[Entrevista] Albana Xavier – Cultura Pantaneira entre a tradição e o novo

Pantaneiro

Publicado na Revista Cultura em MS – Nº 1
Novembro, 2008. p. 10-15

Nos dias de hoje, o pantaneiro é um ser que hesita entre o apego às tradições do passado e o apelo às inovações do mundo presente.” com esta colocação, Albana Xavier Nogueira define o momento de transição pelo qual passa a cultura pantaneira. O que permanece? O que muda? É possível acompanhar as inovações do mundo globalizado sem perder de vista os valores já sedimentados? Pesquisadora respeitada, uma das pioneiras no estudo do tema em Mato Grosso do sul, ela busca respostas para perguntas como essas. Nesta entrevista Albana fala de suas origens, sua trajetória e da escolha da cultura do pantanal como objeto dos estudos que desenvolve há quase 30 anos.

ALBANA XAVIER NOGUEIRA é doutora em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1989). Atualmente é professora da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp/Anhangüera). Tem experiência na área de Lingüística, com ênfase em Sociolingüística e Dialetologia. Dedica-se atualmente ao estudo da cultura pantaneira, com permanentes participações em consultorias, congressos e bancas examinadoras de pós-graduação. Além dos livros “O que é Pantanal” e “Pantanal: Homem e Cultura”, sua produção bibliográfica inclui a obra “Cultura, Literatura e Língua Nacional” (em parceria com Maria da Glória Sá Rosa), diversos capítulos de livros e inúmeros artigos para periódicos.

– Fale um pouco de suas origens e de sua ligação com esse mundo que hoje é objeto de seus estudos.
Nasci em uma fazenda do município de Bela Vista. Depois minha família se mudou para Bonito, fomos morar às margens do rio Formoso, e, quando tinha por volta de cinco anos já estávamos na atual cidade de Anastácio, antes margem esquerda do rio Aquidauana, um bairro de Aquidauana. Nas férias, gostava de ir à fazenda de meus tios Zefe e Eva, no Pantanal do Rio Negro. Nesse meio cresci, estudei e descobri minha afinidade com a língua portuguesa e com a cultura regional.

– Você se diz anastaciana, mas é uma pessoa identificada com a cidade vizinha de Aquidauana. Por quê?
Na verdade sinto-me de Anastácio e de Aquidauana, que são duas cidades divididas apenas pelo rio e no início eram uma só. A identificação com Anastácio acontece muito por causa de meu pai, que era uma pessoa bem articulada, que gostava de política e, na época em que foi vereador, lutou pela emancipação de Anastácio.

– Como se deu a descoberta de sua tendência para a área de ciências humanas, mais especificamente da língua portuguesa?
Além da influência de meu pai, que gostava de ler e tinha uma cultura geral ampla, apesar de seu pouco estudo, outra pessoa que me influenciou muito foi o professor Antônio Salústio Areias, que foi presidente da Fundação de Educação no primeiro governo de Mato Grosso do Sul e meu professor de Língua Portuguesa no curso Normal. No começo ele achava que eu tinha ajuda nos meus trabalhos de redação, mas, quando constatou que era realmente eu quem escrevia, passou a orientarme e incentivar-me. Eu gostava de ler e de escrever e queria fazer Jornalismo, mas isso era muito difícil e exigia recursos para estudar em grandes centros. Assim, terminei o curso de Magistério, dei aulas de Língua Portuguesa no Ginásio onde o professor Areias era diretor e vim para Campo Grande estudar Letras na antiga Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (Fucmt). Foi onde encontrei a professora Maria da Glória Sá Rosa, que se tornou minha mentora intelectual e grande amiga. Era um momento especial, de efervescência cultural, e a professora Glorinha liderava toda uma geração que descobria o mundo por meio da literatura, do cinema e se revelava nos festivais de música e de teatro. Já formada, com ela fiz a minha primeira experiência de publicação. Juntas, escrevemos os três volumes de “Cultura, Literatura e Língua Nacional”, material didático dirigido ao segundo grau e editado em 1976, com distribuição em todo o país. Também a convite dela participei da primeira equipe da Fundação de Cultura do recém criado Mato Grosso do Sul, em 1979. O estado dava seus primeiros passos e aconteceu aquela “corrida do ouro” em busca de nossas raízes, nossas origens, havia uma ansiedade em torno do redimensionamento de uma identidade cultural sul-matogrossense.

