[Entrevista] Marlei Sigrist – “Se é modismo, não é folclore”

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Coisa Ruim 2009 / Revista Poranduba, 2010

Marlei Sigrist é professora do departamento de Artes da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Fundadora do grupo de dança folclórica Sarandi Pantaneiro e pesquisadora da cultura popular regional, ela integra o elenco de estudiosos da chamada Folkcomunicação. Essa linha de pesquisa, inaugurada por Luiz Beltrão em 1967, compreende o folclore como um eficiente formato comunicacional para a difusão de valores na comunidade. Sigrist, tem uma visão bastante progressista sobre o folclore. Para ela o surgimento das novas mídias, como a internet, não representam um perigo para a cultura popular. Pelo contrário; o fato folclórico, ao se adaptar para a linguagem do espaço emergente, se transformaria em algo totalmente novo, fazendo com que a tradição continuasse se perpetuando. Nessa entrevista, a professora aborda as lendas urbanas; a representatividade do homem e dos monstros; o surgimento dos heróis; a transformação do folclore contemporâneo e até ufologia.

Poranduba – O que é um mito? E uma lenda?
Marlei – O mito é um personagem. É a figura central que vai gerar as narrativas, as lendas. No entanto, existem lendas que não possuem um mito por trás. A cultura indígena trabalha muito a questão da origem das coisas. A origem da mandioca, a origem do guaraná… A mandioca não é um mito, no entanto possui uma lenda por trás dela.

Com a globalização e a facilidade de comunicação entre as comunidades, os mitos vão se espalhando. É interessante notar que o mito não se mantém igual quando muda de região. Suas características vão se transformando de acordo com as especificidades locais: Variações climáticas, tipo de terreno, bagagens culturais…

O Pé-de-Garrafa, um dos mais conhecidos de Mato Grosso do Sul para mim é só uma variante do lobisomem. Pense bem: Ele se apresenta como um homem-fera, peludo e que come pessoas. Essas são características do lobisomem! Nesse caso, o lobisomem é um mito fundador, que vai se desdobrando em outros bichos, criando um número incontável de criaturas.

Poranduba – O que explica a presença dessas criaturas sobrenaturais em todo o mundo?
Marlei- O mito existe para impor limites, como um legislador. Sua presença sempre traz benefícios e penalidades. Ele pode te presentear, te oferecer poderes e riquezas. Mas ele também pode impor um castigo quando se ousa ultrapassar os limites estabelecidos por ele. Você pode ser devorado, pode se perder na mata, ser levado pelo homem do saco…

Poranduba -Esses monstros tem sempre uma característica especial. Sempre há um jeito de derrotá-los…
Marlei – Olha, o Pé-de-Garrafa, por exemplo, é uma criatura que é imune a qualquer tipo de arma. O único jeito de matá-lo é acertando uma facada ou um tiro no seu umbigo, que é o único ponto descoberto de pelagem. O ponto fraco existe por que as criaturas não podem ter o poder total de Deus. Elas não podem ser invencíveis. Na verdade, elas são vistas mais como semideuses. Como Aquiles e seu calcanhar. Os monstros têm características sobre-humanas, mas também um ponto fraco.

Esse ponto fraco traz consigo uma ideia de enfrentamento. No inconsciente, ele vai funcionar criando um desafio para que o homem ultrapasse suas barreiras. Os monstros refletem os sonhos da humanidade, possuem aquilo que o homem não consegue ter. Eles tem asas, eles se teleportam, eles são resistentes a quase tudo. O ponto fraco gera o simbolismo de superação, da manifestação do herói.

Poranduba – É possível concluir que o mito folclórico é instituído de forma que todo ser humano possa ter a capacidade de se tornar um herói?
Marlei – Nem todos. Apenas aqueles que possuam inteligência. Que conheçam os mitos e suas fraquezas.

Poranduba -E quando um mito deixa de fazer sentido devido às modificações na realidade, como a urbanização de uma cidade interiorana. O que acontece?
Marlei – Eu costumo enxergar o folclore como uma grande teia de histórias. Quando um elemento não se encaixa mais, deixa um buraco na teia. Mas esse buraco não fica muito tempo vazio; logo a aranha vem e o reconstrói. Quando um mito deixa de ser relevante, ele é substituído por outro, por algo como uma lenda urbana, que se adequa mais a realidade atual de uma comunidade. E se você for ver, nenhum mito é destruído, ele sempre se reconfigura, se recria, e reaparecer na teia com outras características, como um novo personagem.

Poranduba -As lendas urbanas podem ser consideradas folclóricas?
Marlei – Sem dúvidas! Se está na boca do povo é folclore. Ou melhor, se dura, é folclore. Se é esquecido logo, é modismo. O homem do saco de antes simplesmente te levava no saco, e o medo era de ficar asfixiado. O que acontecia, ninguém sabia. Hoje, o medo é que ele te leve e arranque seus órgãos. Esse medo novo surge conforme a tecnologia se desenvolve. Antes, não existiam transplantes. Essas coisas todas vão surgindo com a modernização.

Antigamente, existiam as rezadeiras que iam de casa em casa fazendo a romaria. Isso não existe mais! Hoje se encontram na internet sites com altares virtuais. Você escolhe uma vela, escreve a sua prece, e ela vai diminuindo sozinha durante sete dias! O folclore é dinâmico, e se estende às novas tecnologias.

Poranduba -O Chupa-Cabras, por exemplo, é considerado folclórico. Mas muitas pessoas acreditam que ele seja na verdade um extraterrestre. Até que ponto o mito folclórico e a crença em vidas de outro planeta não se misturam no imaginário coletivo?
Marlei – Veja bem, as lendas urbanas podem ser consideradas folclóricas. Já a ufologia não, ela é uma ciência. Enquanto o folclore é uma manifestação cultural, e os mitos são formas de representação de uma sociedade, existem pesquisas que buscam a comprovação da existência de extraterrestres.

Na verdade, um grande amigo meu, que infelizmente já faleceu, Paulo de Carvalho de Neto tinha uma teoria interessante. Ele dizia que o dia que fosse comprovada a existência de vida extraterrestre, cairiam todos os monstros da mitologia. Um explorador que avistasse uma criatura monstruosa e peluda, que para ele se parecia com um lobo, acabaria relatando que encontrou um lobisomem. O que impediria essa criatura de ser na verdade uma entidade de outro planeta?

Poranduba -Você acredita nessas criaturas fantásticas?
Marlei – Para algumas pessoas, os monstros existem sem sombra de dúvidas. Outras não acreditam muito, mas também não duvidam… Para mim, eles não são nada. São objetos de estudo.

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