Jarau – Conheça a animação inspirada na lenda da Salamanca do cerro

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Por Andriolli Costa

A Salamanca do Jarau é uma das mais famosas lendas do Rio Grande do Sul, perdendo apenas talvez para a do Negrinho do Pastoreio. Assim, fiquei bastante curioso quando descobri que havia uma animação brasileira inteiramente inspirada no história da princesa encantada.

Jarau contou com apenas uma temporada de 12 episódios, produzidos pelo Valu Animation Studios em 2010 e exibidos pela TV Cenário. Mais tarde, em 2014, estreou na TV Brasil onde foi exibida até dezembro de 2016. De acordo com o diretor e responsável por quase tudo na série, Valu Vasconcelos, a animação foi líder de audiência no horário.

Entre os pontos positivos o próprio diretor destaca a liberdade que teve para tratar de vários temas, como o bullying e até mesmo a morte. Logo no primeiro episódio um personagem fica paralítico, e revolta-se com isso. Há uma proposta inclusiva, além de uma certa boa vontade em tratar de mitos pouco conhecidos – embora com pouca correspondência à fonte folclórica. Como iniciativa independente e inicial, vale a experiência.

Problemas técnicos

A série entretanto tem graves problemas, tanto de roteiro quanto os mais técnicos. A mixagem de som é terrível, e em vários momentos os efeitos eram tão mais altos do que o resto que chegava a doer os ouvidos. A música – sem inspiração e genérica – subia tão alto que não dava para entender o que os personagens diziam. As vozes da dublagem são bem escaladas, mas de nada adianta tentar alguma sincronia labial quando a animação é tão precária que todo o resto não acompanha.

Certamente a qualidade foi uma contingência do tempo, afinal no próprio canal do estúdio podemos acompanhar os projetos mais recentes que são anos luz mais refinados em questão de fluidez. De qualquer modo, é um ponto que não deve ser negligenciado numa crítica: fosse Jarau totalmente 2D, como na introdução da história, seria muito menos agressiva ao olhar.

A tentativa de 3D é de torcer o nariz, especialmente nas texturas do cenário e nos movimentos. Há uma intenção ali, mas o incômodo que deixa mais atrapalha do que ajuda. O som desconectado com o movimento, o movimento sem fluidez, os efeitos estourando nos ouvidos… Complicado.

O clima de confusão generalizado é causado de cara pela abertura da animação. O grito prolongado de “Jarau” acaba ficando tão marcando pois, em verdade, é a única coisa que dá para entender da música tema da série. Por sorte, alguns episódios para frente, o trecho passa a acompanhar legendas. Do contrário, seria impossível fazer mais do que pescar palavras.

Roteiro

Na sinopse, há uma certa coerência interna no texto da série: um grupo de jovens, enganados por um cruel pesquisador, acabam libertando a cruel feiticeira “Tâniaguá”, que havia sido presa por deuses Guarani. No processo, acabam partindo a sua pedra do poder, cujos fragmentos se encarnam no peito de cada personagem – fornecendo poderes que usarão para deter os avanços da adversária.

No entanto, a clareza da sinopse nunca aparece em nenhum dos episódios. Há garotos que ganham o poder da Teiniguá sem nunca ter estado perto do cerro do Jarau. O próprio cerro, na verdade, parece estar no quintal dos meninos, já que eles chegam lá andando a partir da cidade. Relações de amizade se formam do nada, explicações sobre os poderes são dadas fora da tela…

Em vários momentos me peguei tentando adivinhar o que estava acontecendo, porque as ações vão simplesmente acontecendo sem qualquer motivo. Era como se, entre uma cena e outra, os personagens conversassem coisas importantes para o andamento da trama mas que foram simplesmente limadas. Não por acaso, olhando os comentários do Youtube, há tantas tentativas de compreender as atitudes dos personagens.