Albana Xavier Nogueira– E quando você se voltou para a cultura pantaneira?
Em Campo Grande fui professora de Língua Portuguesa no Colégio Estadual Maria Constança de Barros Machado e no Dom Bosco. Ao terminar o curso de Letras fui convidada para dar aulas, também de Língua Portuguesa, na Fucmt, atual Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Mas logo a professora Dóris Trindade convidou-me para voltar para Aquidauana e lecionar no Centro Universitário da UFMS, que era dirigido por ela. Com o acúmulo de trabalho, acabei obrigada a fazer opções e assumi integralmente a docência na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Na década de 1980, procurando meu objeto de estudo para o doutorado na Universidade Mackenzie, escolhi o tema “A linguagem do homem pantaneiro”, pois queria trabalhar com assunto regional. No começo foi meio complicado. Além das dificuldades de acesso e locomoção, havia a resistência de alguns fazendeiros. Mas depois as coisas foram se arranjando e, com a ajuda de amigos e de pessoas como o professor Nilson de Barros, que era diretor da Embrapa Pantanal, fui encontrando o caminho. E o resultado foi que, além da coleta dos dados específicos para a minha tese na área de Letras, reuni muito material sobre a cultura pantaneira.

– É dessa época o livro “O que é Pantanal”, da coleção “Primeiros Passos”?
Mais ou menos. Já havia concluído o doutorado e, com o material que tinha em mãos, escrevi para o diretor da Editora Brasiliense na época, Caio Prado Júnior, propondo o tema. Ele respondeu-me dizendo do interesse pelo assunto e, a partir daí, com sua orientação, produzi os originais do livro publicado em 1990. Da mesma forma, o conhecimento acumulado durante a pesquisa permitiu que produzisse meu segundo livro: “Pantanal: Homem e Cultura”, de 2002.

– Nessa época já havia outras pessoas pesquisando essa temática?
Aqui do estado, na área específica de linguagem, penso que não. Em âmbito mundial e mesmo nacional, já havia uma preocupação com o ambiente e, por extensão, com o ser humano inserido nesse ambiente, mas aqui em Mato Grosso do Sul, poucas pessoas até então tinham essa preocupação, que ficava restrita aos ambientalistas, a alguns fazendeiros e professores. Havia aqueles que achavam estranho alguém se interessar em estudar a cultura, o ser humano, tendo em vista que, sobre o Pantanal, sempre se procurou vender a imagem de uma natureza exuberante, capaz de bastar-se a si mesma.

– Qual foi o foco de seu trabalho nessa pesquisa?
Trabalhei com um corpus, retirado da língua viva, sujeita a toda sorte de transformações, atendo-me principalmente às variantes mais significativas, devido à freqüência com que ocorrem na linguagem cotidiana pantaneira, levando em conta os planos fonético/ fonológico, morfossintático e lexical. Fiz entrevistas com pantaneiros típicos, representados por aqueles que integramas categorias de gerente, capataz de campo, vaqueiro, praieiro, empreiteiro, boiadeiro, dentre outros. Pude constatar, após as transcrições, a sistematização e os estudos do material selecionado, dentre outros fatos, que a fala pantaneira formou-se pela mistura de dialetos e de variantes levadas aos pantanais pelos falantes de diversas regiões do país. Sem contar a influência marcante do guarani, por meio dos paraguaios. No Pantanal da Nhecolândia, que fica no município de Corumbá, foi registrada a maior variedade lingüística.

