“Mitologia é a religião do outro”. O que isso quer dizer?

Por Andriolli Costa

Tornou-se lugar comum nas redes sociais a repetição de uma frase já clássica na hora de questionar o uso do termo Mito: “Mitologia é como se chama a religião do outro”. Por certo que é uma sentença muito instigante e pronta para garantir algumas curtidas fáceis no suposto debate, só que carrega alguns problemas: 1) ela está fora de contexto, e 2) uma coisa não é incompatível com a outra.

Vale lembrar: há a religião e há o mito. Quando ambos se encontram, é o mito – o imaginário dinamizado na forma de narrativa sagrada – que dá fundamento à religião. E esta, através de um conjunto de ritos, permite reviver o tempo mítico naquilo que Mircea Eliade chamava de o eterno retorno. Vamos pensar num rito religioso clássico: a comunhão do corpo de Cristo na forma do pão e do vinho. A imagem simbólica é evidente, e é recuperada a cada missa.

Insisto nas referências cristãs pois também é frequente a acusação de que ninguém trata cristianismo como mitologia. Isso é uma inverdade; mitos cristãos estão aí, de Deus à uma hierarquia gigante de anjos e arcanjos, instigando leituras há séculos. Tudo o que é preciso é saber identificar o que é uma coisa e o que é outra.

Qual a fonte?

A frase que dá início à problemática levantada por este texto é do pesquisador Joseph Campbell, mitólogo conhecido por obras como Herói de Mil Faces, As Máscaras de Deus e uma série de outras sempre ligadas ao tema mítico. Já deveria causar estranhamento nos que, sabendo quem foi Campbell, a repetem acriticamente, não?

Embora tenha ganhado a internet como aforismo genérico, ela está presente no livro Isto és Tu: Redimensionando a Metáfora Religiosa (2001) e tem um contexto bem diferente. Nele, o autor republica uma entrevista feita com ele por Eugene Kennedy, publicada na The New York Times Magazine em 8 de fevereiro de 1979 para uma matéria sobre a Páscoa.

A matéria, resultado de uma tarde inteira de diálogo, abre com o jornalista assumindo para si também aquilo que Campbell sempre defendeu: “Embora a palavra seja comumente usada para designar algo falso, o mito é realmente um veículo perene para expressar a verdade”.

No trecho em questão, a problemática se revela:

Kennedy: Como você definiria a mitologia aqui?
Campbell:
Minha definição favorita de mitologia: a religião das outras pessoas. Minha definição favorita de religião: a incompreensão da mitologia. A incompreensão consiste na interpretação dos símbolos mitológicos espirituais como se fossem fundamentalmente referências a acontecimentos históricos. Interpretações provincianas localizadas separam as várias comunidades religiosas. A remitologização, recaptando ou recuperando o significado mitológico, revela uma espiritualidade comum do gênero humano. Na Páscoa, para voltarmos ao nosso exemplo, seria possível sugerir a renovação do conhecimento de nossa vida espiritual geral através da rejeição momentânea de nossas várias conexões históricas

Percebam que ele chama justamente para uma remitologização da religião para recuperar seu valor simbólico. Na sequência, por exemplo, ele fala da cruz. Como é irrelevante a crucificação como fato histórico, mas sim o seu sentido mítico.

Na obra inteira de Joseph Campbell ele nunca trata mito como algo menor. Muito pelo contrário. Vamos ter isso em mente na hora de usar o famoso aforismo.

2 Respostas para ““Mitologia é a religião do outro”. O que isso quer dizer?

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