Revelando o Brasil de Hilda

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Hilda Maria e sua família assistem Enterro

Por Andriolli Costa
Publicado em 2011
Revista Poranduba

Não foi preciso muito. Naqueles poucos minutos de conversa antes das luzes se desligarem e o telão anunciar seu nome como diretora, Hilda Maria dos Santos deixou claro aquilo que no filme fica ainda mais evidente: o que movimenta sua vida, seja na tela grande ou no mundo real,  é o medo – e o modo como lida com ele.

O medo do qual ela fala não é aquele pavor quase que primitivo. Não é sobre medo do escuro, medo de assombração e nem mesmo o de abrir a janela de casa e ver uma tocha de fogo no meio do campo – como propõe a sinopse de seu curta-metragem recém-finalizado, “Enterro”, financiado pelo programa de incentivo cultural Revelando os Brasis.

O que ela sentiu foi o medo concreto e consciente de quem, aos 18 anos e moradora da zona rural, chegava a ficar um mês inteiro sozinha em casa com criança pequena para cuidar e sem ter a quem pedir ajuda. Medo de quem se sente perdido e não sabe o que fazer.

“Meu marido saia pra levar o gado e ficava semanas sem aparecer. E foi nesse tempo que eu abri a janela e vi aquele fogo vindo lá do campo”, relembra Hilda, que usou dessas memórias para criar a história de Enterro. A cena se repetiu mais duas ou três vezes ao longo de seus 63 anos de vida, mas ela nunca perseguiu o chamado. Nem mesmo quando lhe contaram que o fogo indicava ouro. “Diziam que quanto maior a tocha, maior o enterro, e que ele tava guardado pra mim. Mas eu nunca dei conversa pra essas coisas”, simplifica.

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Enfrentamento

Mineira criada em São Paulo e radicada em Mato Grosso do Sul, Hilda já fez de tudo na vida. Foi manicure, cabelereira, costureira e até professora de escola pública – aos poucos, deixando para trás aquela imagem de moça solitária de quando via os enterros. Exatamente por isso, quando o marido decidiu voltar para o campo e ir morar num assentamento na região de Terenos/MS, ela temeu. “Pensei que ia ficar a vida toda cuidando de casa, esquentando comida. Justo eu que não conseguia ficar parada!”.

Depois de muito pensar, Hilda bateu o pé e não foi. Preferiu ficar na capital, Campo Grande. A decisão, no entanto, não durou muito tempo. “Eu não conseguia dormir, ficava nervosa. Fiquei com medo de entrar em depressão e fui de volta pra Terenos”.

O espírito inquieto, entretanto, não a deixou ficar parada. Hilda começou a participar de cursos de artesanato e extensão rural por todo o estado. Foi assim que acabou conhecendo o produtor Carlos Sandim, ex-participante do Revelando os Brasis, que a incentivou a enviar sua inscrição para nova edição do projeto. Deu certo. Hilda estava vendendo queijo na rua quando enfim recebeu a ligação de que seria a diretora de seu próprio curta.

Quase no final do filme, a personagem de Hilda – interpretada por sua cunhada – finalmente decide ir atrás do tesouro. “Eu vou! Vou com medo, mas eu vou!”. Na vida real, ela também enfrentou seus medos e foi batalhar. Trabalhou, estudou e foi trilhando sua estrada. Enquanto no filme, de maneira quase ingênua, a vida da personagem muda da água para o vinho graças ao ouro escondido – com direito à roupa nova para a família, casa reformada e festa para a comunidade – a Hilda do mundo real continua atrás de sua recompensa. No entanto, trabalha dia a dia para construir seu caminho, e não simplesmente senta em frente a janela a espera de alguma tocha de fogo.

Enterro

Histórias sobre tesouros enterrados percorrem o imaginário coletivo do mundo inteiro. Mesmo no Brasil, existem diversas versões para a lenda. As versões citam histórias de fantasmas de fazendeiros que morreram apegados as riquezas materiais, capatazes que partiram para o outro mundo com a missão de proteger o segredo do tesouro ou mesmo entidades como a mãe-do-ouro, um ser sobrenatural que aparece em sonhos para um escolhido, indicando com uma luz o local do ouro escondido.

Em Mato Grosso do Sul a versão mais comum da lenda diz respeito ao período da Guerra do Paraguai. Mesmo nesse caso, existem várias histórias diferentes. Dizem, por exemplo que o General Solano Lopez – comandante das tropas paraguaias – temendo pelas riquezas de seu país, enterrou o grande tesouro nacional em uma série de locais ao redor da fronteira desde o Brasil até a Argentina. Outra versão diz que os próprios paraguaios escondiam seus pertences mais valiosos em grandes panelas de cobre ou barro, e as enterravam em lugares estratégicos antes de partir para servir ao exército.

O Enterro de Hilda nada tem a ver com o Paraguai. Terenos não fica nem perto da fronteira com o país vizinho. Ainda assim, ecos dessas histórias se refletem em diversos lugares diferentes, sempre com as mesmas orientações. Se o enterro está reservado para uma pessoa específica, ninguém mais que o procurar irá encontrá-lo. Mais do que isso, caso a pessoa a quem o ouro está destinado não vá sozinha campear enterro, tudo que encontrará será barro ou carvão ressecado.

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Revelando os Brasis

O projeto que permitiu que Hilda fizesse seu filme se chama Revelando os Brasis, uma iniciativa do Instituto Marlin Azul, do Espírito Santo, em parceria com a Petrobrás e apoio do Canal Futura. O edital de formação audiovisual é voltado para brasileiros que moram em cidades com menos de 20 mil habitantes, mesmo que nunca tenham tido qualquer contato com a produção de filmes.

“Eu choro porque na minha cidade não tem nem sala para passar filmes”, relata em vídeo uma das participantes. “E hoje eu estou aqui… fazendo cinema”. Assim como ela, um total de 40 participantes foram selecionados para esta que é a quarta edição do programa. Todos os participantes são levados para o Rio de Janeiro, onde recebem cursos que vão da produção e roteiro até a captação e finalização do filme. O projeto contrata uma produtora, que ajuda na elaboração do curta-metragem, que deve mobilizar a comunidade local.

Cada ano do projeto demora, na verdade, dois para ser finalizado. No primeiro são as aulas, os cursos e a produção. No segundo são os circuitos de exibição por todo o Brasil, finalizados em um box com todos os filmes em DVD. Nesta edição, a previsão é percorrer 30 mil km em 56 sessões de cinema por cada um dos estados produtores.

Carlos Sandim, o produtor do filme de Hilda, foi participante da edição passada de Revelando os Brasis. Gostou tanto que abriu uma produtora. Assim como ele, diversos outros participantes se empolgam tanto com o audiovisual que seguem o mesmo caminho. Hilda, por exemplo, pretende gravar as artesãs de seu assentamento trabalhando. “Eu já fiz esse pensando em fazer depois com elas”, anima-se.

Assista ao curta Enterro:

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