Laerte e a Flauta do Jabuti

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Por Andriolli Costa

Em 27 de abril de 2020, Laerte presenteou os leitores da Folha de S. Paulo com essa maravilhosa tirinha que diz muito sobre os nossos tempos. Para além da mensagem imediata, que gritava sobre a necessidade de recolhimento e inteligência frente ao avançar da pandemia que nos tomava, há ainda uma segunda camada de leitura que deixa o trabalho ainda mais rico.

Na história, encontramos uma referência direta a uma clássica narrativa indígena: A Flauta do jabuti! Há inúmeras histórias da cultura popular dos nativos brasileiros sobre este animal, sempre retratando uma vitória da astúcia contra a força bruta e a ignorância.

Não por acaso, no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade (1928), é no animal que o autor busca inspiração para inverter os valores clássicos do pensamento eurocêntrico. Devoramos o outro e o transformamos em coisa nossa, pois “somos fortes e vingativos como o Jabuti”.

Já em 1875 o naturalista Charles Hartt coleta uma versão Munduruku em Santarém, no Pará. Em “Mitos amazônicos da tartaruga”, Hartt percebe que nas histórias há sempre duas onças. Para o naturalista, a história reflete uma imagem mítica do lua (jaguar) e o sol (jabuti).

A primeira morre tentando enganar o jabuti para comê-lo, e é dela que vem a flauta feita do fêmur do felino. Com ela, o animal sai tocando uma música provocativa, que diz literalmente: “A perna do jaguar é minha flauta! A perna do jaguar é minha flauta!”. A segunda morre na tentativa de vingar a anterior e é enganada pelo quelônio.

Esse segundo logro do Jabuti possui várias versões diferentes. Em uma, ela entra no buraco a a onça rapidamente a segura pela perna. Então o quelônio grita: “Que boba! Acha que me pegou, mas está segurando uma raiz!”

A onça então solta, o jabuti escapa e sai pelo outro lado, deixando o felino esperando até morrer.

Em outra narrativa famosa, a segunda onça rouba a flauta do jabuti. Para recuperá-la, o animal prepara uma artimanha: coloca abelhas em seu ânus, espalha mel ao redor do rabo e se esconde em um buraco. Então fica soltando abelhas uma a uma até chamar a atenção da onça. Gulosa, ela coloca o dedo para comer o mel.

É aí que o jabuti “tranca” tão forte que a onça começa a gritar e implorar por ajuda. O jabuti diz que só solta o dedo do bicho quando receber a flauta de volta. E é assim que ela venceu a segunda onça e ainda garantiu o instrumento.

A história pode causar estranhamento, mas escatologia e referências à genitálias e excretos sempre fizeram parte das narrativas dos nossos povos indígenas. Nós é que temos esse pudor todo.

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