São visíveis as influências no “sotaque”, em que se observa a pronúncia africada (chiada) do “s” pós-vocálico, em final de sílaba: “maix”, “rapaix”, “meixmo”. São inúmeros os exemplos que poderíamos dar e, sobre esse tema, atualmente, há alguns trabalhos muito bons. Já o Pantanal do Abobral, na época da pesquisa, caracterizou-se como uma área de transição lingüística, uma vez que registrei a concorrência de variantes fonéticas comuns tanto ao Pantanal da Nhecolândia quanto ao do Miranda, do Aquidauana e do Rio Negro. No Pantanal do Aquidauana, que, no meu trabalho inclui a região do Taboco e do Rio Negro, pude observar mais nitidamente as influências de paulistas, paranaenses, gaúchos. Enfim, constatei uma diversidade lingüística muito grandedentro dos pantanais que foram objeto de meu trabalho e isso reflete a própria formação do estado, em que a influência paraguaio-guarani também se faz presente na linguagem e nos hábitos locais. Em termos de influência cultural, os pantanais da Nhecolândia, do Rio Negro e do Aquidauana são, ao que tudo indica, os mais representativos. Nos pantanais da Nhecolândia e do Rio Negro fixouse grande parte dos fazendeiros tradicionais, que eram pessoas interessadas em tentar conhecer o Pantanal e registrar suas tradições em publicações das mais diversas.

10cfbe08b4b7ef442c6018d5fded5c6dc9e0ec55.jpg– E hoje? Qual é a situação?
Atualmente está muito diferente, pelo menos nas regiões por onde tenho andado. Com o advento do ecoturismo, muitas fazendas optaram pela instalação de pousadas e, em termos de linguagem, de cultura, muitas peculiaridades locais acabam se perdendo. Os peões gostam de imitar as pessoas de fora e há também aqueles que, querendo ser guias, aprendem, com os turistas, palavras em inglês, italiano etc., que, de uma forma ou de outra, acabarão interferindo na maneira de falar, na cultura local. Mas não é só o ecoturismo que concorre para as mudanças. As fazendas, como já disse, possuem, hoje, outra dinâmica. Os peões param menos tempo nelas, muitos migram das cidades vizinhas para a zona rural e, além de não conhecerem nada sobre a cultura da região, não demonstram vontade em aprender. Aliás, não têm, muitas vezes, nem a quem recorrer para isso, já que o proprietário é, na maioria das vezes, um eterno ausente. Por outro lado, o acesso às cidades vizinhas está mais fácil, assim como o acesso às notícias, às informações.

– O turismo não é um meio de resgatar a cultura local?
Essa é uma das discussões que envolvem questões referentes à sustentabilidade, ao desenvolvimento local e à valorização da cultura, dentre outras. Muitos estudiosos dizem que o turismo é uma atividade ambivalente em termos culturais, pois, ao mesmo tempo em que pode se constituir em instrumento de resgate de tradições locais, pode acelerar a descaracterização do lugar. Não resta dúvida de que o turismo contribui para o despertar de um sentimento novo pelo local, uma vez que as pessoas querem mostrar algum valor inerente ao seu ambiente, como um artesão, um artista plástico, um poeta ou alguém que saiba contar uma história. Nesse sentido, o turismo pode funcionar como uma das molas propulsoras do desenvolvimento local. Mas pode também propiciar, acredito que a médio ou a longo prazo, uma certa descaracterização da cultura, como já disse, pois os visitantes, vindos de diferentes partes do mundo, trazem palavras, costumes, modos de ser que vão sendo assimilados pelos habitantes locais. A meu ver, no entanto, isso faz parte do dinamismo da cultura, que precisa ser revitalizada para sobreviver, principalmente num mundo em transformação, em que o multiculturalismo, a diversidade e o hibridismo cultural intensificam-se cada vez mais.

– Qual a influência da mídia no universo do pantaneiro?
Hoje o pantaneiro vive mais fora do que dentro do Pantanal. Ele tem parabólica, rádio, celular e até internetno caso dos fazendeiros. Gostam de assistir a programas como novela, noticiário e futebol. É a cultura de massa que está levando uma nova maneira de ver o mundo, influenciando principalmente as crianças e os jovens. Sobre como a televisão mudou a vida no Pantanal, o professor Eron Brum, meu colega na Uniderp, publicou alguns trabalhos muito interessantes.

