pescadores há o menor índice de suicídio”, escreve em “Jangada” (1957), sem citar uma mísera fonte nem explicar por quê.
Nos anos 40, o etnólogo alemão Herbert Baldus, que veio dar aulas na USP e seria o orientador de Darcy Ribeiro, triturou “Informação de História e Etnografia” (1940), de Câmara Cascudo. Segundo Baldus, os estudos “tratam dos índios do Brasil, mas de maneira tão pouco satisfatória que não merecem ser lidos pelo estudioso de etnologia”. Sobre “Geografia dos Mitos Brasileiros” (1947), o etnólogo alemão reconheceu que é “uma mina de dados folclóricos”, mas ataca “inexatidões e generalizações injustificadas”.

Mário de Andrade criticaria a mania universalizante de Cascudo, em texto que foi reunido em “O Empalhador de Passarinhos”. Segundo Mário, o etnólogo “se prende com demasiado escrúpulo a essa tendência perigosa de tudo ligar, através das geografias e das raças, esquecido de que, mais do que os movimentos migratórios, são a psicologia individual e as exigências sociais que tornam o homem muito parecido consigo mesmo, seja ele pastor grego ou pastor do sertão nordestino”.
O passado integralista, o provincianismo e o desprezo pela liturgia acadêmica ajudaram a jogar Cascudo no limbo.

Pouco importa que ele tenha criticado abertamente os militares nos anos 70, como lembra seu secretário, Diógenes de Cunha Lima. Numa cerimônia em Natal, com generais, almirantes e ministros, Câmara Cascudo teria dito em público, segundo anotação de Cunha Lima: “Não gosto dessas rearrumações que vocês fazem no país. Toda vez que vocês fazem isso três amigos vão para o poder e três amigos vão para a cadeia”.

A imagem de direitista obscureceu a mina de histórias e o enciclopedista do sertão.

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