[Resenha] A Odisseia de Tibor Lobato – O Oitavo Vilarejo

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Confesso que relutei um pouco antes de comprar A Odisseia de Tibor Lobato – O Oitavo Vilarejo. A referência direta a Harry Potter, que fica ainda mais explícita na capa e contracapa, e a citação direta a Monteiro Lobato ao mesmo tempo em que desperta curiosidade também gera certa desconfiança. Seria a obra boa em si, ou apenas mais um dos pastiches que estamos tão acostumados a ver por aí? Era preciso ler para verificar.

Na obra, acompanhamos os órfãos Tibor e sua irmã mais velha Sátir Lobato. Os garotos passaram os últimos dois anos em um orfanato, após seus pais – que viviam em um acampamento de ciganos – falecerem devido a um incêndio. Os garotos são finalmente localizados por sua velha avó paterna, que eles nem se lembravam de conhecer, e adotados por ela para viverem em seu sítio, localizado na Vila do Meio.

No total, sete vilarejos compõe o entorno de fazendas onde se localiza a história. No entanto, como o próprio título do livro deixa claro, existe um oitavo. E nesse lugar esquecido, uma antiga criatura está prestes a escapar.

Pontos positivos (sem spoilers)

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Capa antiga

Uma das coisas que mais gostei em Tibor Lobato foi a proposta de trabalhar com a Quaresma. Existem diversos registros em nosso folclore de criaturas que assombram os vivos nesses 40 dias que antecedem a Páscoa. Gustavo Rosseb, o autor do livro, faz uma boa apropriação desse período. A chegada do sábado de aleluia traz um grande alívio para os personagens, depois de tanta aventura vivida nos últimos dias.

Gostei também da sensação de tranquilidade do sítio da avó. Dá tempo de chupar manga, colher ovos da galinha e ainda deitar na relva olhando o dia se fazer noite. O tempo passa comprido – sem a ansiedade das grandes cidades. Cada refeição é praticamente uma mesa comunal de Hogwarts (mantendo os paralelos), e enche a memória de lembranças.

Outro destaque folclórico é o uso da porca dos sete leitões. Nunca antes havia visto nenhuma história trabalhar com essa criatura. Torço para que ela volte nos próximos volumes. Destaque ainda para a interpretação do boitatá, como uma serpente de fogo verde que pode ser invocada com o devido conhecimento. É praticamente uma cena de videogame.

Pontos negativos (com alguns spoilers)

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Capa Nova

Para mim, há dois grandes problemas em Tibor Lobato. O primeiro diz respeito a consistência da história, e o segundo a minha relação pessoal com os mitos brasileiros. Como esse blog é dedicado justamente a isso, vamos começar pelo último ponto.

Não gosto muito de histórias que fazem salada com o folclore. Evidentemente todo autor tem direito de criar as versões que desejar para que a história funcione, mas quando a mistureba é demais, o negócio fica muito bobo para mim. E conforme a história avançando, isso incomodava cada vez mais.

Quando descobrimos que Dona Gailde, avó de Tibor, é filha do Curupira, irmã da Cuca e da Pisadeira, não pude evitar um suspiro de tédio. Aquilo nem fazia sentido… Da mesma forma que bocejei quando Sacireno Pereira (sim, Saci Pererê é apenas seu apelido) se revela. Será que alguma viva alma não sabia sua identidade?

Essa dos nomes é uma coisa a parte… Fico pensando se “Tibor” ser “Robit” (Hobbit) ao contrário significa alguma coisa.

Na história, a Cuca some com diversas crianças no vilarejo e as transforma em espíritos errantes a seu serviço. Era possível escolher qualquer mito brasileiro para manter a unidade, temos vários espíritos e fogos fátuos no “menu”, mas o autor escolheu chamá-los de trasgos. Não entendi o motivo.

Narrativa (com alguns spoilers)
Quanto a narrativa, fiquei incomodado com alguns fatores. A começar pelos personagens principais. O arco de evolução que guia Tibor do início ao fim da história não é nada convincente. O personagem pouco aparece de início, com uma personalidade plana e sem nenhuma variável. Sátir, sua irmã, é muito mais interessante – seja por ser atrevida, cética ou protetora.

Existe o arbítrio de que ele deve “superar sua raiva e seus medos”. No entanto, em momento algum ele parece uma pessoa medrosa e raivosa, como a história quer nos forçar a acreditar. Seus momentos de raiva são absolutamente normais. Quem não gostaria de vingança após quase ser morto pela Cuca? Não é por esse tipo de elemento que o personagem poderia ser caracterizado da forma como se quis.

Isso é um problema que permeia boa parte do livro; o narrador arbitrário. O texto o tempo todo descreve o sentimento dos personagens, mas suas ações não correspondem ao que é descrito. Exemplo é logo no começo, quando o livro diz que o conselheiro tutelar está desconfortável e louco para ir embora, mas nada até então nos levava a ver isso. Não basta dizer, é preciso mostrar.

Outro comportamento desviante é o de Rurique, o “Rony Weasley” do grupo. De início, o garoto que sempre viveu na fazenda era bem disposto, acordava cedo, fazia todas as tarefas, etc. Mais tarde, é ele quem vive reclamando de cansaço, dormindo muito, vivendo com fome ou sede. Não há consistência.

Pouca consistência também há na resolução final do livro. O inimigo que se revela, o plano final… Tudo muito jogado e apressado. Vale conhecer, mas espero que a série melhore mais a frente.

Conheça mais sobre a obra em http://www.tiborlobato.com.br/

Nota: 3/5

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Uma resposta para “[Resenha] A Odisseia de Tibor Lobato – O Oitavo Vilarejo

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