Bonecas Abayomi não foram criadas nos navios negreiros

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Por Andriolli Costa

As Abayomi são bonecas de pano feitas sem costura ou cola, apenas nós e amarrações. A peça se tornou tão conhecida que cravou seu espaço na cultura popular brasileira. Volta e meia aparece uma oficina ensinando a fazer abayomi, uma escola que ensinou os alunos a técnica de amarração e até mesmo versões que rompem com a estética tradicional, colando olhinhos e adereços ao corpo da boneca.

Aquele que procura a origem da peça na internet não tardará a encontrar a seguinte versão como a mais repetida: a de que as Abayomi foram criadas por mães africanas que, para acalmar as crianças no navio negreiro, arrancavam tecido de suas saias para dar forma ao brinquedo. Há ainda outra versão, na qual a boneca era dada para que a criança ainda sentisse o cheiro da mãe quando tirada de seu seio para que a mulher servisse de ama de leite. Ambas remetendo à ancestralidade e ao período colonial. Quem espalha essa versão diz que o nome significa “encontro precioso”

Nenhuma dessas é verdadeira. As bonecas Abayomi são uma criação contemporânea de uma artesã brasileira, Lena Martins. As versões que circulam na web são muito bonitas e inspiradoras, mas não tem qualquer suporte histórico e ainda negam a autoria de uma artesã ainda viva.

Lena, que é maranhense, criou a boneca em 1987. O nome veio de uma amiga, integrante dos movimentos negros, que estando grávida disse que batizaria a criança, se fosse mulher, de Abayomi – significando “meu presente”, ou em outras versões, “aquele/a que me traz alegria”.

Em uma entrevista ao programa “Cultne na Tv”, Lena lamenta a invenção que lhe tirou a autoria da boneca. Disse que mais de uma vez ouviu de pessoas, inclusive do movimentos sociais, dizendo que preferiam a outra versão por ser mais romantizada, embora inverídica.

Sei que a verdade é menos encantadora, mas nessa triste época da desinformação que vivemos acho importante deixar tudo às claras para não falsear nossa própria cultura e história.

Fontes:

Leia também:
Abayomi de Saci

Abayomi de saci pererê, feito por Lena Martins. Museu do Folclore Edison Carneiro.

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3 Respostas para “Bonecas Abayomi não foram criadas nos navios negreiros

  1. Pingback: PORANDUBA 26 – Folclore e Fake News | Colecionador de Sacis·

  2. SRS, agradeço pela reportagem, que é uma compilação do podcast do programa Poranduba. Gostaria de compartilhar o texto, porém, considero interessante o que a Lena Martins diz a respeito do que ela sentia e reelaborou em seu pensamento sobre o impacto da boneca e a necessidade de se criar mitos em torno dela. Importante conhecermos nossa história e as narrativas que dela se constroem, penso que o mito tem esta função de traduzir o sentimento e a necessidade de um povo. Vejo que nas Abayomis, esta urgência de superação converteu um simples artesanato em uma nova construção de sentido para o povo negro brasileiro.
    Agradeço muito pelo trabalho in(formativo), pois eu mesma era uma das pessoas que conhecia a versão lendária , contei muitas vezes e vejo na fala da Lena uma resignificação de imenso valor em nossas construções narrativas e histórias brasileiras.

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    • Boa noite, Bintah! Na verdade esse post eu havia feito antes no Facebook e a partir dele que levei a discussão para o podcast, por isso no programa a discussão está um pouco mais completa. Gosto desse trecho que você menciona sobre a formação desses novos mitos para preencher a necessidade de narrativas de encantamento e resistência, mas mais por ser o jeito que a Lena encontrou de tentar ficar em paz. Mas nos trechos anteriores você percebe que realmente ela se frustra muito com essa preferência pela versão fictícia por ser mais romantizada. Eu particularmente interpreto essa versão falsa como sintomática; uma manifestação da necessidade de histórias assim. Mas sou contra sua divulgação justamente pelo que eu disse no programa: isso é falsear nossa cultura. Existem várias histórias ancestrais que mobilizam o imaginário de resistência, e acho mais válido incentivar sua redescoberta do que estimular o conhecimento falso.

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