[Resenha] A Canção de Quatrocantos – O Homem de Azul e Púrpura

Por Andriolli Costa

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Faz pelo menos três meses que consegui a edição virtual de A Canção de Quatrocantos – O Homem de Azul e Púrpura, de V.M. Gonçalves, e por três vezes tentei começar a sua leitura. No entanto, logo que passei as primeiras paginas pelo celular, sabia que não poderia continuar daquele jeito. Quatrocantos não era um livro para uma leitura ocasional no ônibus ou no trem. De jeito algum. Os sacolejos e empurrões do transporte público de Porto Alegre não permitiram que eu absorvesse o que a história me oferecia de melhor: o artesanato da linguagem, a contemplação do mundo, a rítmica da vida dos povos primeiros.

É possível dizer que o livro conta a história de Yuruy Wayra, o herdeiro de uma lendária família de mercadores – função que reúne um pouco de aventureiro e diplomata. Do pai, com quem pouco se dava, ostenta o sobrenome e as cores, marcadas nos robes azul e púrpura que dão título ao livro. Wayra acaba de retornar cheio de riqueza e sabedoria de uma expedição de dois anos e meio ao território dos Gigantes – tendo inclusive estabelecido uma colônia no local, aumentando a proximidade entre aquele povo e o seu, os Wayar, moradores do Altiplano. No entanto, como diria um famoso Buru, “quem sai da terra natal, em outros cantos não para”. Um mês após retornar a sua cidade, Wayra deve partir novamente, a pedido do Conselho. Desta vez, acompanhado de 160 colonos, precisa guiar sua comitiva até o fim do mundo: o território Murená, onde acabam os mapas.

Esta sinopse, no entanto, não seria a mais adequada. Melhor seria dizer que não acompanhamos a jornada de Wayra, mas o desvelar do mundo de Quatrocantos – um universo inspirado em uma América Latina pré-colombiana, repleta de povos fantásticos.

O autor, Vilson Gonçalves, criou o mundo com muito esmero – como podemos verificar pelos esboços que publica nas redes sociais. Cada sociedade possui sua própria forma de ver o mundo, e ver isso se desdobrar na história é maravilhoso. Os Wayar, por exemplo, há muito aboliram os reis. São povos livres que socializam as riquezas e a propriedade em nome do coletivo. A terra não é de ninguém, a não ser dela mesma. Entre os Burus, por outro lado, a propriedade da terra é encarada com a maior naturalidade e os comandantes locais prestam obediência a um rei uno, e assim por diante.

O que nos captura não é o que acontece, mas o delicioso jogo de referências entrecruzadas pelos quais os personagens são forçados a cruzar. Diferentes modos de sentir, pensar em agir. O que comer ou como vestir. Quatrocantos mostra um mundo interligado, muito antes de qualquer ideia de globalização.

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Somente com o livro impresso na mão, um lugar confortável para leitura e a mente livre de outras preocupações pude enfim sentar e aproveitar como se deve a obra. Percorri novamente, com grande prazer o prólogo do livro. Para mim, de longe, onde está a joia desta edição. Em suas poucas páginas encontramos uma dose superconcentrada da beleza do mundo de Quatrocantos. Nelas, acompanhamos crianças Gururetúk sentadas em volta de um velho ancião, incitando-o à narrativa em troca de um pouco de fumo e um punhado de ouvidos atentos. Os cabelos vermelhos, a estatura e a harmonia com a natureza são elementos que me fizeram vislumbrar perfeitamente uma nação Curupira. O nome não é dito, mas a essência está toda ali. Todo aquele que deseja escrever ficção folclórica deveria ler esta introdução.

A cena é minha favorita do livro, o que pode ser um problema no sentido de que nenhum outro momento me deixou tão encantado quanto no começo. Tanto pelo convite explícito para sentar e imaginar, quanto pela própria disposição dos elementos narrativos. Neste panorama, temos um vislumbre do mundo e seus povos, que ainda não conhecemos, mas ansiamos por conhecer. Quando estes vão sendo realmente introduzidos, por outro lado, fica claro o grande problema do livro: ele é muito pequeno para a quantidade de informações que temos que apreender.

Os parágrafos descrevendo os hábitos e costumes de cada povo que aparece ficam tão condensados que assumem um tom professoral. Aprendemos o que eles comem, vendem, vestem, governam, em longos blocos descritivos. É interessante, mas seria muito melhor se estivesse introduzido em um acontecimento narrativo integrado à história. Detalhe que, no entanto, exigiria muito mais do que as quase 250 páginas da edição.12494986_1663146030629400_6172468100188571939_n

Outro ponto que me deixou bastante interessado foi o ritmo. Quatrocantos é um ponto fora da curva na fantasia contemporânea brasileira, em que os autores nos oferecem narrativas cinematográficas, que seguem a estrutura típica de um roteiro hollywoodiano. O problema é que quando esta estética se torna hegemônica, é muito comum que a forma se torne quase que obrigatória. Várias vezes já vi críticas de filmes asiáticos por serem “muito parados” e por “faltar agilidade na trama”, sem perceber que estes produtos culturais estão inseridos em outra lógica. Quatrocantos é assim também: é dono de outro ordenamento, que vejo, inclusive, como referência ao próprio tempo narrativo dos povos primeiros aos quais o livro homenageia.

Ainda assim, por mais que o livro seja contemplativo, se algo realmente me incomodou é que nada é um desafio para Wayra. O protagonista do livro é um homem viajado, um narrador nato, famoso e hábil com as palavras. Precavido e guerreiro – ainda que deteste guerras. É um homem perfeito. Suas dificuldades são, talvez, uma suposta solidão e o pouco tato com a política que ele faz questão de ressaltar em alguns pontos do livro. No entanto, esses problemas são apresentados de maneira tão sutil que nunca realmente parecem uma questão.

Wayra não tem papas na língua e alguém volta e meia reclama disso no livro, mas o mercador sempre consegue o que quer mesmo nestas condições. Além disso, na metade da história em uma provável situação de perigo frente a um líder belicoso, Wayra resolve tudo com pensamento rápido e sorte. Fato que me fez ter certeza de que nenhuma batalha seria travada até o final do livro (será que acertei? Leia e confira).

Talvez então o personagem que é imbatível para o mundo exterior perdesse suas batalhas internas? Não, isso também não acontece. Algumas pistas são jogadas: a relação dele com o pai, o fato de ter que lidar com uma imagem sua que é muitas vezes maior que o homem, a solidão amorosa de um eterno viajante. As sementes são plantadas, mas não colhidas. Wayra permanece o mesmo do início ao fim do livro. Quem acaba se transformando são seus guarda-costas, forçados que são ao contato com outras culturas. Estes são personagens bem mais interessantes e que mereciam ser melhor explorados.

Havia muitos pontos possíveis para que Wayra pudesse ser tensionado. Intrigas políticas, embates culturais, amores impossíveis. Mas ele passa por isso tudo sem que suas crenças anteriores fossem abaladas. Dizem que a jornada é mais importante que o final, mas o fato do livro ser mais sobre o mundo do que sobre a jornada de Wayra transformou-o em coadjuvante de sua própria história.

Nota: 4/5

Compre o livro aqui.

Conheça os povos de Quatrocantos na arte do próprio V. M. Gonçalves

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Uma resposta para “[Resenha] A Canção de Quatrocantos – O Homem de Azul e Púrpura

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