Confusão

A bagunça é perfeitamente pautado pelo primeiro episódio, com uma introdução verborrágica sobre a origem da vilã da série. Tive o trabalho de transcrever para poder entender o que havia sido dito. Jarau então começa assim:

O florescer do século XVIII. A princesa moura aprisionada no corpo de uma salamandra de fogo percorre a floresta nas terras do Jarau, deixando seu rastro de morte. Seus mistérios e sua maldição se libertam diante do desejo de prazer, e sobre os místicos atabaques Guaranis a deusa feiticeira se mostra mulher: TÂNIAGUÁ dança no arder da mata que padece sobre seus pés de fogo. E o manto de ébano da noite cai pelas mãos da dama da noite, e toda a ira do séquito desce sobre a princesa amaldiçoando o poder das matas. Karaí o deus do fogo e Jakaíra com a força dos ventos juntos selam o terrível destino da feiticeira Tâniaguá. Com ela seus poderes de morte e destruição estarão para sempre anulados dentro da grande joia em seu túmulo de pedra nos confins da caverna da salamanca.

Podemos relevar a mudança de nome do mito, a Teiniguá que vira “Dona Tânia”. Podemos relevar atabaques africanos sendo usados como sinônimo de tambores indígenas. Dá para ignorar o fato de que o Rio Grande do Sul, onde fica o Cerro do Jarau, nunca aparece na história. É possível até mesmo relevar essa relação entre Salamanca e Salamandra, que já apontei como um dos erros básicos na interpretação do folclore brasileiro. O que não dá para relevar são os personagens inexplicáveis, as resoluções genéricas, a trama atrapalhada.

Assista abaixo os 10 primeiros episódios de Jarau.

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Jakaíra, Tupã e Karaí, os “Açus”

Episódio 1 – A Caverna da Salamanca

O “destino” faz com que Perruge, seu irmão Rudá e o jovem Ducho encontrem a caverna da Salamanca.

Episódio 2 – A Primeira Pedra do Poder

Ducho, que sempre foi um atleta de Le Parcour, não consegue admitir a perda dos movimentos de suas pernas, causado pelo acidente da caverna da Salamanca.

Episódio 3 – Cara de Pau

Guiga, um estudante que sofre bullying do valentão Muke em sua escola, descobre seus poderes.

Episódio 4 – A Pílula da Criatividade

Rudá, tenta fazer um de seus truques de mágica, que mais uma vez não dá certo e ele é ridicularizado pelo publico. Triste e revoltado com o fracasso, Rudá acaba conhecendo um “mágico estrangeiro” que lhe oferece a pílula da criatividade.

Episódio 5 – Princezinha do Mar

Manão, um jovem e talentoso surfista, sofre um terrível acidente e acaba se afogando. Curiosamente ele descobre que tem muito mais afinidades com os peixes do que ele imagina.

Episódio 6 – Zpods

Solano, mais uma vez disfarçado de promotor de um concurso, presenteia os heróis com tocadores de Mp3. O que eles não sabem, é que dentro das músicas existe uma magia da feiticeira Taniaguá, que os farão dançar conforme à música.

Episódio 7 – Projeto de ciências

Guiga tem seu projeto de botânica roubado pelo valentão Muke, e vai tentar recupera-lo à todo custo. O que ele não sabe, é que Solano alimentou a planta com uma poção mágica na feiticeira Taniaguá

Episódio 8 – O Encontro com os Deuses Guarani

Solano rouba a formula do ouro da feiticeira Taniaguá, e ao tentar reproduzi-la, terá uma surpresa bombástica.

Episódio 9 – Canção da Almina

Perruge é aprisionada em um feitiço de Taniaguá, mas vai acabar descobrindo como tudo começou, lá no início do século XIV.

Episódio 10 – O Centauro

Após descobrirem que os poderes que possuem, na verdade são maldições, os jovens herois tentarão devolvê-los, mas Ducho, que ainda não consegue andar, se recusa e parte para sua cruzada.

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