Extrativismo de histórias – Por um olhar descolonial sobre o folclore brasileiro

Iniciativas na academia e na literatura inspiradas na cultura popular dos povos tradicionais são cada vez mais frequentes. Mas enquanto eles nos oferecem suas ricas narrativas, o que oferecemos de volta?

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Cena do filme “Conflito das Águas” (2010)

Por Andriolli Costa

O ano era 2008, e eu estava no segundo ano da graduação em Jornalismo. Empolgado com os primeiros estudos sobre oralidade, pensava em escrever uma reportagem traçando um grande panorama dos mitos e lendas de Mato Grosso do Sul. A ideia era apresentar o resultado como trabalho de uma disciplina e, quem sabe, inscrevê-lo em algum prêmio para acadêmicos da área. Dois coelhos com uma canetada só.

Ainda na preparação da pauta, achei que seria interessante contemplar não apenas o imaginário pantaneiro, mas também o de algum grupo indígena. “Diversidade!”, eu pensava. “Inclusão!”. Consegui o telefone do representante de uma aldeia urbana da capital, Campo Grande. Expliquei o que pretendia e marquei uma visita por conta própria. Sem um colaborador da comunidade, nem pesquisa prévia, nem nada. Totalmente despreparado. Infelizmente não me lembro mais o nome da aldeia ou de seu representante, mas a lição que aprendi ali nunca mais esqueci.

O cacique me recebeu em sua casa. Junto a ele estavam quinze, talvez vinte membros da comunidade que se sentaram em círculo ao meu redor. Tornei a explicar o que pretendia. Antes que eu terminasse, um deles me interrompeu:

 E o que a gente ganha com isso?

Na hora, vergonhosamente, entendi que ele se referia a dinheiro. Expliquei que eu era apenas um acadêmico, que fazia aquilo sem receber nada em troca.

 Mas você não faz de graça. Vai ganhar reconhecimento, talvez o seu prêmio. E a gente?

Foi a vez dos demais se manifestarem. Com muito ressentimento, citaram uma série de casos em que professores universitários, mestrandos e doutorandos eram recebidos de braços aberto na aldeia. Durante seis meses, talvez um ano – a duração do trabalho de campo – frequentavam a casa daquelas pessoas, ouviam suas histórias, mergulhavam em suas vidas e sua cultura. Depois, quando a pesquisa acabava… um abraço. Nunca mais davam as caras, não atendiam ao telefone, fingiam não ver quando se encontravam nas ruas. A relação se encerrava com o fim do compromisso com o CNPq. O mesmo acontecia com jornalistas, que depois que faziam as pautas que precisavam, só lembravam da aldeia quando o editor mandava.

Naquele dia eu saí sem minha entrevista, mas com um aprendizado que valeu por qualquer prêmio. Primeiro de tudo, aprendi cedo algo que hoje parece óbvio: ninguém é obrigado a me dar entrevista, por mais que socialmente, como jornalista, eu seja credenciado como um “perguntador”.

Em segundo lugar, que eu tenho responsabilidade com a minha fonte. Seja eu repórter ou pesquisador, não tenho direito de extrair as histórias de um povo como se suas narrativas fossem especiarias. Como se fossem Pau Brasil. Desnaturalizar essa relação de exploração estabelecida desde 1500 é assumir um compromisso de descolonização.

Detalhe: essa reflexão não serve apenas para pensar o caso dos indígenas, mas para todo o contrato comunicativo estabelecido. O que meu entrevistado ganha ao colaborar comigo? O que eu ofereço de volta? Não, não estamos falando em dinheiro aqui, mas em devolver a atenção que recebemos.

O distanciamento sempre foi uma estratégia de discurso para distinguir o intérprete do objeto, do personagem. Acontece que esse “objeto” é vivo, este “personagem” é sujeito de suas ações. Isenção e objetividade – como normalmente alardeadas – não combinam com o diálogo dos afetos.

Contrapartida na academia
Na semana passada participei de um encontro de pós-graduação em Campinas, discutindo num grupo sobre Literatura Oral e Popular. Em meios a apresentações sobre poética, mitos, lendas, sambas e toadas, vaqueiros e cantadores, uma discussão permeava todas as mesas: a necessidade de oferecer uma contrapartida.

Uma colega, que estudava as narrativas orais de um quilombo sertanejo, ofereceu um banco de registros fotográficos para a comunidade. Ela já pretendia fotografar tudo para sua pesquisa de mestrado, mesmo. Bastou revelar estas imagens e entregar de volta aos colaboradores. Todos adoraram.

Outra colega, neste mesmo evento, ao estudar a temática amorosa nas cantigas de roda em uma comunidade no interior da Bahia, fez gravações em estúdio da cantoria do povo. O material serviu para os estudos e virou um CD que ela ainda vai entregar aos moradores do local.

Não é preciso muita coisa, nada escalafobético, mas que simbolize o respeito que se tem com os colaboradores da pesquisa. Detalhe: a palavra colaborador não é gratuita; e difere do informante na dimensão de sua responsabilidade. Colaborar é trabalhar junto com o investigador. É reconhecer o valor fundamental de sua participação para a existência do trabalho.