– Como manter a essência do saber, do conhecimento dessa região?
Para preservar, para conservar pelo menos a memória pantaneira, penso que a pesquisa é muito importante e deveria ser mais incentivada nas universidades. Outra coisa fundamental é o aproveitamento dos “saberes tradicionais da população local” para a melhoria das condições de vida das comunidades residentes. As experiências positivas devem ser valorizadas. Não se pode perder os elos, é preciso investigá-los, narrá-los, juntá-los para entendê-los, pois a marcha da humanidade se constitui em criar, inovar e avançar no tempo e no espaço. A evolução do mundo da pecuária, que sempre foi o sustentáculo da economia pantaneira e forneceu o modelo da cultura local, vem demonstrando que, com o desmantelamento dos grandes latifúndios, principalmente para fins de herança, o desaparecimento dos pantaneiros mais antigos ou seu êxodo para as áreas urbanas, bem como a venda de fazendas para empresários de fora, que não se interessam em conhecer a cultura do lugar, têm contribuído para o desencadear de fortes mudanças na região. Toda vez que um fazendeiro típico muda para a cidade, leva consigo aspectos relevantes de uma grande história que precisa ser recomposta. Então, não vejo outra forma de preservar esse conhecimento empírico, esse saber que manteve o Pantanal bem tratado, apesar de todas as adversidades, tanto econômicas quanto advindas da própria natureza, do que se buscarem formas de registrar e divulgar esse tipo de cultura não conservadora, mas conservacionista, que se antecipou ao discurso do desenvolvimento sustentável.

– Nesse contexto, que retrato podemos fazer hoje do universo das fazendas?
O que mais se vê hoje no Pantanal são grandes sedes, magníficas até, todas fechadas. Só se encontram, muitas vezes, o gerente e sua mulher, encarregada de abrir, limpar e fechar novamente a casa-sede, que passa a maior parte do tempo com as portas cerradas e onde lembranças ainda desconhecidas vão se dissipando. Assim, em companhia dos móveis antigos, um pedaço da história dos pantanais se encerra. Não se verifica mais o convívio que existia entre patrão e peões e isso vai descaracterizando certo tipo de visão cultural com relação ao Pantanal. As tradições que eram transmitidas, claro que modificadas, de geração a geração, hoje vêm sofrendo fortes rupturas e, com isso, está havendo o desaparecimento daquele modelo de cultura tradicional que se construiu a respeito do Pantanal. Está surgindo um outro modelo, um Pantanal com peões de passagem, que ficam dois anos no máximo em uma fazenda, que não possuem as mesmas técnicas de manejo daquele pantaneiro que nasceu e viveu ali. Eles têm outros hábitos, a linguagem é diferente e as palavras já sofreram muitas alterações, enquanto outras desapareceram. É uma situação difícil, pois, quando se conversa com muitos desses pantaneiros que estão lá, eles dizem que não querem que seus filhos tenham a vida que eles têm. Querem que os filhos estudem nas cidades e não há muito interesse em dar continuidade às tradições locais. Assim, outras tradições devem estar sendo construídas.

– Podemos então dizer que a cultura pantaneira está morrendo?
Essa cultura pantaneira que conhecemos, que reconhecemos como tal, não está morrendo, está em transformação, mas o ritmo e o rumo dessa transformação pode até determinar o seu desaparecimento. Em termos históricos e culturais, o Pantanal existirá enquanto o pantaneiro típico estiver por lá. Quando ele sair de vez, o significado do Pantanal, cuja imagem fixamos em nossa memória, passará a não existir mais, pois outro Pantanal diferente ocupará seu lugar.

