Octavio Sgarbi – Artista do Folclore (1941)

Especial para Vida Doméstica e Gazeta do Povo
Publicado em 06/03/1941 por De Castro e Silva

Poucos, no Brasil, tem se preocupado com o estudo do Folclore, quando, em quase todas as Nações civilizadas, esse estudo merece o maior carinho, pois resume a origem das lendas e tradições, o cultismo, por assim dizer, de um passado étnico.

Contamos e destacamos os nomes daqueles que se dedicam a esse gênero de investigação genealógica, tão pequeno é o grupo afeiçoado a esses apontamentos.

Câmara Cascudo, que nos deu há pouco um estudo suculento nesse ramo, tem sido um dos propugnadores pela formação de um centro de estudos, ou coisa semelhante, que se interesse pela difusão, interpretação e tudo que possa esclarecer a origem dos mitos, dos duendes, das assombrações, das lendas, que formam e enriquecem o folclore nacional.

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Nesse ligeiro escrito, quero me referir a inteligência e amor, a arte e a objetivação de um artista moço que vem, de há muito, ilustrando e estudando o Saci, o Caipora, o Lobisomem, a Iara, o Curupira e muitos outros tipos semelhantes. Esse moço, que a modéstia e a simplicidade agasalham no atelier grandioso da arte viva; esse moço inteligente e artista pela vocação e pela espontaneidade dos traços e das imagens; esse moço que deve ter vinte e poucos anos e assina os seus magníficos trabalhos com um OCTA ou um O.S. simplesmente, é Octavio Sgarbi, que a Vida Doméstica conta entre os seus elementos de redação.

Nenhum artista do lápis tem se dedicado a semelhante ramo de desenho, entre nós, com tanto interesse e sabedoria, com maior estilo e segurança nos traços, do que esse meu querido companheiro Octavio Sgarbi.

Os seus desenhos, que valem páginas e páginas de bons compêndios, pela expressividade das figuras, dão-nos a visão perfeita de todas as histórias que as pretas velhas nos contaram na meninice.

Cada um de nós teve, ou deve ter tido, uma preta velha, ou na mucama, que narrou em noites de luar, a história da Caipora que perseguia os viajantes para lhes pedir um naco de fumo… Ou do lobisomem, o homem amarelão, que veste a roupa pelo avesso e transforma-se em cachorro descomunal nas noites de sexta-feira… Ou ainda do Saci Pererê, com uma perna só, com um cigarro ou cachimbo na boca, que fica nas encruzilhadas a espera de um viajante, para pedir fogo a fim de acender o seu pito…

Todas as crianças ouvem essas histórias e guardam na memória, na lembrança, esses tipos que os acompanham pela vida toda, às vezes causando susto, outras vezes relembrando somente as negras velhas que narraram essas assombrações…

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Octavio Sgarbi, desde que o conheço, interessa-se pelo Folclore nacional, dando a sua inteligência de artista e de conhecedor das letras ao serviço desse ramo literário que a todos interessa, mas a que poucos se dedicam. Assim, a nossa admiração deve ser bem maior, porque vemos nesse jovem artista o cultor das lendas de nosso passado e o interprete fiel e consciencioso desses nossos “primeiros heróis” que se acercaram de nossas imaginações e ficaram em nossa companhia nos primeiros dias de nossa infância.

Em julho do ano passado, Octavio Sgarbi, saindo por alguns instantes do casulo de sua modéstia, expôs uns 40 trabalhos de sua autoria sob o patrocínio da “Sociedade Brasileira de Belas Artes”, no Rio, a que intitulou – “algumas lendas do Brasil”.

Não somente desenha, dando expressão e vida às lendas brasileiras, mas estuda, investiga e compara os nossos tipos com os outros, existentes nos demais Países, que tem, também, as suas lendas e as suas tradições.

O Saci, a Caipora, o Curupira, o Martim-Gererê, o Boitatá, a Mula-sem-cabeça, a Cuca, Rudá, o Boto, o Quibungo, o Caboclo D’água, a Iara, o Jurupari, a Iemanjá, o Lobisomem, tem sido motivo de todas as suas páginas, que dia a dia, enriquecem as coleções e os arquivos de quantos se interessam pelo assunto.

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Nesse alinhavo de crônica sobre a arte de Octavio Sgarbi, gostaria de induzi-lo a sair desse retraimento – deixar um pouco essa modéstia que o aureola mais ainda -e enfeixar em livro tudo o que já desenhou e escreveu sobre os “personagens” que enriquecem as nossas lendas, já originárias da Selva, já provindas do africano que se enraizou em nossa formação, já surgindo dos astros e dos rios – todas elas, porém, iniciadoras e guardiãs de nosso tesouro literário e étnico.

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