Contrapartida na imprensa
No jornalismo também podemos fazer isso. Não é só entregar uma cópia do jornal ou da revista para o entrevistado. É estar aberto para ouvir suas histórias, mesmo quando nossa demanda agora já é outra. Eliane Brum conta que continuou frequentando a casa de Hustene Pereira – o Pankinha – muito tempo depois da publicação da reportagem O Homem Estatística, na qual ele foi protagonista.

Ela havia se tornado uma confidente, e Hustene queria mantê-la atualizado sobre as conquistas da família. Grande ouvidora que é, Eliane fez o que fazia melhor. Das anotações erráticas e sem pauta nenhuma, ao longo de quase 10 anos, surgiu a reportagem Uma família no governo Lula, traçando a partir da singularidade desse caso um paralelo com os avanços sociais dos oito anos do primeiro governo do PT.

Da mesma forma indígenas, quilombolas, moradores em situação de rua ou manifestantes em ocupações urbanas querem ser ouvidos. Não só quando convém ao jornal, quando a agenda pede para que se fale sobre certos assuntos, mas principalmente quando ninguém está falando sobre isso. Quando não se procura uma pauta, muitas vezes é aí que se acha.

Contrapartida na cultura pop

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O quadrinista Hugo Canuto distribui sua HQ para as crianças Kiriri

Recentemente podemos acompanhar uma série de iniciativas midiáticas que buscam inspiração no folclore e nas culturas tradicionais. São livros, quadrinhos, mangás, games, e uma série de projetos que são bastante interessantes e renovam o interesse por manifestações que muitas vezes foram marginalizadas em nosso país.

No entanto, por mais que o trabalho de campo nesse tipo de obra não seja uma constante – como quando a pesquisa acaba sendo feita muito mais por bibliografias de referência – é interessante pensar em como por vezes estas histórias que contamos são tributárias. Não seria o povo nosso grande colaborador? Nosso coautor? Essas pessoas nos oferecem tanta inspiração, mas o que podemos oferecer de volta? A resposta aqui não deve ser normativa, deve ser encontrada na experiência de cada narrador.

Neste sentido, achei bastante louvável o que vez o quadrinista Hugo Canuto, autor de A Canção dos Mayrubé. Em 2007, ele viajou para a reserva do povo Kiriri, no coração do sertão baiano, e descobriu no trajeto que seu avô materno havia nascido naquele local. Hugo conta que seu avô sempre foi referência de aventuras e histórias em um sertão antigo, e tudo aquilo foi acendendo a luz do que seria Mayrube.

Em março de 2016, Hugo retornou à reserva para prestigiar o aniversário do Cacique Lázaro, levando para as crianças da aldeia alguns exemplares da história em quadrinhos. Dessa incrível experiência, ficou ainda a mensagem que ele postou em seu Facebook:

Voltei renovado e inspirado ao ver a riqueza e a diversidade de modos de vida que existem no país, principalmente em uma época em que as pessoas estão embotadas na ignorância sectária de partidos e visões embotadas. Por isso digo que tenho fé nesse país e no seu povo, na força regeneradora da sociedade que suplanta as piores coisas e resiste; e que o exemplo dos Kiriri seja nosso!

Resistamos então.

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2 Respostas para “Extrativismo de histórias – Por um olhar descolonial sobre o folclore brasileiro

  1. Oi Andriolli. Importantíssimas as tuas reflexões. Tenho pensado muito nisso nos últimos tempos. Que direito tenho eu, classe média, branca, de origem cultural européia (sou fruto da colonização alemã no RGS), de fazer o que faço: pesquisar histórias folclóricas, culturas autóctones, mesclar tudo e tirar daí outras histórias? Em minha defesa só posso dizer que durante anos (e ainda hoje) me sinto surrupiada por não ter tido acesso ao imaginário dos índios e da população do interior do Brasil, de locais que não tenho acesso. Afinal, tudo isso forma a identidade do país onde nasci e não ter acesso a isso, me levou a suprir essa ausência com informação de outras culturas que, pelo menos geograficamente, são ainda mais distantes de mim.
    Há alguns anos tive a oportunidade inestimável de visitar uma das tribos indígenas que ainda existem no âmbito de Porto Alegre. E naquela ocasião, pude levar alguns exemplares dos meus livros para a biblioteca da escola que é mantida na escola e desfrutar do carinho e da companhia das crianças do lugar. Foi um dia inesquecível e uma experiência riquíssima. Às vezes a gente não “devolve” para essas comunidades o que recebemos delas, por falta de proximidade física.
    Vou divulgar mais esse importante post. Todos nós que lemos e escrevemos sobre estes temas, precisamos falar mais sobre eles. Um abraço!

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    • Deve ter sido uma experiência maravilhosa essa visita, Simone! Tanto para você quanto para essas crianças. Na verdadeira experiência sujeito-sujeito (não sujeito-objeto), todos saem transformados. Obrigado pelo apoio. Grande abraço!

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