– Ouve-se falar muito na preservação da fauna e flora do Pantanal. Você acha que há essa mesma preocupação em relação ao homem pantaneiro?
Penso que não, quando se trata do ser humano tudo é mais complexo. Hoje, as expectativas do peão pantaneiro são ínfimas e é por isso que ele não quer que o filho continue por lá, levando a mesma vida que ele. Pensando em evitar isso, a maioria faz de tudo para mandar os filhos para a cidade para “estudarem e serem alguém na vida”. Muitos crêem que o turismo possa trazer melhorias para quem vive no Pantanal, mas isso parece difícil, já que essa atividade agrega poucas pessoas para o trabalho. Há também propostas e programas, muitos já em execução, que visam ao aproveitamento de espécies da flora para confecção de peças de artesanato. Cogita-se o desenvolvimento da apicultura, bem como de outras formas sustentáveis de tentar segurar o homem na região, mas que julgo insuficientes para fixar as pessoas no mundo rural do Pantanal. E não se pode deixar de considerar que é justo que o peão que não tenha expectativas de melhorar as condições de vida nos pantanais migre para a cidade em busca de outras opções. Às vezes, eles vão para as cidades para padecer mais ainda, mas consolam-se ao imaginar que pelo menos os filhos estando na escola, poderão ter outra profissão, que não a de vaqueiro. Dadas as condições atuais do Pantanal, penso ser difícil reintegrar o homem, inclusive porque a própria natureza econômica do Pantanal não é a de agregar muitas pessoas. Antes, com as grandes extensões de terra, as fazendas empregavam até 30, 40 peões; hoje empregam três ou quatro, que vão ficandocada vez mais solitários. Em grupo, a fixação era mais fácil. Pode ser que algumas pessoas tenham soluções viáveis para a fixação do homem na região. De minha parte, ainda não consigo vislumbrá-las.

– Dessa forma, como seria em breve a cultura pantaneira?
No plano das probabilidades, creio que seria uma cultura com tendências para a desterritorialização, mais descontextualizada… enfim, mais heterogênea, porque no mundo inteiro existe essa tendência de as pessoas interagirem cada vez mais intensamente com outras culturas. Se antes a tendência era pela agregação familiar, hoje há uma propensão das pessoas para se dispersarem, para serem mais individualistas. A que irão levar essas novas linhas de intercomunicação de pessoas e de lugares, não se sabe. Como fica a cabeça das pessoas em relação a sua realidade, se estão sempre desligadas dela e conectadas em outras realidades virtuais? Em todos os lugares, com mais ou com menos intensidade, vivencia-se essa grande interrogação. Que referências perdurarão? O que realmente vai ficar? O que as pessoas rejeitarão e o que referenciarão em termos de valores? Tudo é descartável, tudo é urgente, tudo é provisório… Então, diante dessa urgência, dessa transitoriedade, como ficaria o Pantanal? É um problema para refletirmos juntos, pois é muito cedo para arriscarem-se posições sobre os rumos da globalização.

– O olhar externo, de quem vê o Pantanal e pensa sobre quem vive lá, mudou com o tempo?
Essa questão do olhar externo, das representações que as pessoas de fora possam ter a respeito do Pantanal, não cheguei a estudar sistematicamente. Mas percebo que isso fica muito visível através dos meios de comunicação de massa. Neles vemos, muitas vezes, o Pantanal como um paraíso, um lugar maravilhoso, onde parece que as pessoas não precisam trabalhar nem se alimentar, ficam só contemplando a beleza das paisagens, tomando banho de rio, curtindo a natureza, sem compromisso com nada. Mesmo assim, a maioria dos campo-grandenses não conhece o Pantanal rural, o Pantanal real e, às vezes, nem mesmo os corumbaenses, que vivem dentro da área pantaneira. O que se constata é que ainda existe esse sentimento de não valorização daquilo que está mais próximo. Será que hoje isso acontece por que as pessoas estão tão envolvidas com a internet, procurando viver outras emoções que não se interessam por sua realidade? Vivemos numa época em que não se pode afirmar coisa alguma com segurança, porque tudo pode ser um grande equívoco. Acreditoque deveria haver uma vontade política, por parte dos governantes, das universidades, das escolas, de modo que as crianças, os jovens fossem incentivados a conhecer o Pantanal in loco, por meio de viagens de estudo, de lazer.

