Série redescobre pratos típicos a partir dos mitos brasileiros

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Por Andriolli Costa

Já no finalzinho de 2017 o canal Tastemade Brasil levou para o Youtube uma nova série gastronômica bastante curiosa. Folclore Brasileiro – com Isadora Becker teve 12 episódios, cada um trazendo um mito e um prato diferente inspirado por ele. Um grande acerto, afinal os pratos típicos também fazem parte do folclore. A sabedoria popular se manifesta nos modos de preparo, nos ingredientes secretos, nos sabores de nostalgia. Após uma sequência de episódios ensinando receitas de cinema ou de séries, como waffles, brownies e cupcakes, ver um bom frango com quiabo e angu na tela foi de encher os olhos.

Guiando cada um dos pratos da série estavam os mitos – chamados por vezes erroneamente de lendas nos episódios. É um erro comum e fácil de corrigir: as lendas tem sempre fixação geográfica e temporal, enquanto os mitos falam de lugares e tempos plurais. O saci, por exemplo, é um mito que se encontra por todo o Brasil. Já o Negrinho do Pastoreio, tão marcado pela narrativa da pós-escravidão do século XIX no pampa gaúcho é indiscutivelmente uma lenda.

Sem desmerecer a iniciativa do programa eu me dei ao trabalho de destacar algumas informações não tão corretas na temporada dedicada ao folclore. Diferente do que foi dito, por exemplo, não é preciso vender a alma para o diabo para ter um cramunhão na garrafa. Um famaliá pode ser deixado com um pactário que o carregará, e você – que chocou o ovo debaixo do sovaco – ainda assim poderá usufruir de suas benesses.

Chamar o Negrinho do Pastoreio de “espirito camarada” deu à essa lenda tão famosa ares de Gasparzinho. Por outro lado, esse programa teve a melhor das sacadas na escolha do prato. Simões Lopes Neto registra em Lendas do Sul (1914) que o senhorio do Negrinho era tão sovina que: “só dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva-caúna, e nem um naco de fumo”. Incorporar a carne com a farofa de erva-mate foi uma escolha perfeita.

Outro ponto que estou sempre alertando é quanto à suposta lenda da Iara, que tanto circula pelas redes. Apesar de bonita e empoderadora, a versão em que Iara era uma guerreira indígena traída pelos irmãos e transformada em sereia pelos peixes e pela lua não tem qualquer lastro folclórico. É uma ficção contemporânea. Iara nunca foi um mito indígena, mas colonial – e nunca teve uma história de origem.

Outro equívoco infelizmente bastante comum ocorreu ao descrever o mito do boto. A narrativa canônica conta que, em forma humana, o boto usa sempre um chapéu para disfarçar o seu respirador. A apresentadora diz, entretanto, que o encantado tenta disfarçar seu nariz. Quem já viu um golfinho sabe do que se trata, é o buraco no topo da cabeça que compartilham todos os cetáceos. Não tem nada de nariz na história.

O último ponto que vale a pena ser corrigido é quanto a informação de que o Boitatá seria sido uma “história criada pelos jesuítas para ter uma entidade que protege a mata”. Se por um lado é verdade que os religiosos, como todos os intérpretes europeus, fizeram várias distorções ao registrar os mitos indígenas – seguindo a lógica do tradutor, traidor – por outro a ideia de que eles os inventaram é equivocada. A Mboitata foi registrada pelo Padre José de Anchieta em 1560, mas a partir de relatos de indígenas que temiam seus ataques. É um mito cem por cento nativo.

Com estas devidas ressalvas, vale se deliciar com todos os episódios do programa, que compartilhamos abaixo. Aproveite!

Mani – Bolo de Mandioca

Saci – Pé de Moleque

Diabinho da Garrafa – Conserva de Pimenta

Romãozinho – Galinhada Goiana com Pequi

Caipora – Pamonha Doce

Negrinho do Pastoreio – Maminha na brasa com erva-mate

Chico Rei – Frango com Quiabo e Angu

Iara – Tacacá

Cuca – Vatapá

Boto Cor de Rosa – Caldeirada de Peixe

Boitatá – Mariscos flambados na cachaça

Lenda da manga jasmim de Itamaracá – Bolo de Rolo de Mangada

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