[Clipping] Brasiliense une mitologia indígena e Lovecraft em HQ

Publicado automaticamente por D24Am

rio negro

Se, para quem mora no Amazonas, os mitos e lendas do imaginário local já inspiram histórias há tempos, o efeito sobre o brasiliense Eron Costa, de 45 anos, não foi diferente. Ele, que já visitou Manaus, há alguns anos, assina uma HQ de suspense, intitulada ‘Rio Negro’, que alia folclore regional a elementos de H.P. Lovecraft (1890-1937), famoso escritor norte-americano que revolucionou o gênero terror.

A trama narra a saga de Elton e Margot, um pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e uma fotógrafa ambiental que investigam o possível habitat de um raro peixe, conhecido apenas como ‘peixe misterioso’. “O que os dois não sabem é que se dirigem para uma região habitada por comunidades isoladas que, ainda hoje, cultuam o antigo deus anfíbio dos segredos e dos pesadelos”, explica o escritor, via e-mail.

Eron, cujo codinome artístico é Ikarow, classifica a história como um “terror cósmico” e explica: “não é o tipo de terror que causa medo de fantasmas. Não é o saci, mas, um medo de que, talvez, não estejamos sozinhos no universo. De que possam existir criaturas mais antigas que a vida na Terra e que, apesar de, hoje em dia, já não estarem entre nós, buscam uma maneira de voltar por meio daqueles que ainda creem na sua existência”.

Ao recorrer a Lovecraft, o artista enfatiza que a escolha não se deve, unicamente, ao apreço que tem pelo renomado autor estrangeiro. “Já fazia tempo que eu queria ilustrar um conto de H. P. Lovecraft que, para mim, é um dos maiores gênios do terror moderno, mas ainda não é conhecido pelo grande publico brasileiro. Lovecraft escreveu muito sobre esse conceito de entidades mais antigas que o tempo. Criaturas que não temos capacidade de compreender. Cultos antigos que veneram criaturas que vivem em outros planos”, cita Eron.

rio negro1“É justamente disso que trata a cosmologia dos povos indígenas brasileiros. Diferente de personagens do folclore, como saci ou o curupira, os mitos indígenas, um dia, foram objetos de adoração de milhares de homens e mulheres espalhados pelo Brasil e pela América Central. Pessoas já mataram ou morreram por acreditar ou desrespeitar essas entidades. Então, todas as ideias desenvolvidas em ‘Rio Negro’ têm sido desenvolvidas com muito respeito aos mitos lovecraftianos e brasileiros, sempre usando como base o trabalho de historiadores e antropólogos, como Câmara Cascudo, que dedicou muito tempo em descobrir e registrar esses mitos”, complementa.

Os fatos reais também são fonte de inspiração para a história, que está sendo divulgada, capítulo a capítulo, na fanpage do projeto no Facebook, pelo app Social Comics, aplicativo de quadrinhos digitais para smartphones e tablets, e no perfil de Instagram do artista. “Além de utilizar lendas e personagens da mitologia indígena brasileira, a história é, também, inspirada em eventos reais, que aconteceram com a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), dra. Ilse Walker (que faz uma pontinha na história), bem como outros fatos que realmente aconteceram na região amazônica. Muito disso é explicado no primeiro capítulo da história, que já está disponível online”, explica.

Retorno
ipadSegundo ele, a divulgação de ‘Rio Negro’ tem sido exitosa, visto que seu trabalho como ilustrador não é profissional. “Eu precisava mostrar o que tenho em mente e a internet é o canal perfeito para isso. Assim, resolvi disponibilizar a história na internet no formato de série e tentar buscar apoiadores entre os próprios leitores.

Dessa forma, você pode acompanhar ‘Rio Negro’ e decidir se vale ou não a pena apoiar”, argumenta Eron, que é administrador formado e se dedica, nas horas livres, “ao roteiro, desenhos, arte final, digitalização, colorização e divulgação” de sua obra artística.

Na mesma medida, ele exalta o retorno que tem recebido, seja do público ou da crítica. “Lancei o primeiro episódio em 31 de outubro do ano passado e, desde então, o projeto já foi tema de matéria de alguns sites, como http://mapinguanerd.com.br e www.bocadoinferno.com. Só fico triste por contribuir para o aumento do nível de estresse dos leitores, que costumam dizer que ficam ansiosos para ler os próximos episódios”, explica, bem-humorado.

Mesmo assim, ele confessa que a responsabilidade de conduzir o projeto é grande, principalmente, pelo fato de unir inspirações tão distintas – folclore nacional e Lovecraft. “Ao mesmo tempo, fico orgulhoso de poder estar resgatando e divulgando elementos da cultura brasileira que muita gente ainda não conhece”, emenda.

Próximos passos
12640495_940138286061815_3749654221131144953_o.jpg‘Rio Negro’ está em divulgação via redes sociais, mas Eron planeja lançá-lo em versão física. Para que isso aconteça, porém, a opção é recorrer ao ‘crowndfunding’. “Uma das propostas é lançar, brevemente, um projeto de financiamento coletivo para viabilizar a publicação do livro e, quem sabe, uma série de terror no formato ‘motion comics’, que é um tipo de quadrinho animado. Tudo isso vai depender do apoio e das parcerias que eu conseguir viabilizar durante esse processo”, informa o artista, que também pretende disponibilizar a HQ em inglês, para o público ‘gringo’.

Ele, que atua como ilustrador freelancer desde os anos 1990, ainda não tem novos projetos em vista. “Primeiramente, tenho que terminar ‘Rio Negro’. O projeto está sendo feito como uma série, finalizei o primeiro capítulo e ainda tenho muita história para contar. Serão cerca de cinco páginas a cada 15 dias, disponibilizadas na fanpage do projeto”, detalha.

Mas, garante o artista, é muito provável que a cultura nacional volte a servir de alicerce. “Gosto muito do folclore brasileiro. Já reparou o quão aterrorizante é? Veja a Cuca, por exemplo. Ela era a canção de ninar de toda criança, no Brasil, mas é conhecida, nas lendas brasileiras, como uma velha bruxa de cabelos claros, longos e desgrenhados, que possui voz horripilante e feições que lembram um jacaré. Veste trapos e vive em uma caverna, na floresta, realizando feitiços. É temida por todos que já ouviram suas histórias, mas, principalmente, pelas crianças, porque, de acordo com a lenda, ela só dorme uma única noite a cada sete anos e, durante as demais, sai para caçar criancinhas que não obedecem aos pais. Nossos pais cantavam isso e esperavam que nós dormíssemos? O terror para os brasileiros começa mesmo é na infância”, finalizou Eron ‘Ikarow’ Costa, que vive em Brasília, mas admite ter adorado a visita a Manaus, que o inspirou a criar ‘Rio Negro’ – “exceto pelo calor!”.

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