– Que parte do Pantanal ainda mantém tradições fortes?
Forte, forte, talvez não, mas na região da Nhecolândia ainda existem algumas fazendas que buscam manter as tradições. No Pantanal do Rio Negro, por exemplo, encontramos a Fazenda São Geraldo com estrutura familiar exatamente como as de antigamente. Lá mora o proprietário com a esposa, a mãe, o filho e os netos que, embora residam na cidade, estão sempre presentes, nos feriados. Em tudo a fazenda mantém os hábitos típicos do Pantanal. Levantam cedo, fazem o quebra-torto e vão para o campo trabalhar, cumprindo todos os rituais típicos. Voltam para o almoço, se há tempo dão uma sesteada ou, conforme o serviço, já levam a matula e comem no campo. Continuam fazendo a festa de São Sebastião, embora não consigam manter o mesmo modelo das celebrações do passado. No Pantanal de Aquidauana conheci fazendas em que os proprietários se esmeram por manter as tradições locais, como é o caso da Fazenda 23 de Março. Sei que isso ocorre em muitas outras fazendas, principalmente na Nhecolândia, mas, no momento, só essas duas fazendas me vieram à memória.

– Pensando em arte, que ícones do Pantanal são mais expressivos?
Penso que é a natureza mesmo, a flora, os rios, as águas, sendo que as águas assumem a condição de símbolo da vida no Pantanal. O homem pantaneiro somente nos últimos tempos vem conquistando espaço nas artes plásticas. Jorapimo recria um pouco os pescadores, as lavadeiras, mas, em geral, o ser humano é esquecido. Vale ressaltar que Humberto Espíndola, principalmente na fase da bovinocultura, retratou o fazendeiro de então, por meio da metáfora artística. Na literatura existem vários autores que procuram, por meio da palavra poética, recriar a vivência do pantaneiro. Dentro dessa linha, as composições musicais ganharam espaço e conseguiram traduzir para o resto do estado e para o mundo algumas facetas especiais da gente pantaneira. O teatro parece que começa a ser utilizado como forma artística de representar a realidade dos povos dos pantanais, enquanto a dança ocupaum lugar expressivo nesse sentido.

– E na pesquisa? Como está o interesse por essa área de conhecimento?
Hoje há vários pesquisadores trabalhando, tanto da Uniderp, da UFMS e da UEMS quanto de outras universidades de dentro e de fora do país. Nas áreas de ciências biológicas, a mais atuante, sobressaem-se grandes pesquisadores locais, o que se justifica até pelo que o Pantanal oferece no campo da biodiversidade. No campo das ciências sociais e humanas também têm surgido muitos trabalhos relevantes, mas precisamos de fôlego e gente, pois as possibilidades são inesgotáveis. Muitas outras áreas do conhecimento realizam pesquisas e trabalhos interessantes na região. Cada pesquisador que faz um trabalho vê a realidade sob um prisma eprecisamos de muitas obras para que tenhamos um panorama ou um estudo que mostre a região como um todo. Hoje o Pantanal está de um jeito, amanhã já está de outro e, sem pesquisas, não vamos conhecer as etapas dessa transformação. Na Uniderp há vários alunos de Iniciação Científica pesquisando sobre o Pantanal em um projeto do programa de Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, mas tocar uma pesquisa individualmente para uma tese, por exemplo, é difícil, pela dificuldade de acesso e pelo custo que isso implica. Seria necessário que o governo, junto com as universidades, aumentasse o aporte de recursos com essa finalidade. Acho que os grandes projetos desenvolvidos no Pantanal tinham que fazer convênios com as universidades e levar estudantes. Está faltando estabelecer redes, trabalhar interdisciplinarmente e interinstitucionalmente.

– Mato Grosso do Sul é um estado relativamente novo e a grande pergunta que se fazia à época de sua criação era sobre qual seria a nossa cultura, a nossa identidade. Hoje não se faz mais essa pergunta, pois há um consenso que a nossa característica é a multiculturalidade. Dentro dessa mescla, desse caldo, qual o gosto da cultura pantaneira na cultura sul-mato-grossense?
Observo que a cultura pantaneira, mesmo que não transpareça muito, permeia toda a cultura de Mato Grosso do Sul. A base da cultura de todo o estado e, particularmente, do Pantanal, está na pecuária. Nossa cultura reflete essas raízes, bem como as tradições que vão se amoldando, se modificando. Penso que o pano de fundo realmente é a cultura da pecuária, que, por muito tempo, imperou soberana, dificultando o desenvolvimento de manifestações diferentes. Havia grandes latifúndios, grandes fazendas e os fazendeiros normalmente não se preocupavam em investir na própria cidade. Eles iam comprar apartamentos no Rio de Janeiro, São Paulo, até em outros países, e as cidades locais não tinham um desenvolvimento maior, porque não se investia nelas. De lá para cá deu-se um salto, evoluímos muito e hoje as pessoas manifestam sua origem cultural nas produções locais, das quais se orgulham. Observa-se que há, hoje, a mistura da cultura aristocrática, do ruralismo, com a cultura e as manifestações populares e indígenas.

– Até que ponto os meios de produção interferem na questão cultural?
No fim de tudo, a economia é o grande fator determinante. A maioria dos pantaneiros típicos está empobrecida, não são mais os mesmos de antes. Tiveram que redividir suas terras e não têm mais aquele volume de gado que dava uma folga no orçamento. Depois de atravessar duros períodos de crise, muitos pantaneiros venderam suas fazendas e foram morar nas cidades. O turismo associado à criação de gado foi uma forma que outros encontraram para tentar sobreviver no Pantanal. Mas tudo está mudando e novas estruturas estão sendo montadas. Nesse sentido, vale observar que uma das marcas culturais do pantaneiro sempre foi a solidariedade com as pessoas, com os viajantes, porque todo mundo corre o risco de precisar de ajuda no Pantanal. Mas hoje, as pessoas que vêm de fora, os novos proprietários, fecham as porteiras com cadeado e aí osviajantes têm que fazer outros caminhos, dar voltas. Em muitas fazendas ninguém recebe ninguém. Antes as pessoas ficavam felizes em receber os viajantes. Hoje já existe o medo de assalto. De qualquer forma, o modo como os meios de produção se comportam diante do mercado pode influenciar muitos aspectos da cultura.

– É possível detectar a presença da cultura pantaneira no linguajar de Campo Grande?
Em termos culturais Campo Grande é uma amostra da globalização. A grande maioria da população não é do estado, mas nutre o sentimento de pertencimento em relação à cidade e isso é o mais importante. Temos uma colagem de culturas diferentes que nos permite a construção de uma identidade plural. Quanto à linguagem, é difícil tomar posições enquanto não forem desenvolvidas pesquisas sobre o assunto. Mas nossa experiência de falante permite observar que aqui, como no Pantanal, também temos influências provenientes de diversas regiões, como dos gaúchos, paulistanos, cuiabanos, nordestinos… enfim, a principal característica é a mescla cultural e lingüística. Os reflexos da cultura são mais visíveis no léxico. Assim, poderia, sem pesquisa, arriscar a dizer que, muitas palavras relacionadas às práticas rurais, ao mundo da pecuária, tenham chegado até Campo Grande via Pantanal.

– Resumindo, o que podemos afirmar sobre a cultura e tradição pantaneiras hoje?
Os pantanais atravessam um período de transição do culto ao tradicional para a adesão às novidades, introduzidas principalmente pela tecnologia eletrônica, que, em curto espaço de tempo, colocou o Pantanal no contexto da globalização, que lhe vem emprestando novas configurações histórica, social, cultural e econômica. O que vai ser daqui para a frente? Não sabemos. A certeza que temos é de que a pesquisa precisa ser incentivada e nela o ser humano local valorizado. A geração de novos conhecimentos, apoiados nos “saberes tradicionais” poderá apontar soluções, que hoje ainda são difíceis de serem vislumbradas.

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