Poema – Encantatório, de Sérgio Bernardo #Saci100

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“A vida tem que ser encantada.
Quem não tem imaginação para sonhar coisas,
sonha com o Saci.”
– Ruth Guimarães

Quando tudo era grande
e o mundo eu inventava
a cada instante
houve um Saci nascido
no bambuzal debruçado
na margem do rio que corria
no fundo do quintal.
Esse Saci era meu amigo.
Vinha quando chamado
brincar comigo no porão,
parceiro das traquinagens
sem importância
que não causam arrependimento algum
e quase nunca deixam lembrança.
Mas de uma me lembro:
certa vez eu e ele
empurramos o irmão sobre o velocípede
no declive da grama
fazendo gente e brinquedo
darem duas cambalhotas
em direções diferentes
para o grito da mãe
e o choro da avó.
Lembro, porque nesse dia teve castigo
e o riso alto daquele Pererê
mangando d’eu,
vindo do fundo da noite
e que só eu escutava.
Hoje que não há mais quintal
nem soqueira de bambus
porque uma avenida se meteu
entre a casa e o rio
(e o próprio rio virou canal,
e a própria casa não é mais moradia)
já não é possível inventar o mundo
nem nascerem sacis
nos lugares onde fui morar.
Tudo o que posso,
no maior dos segredos,
é trazer esse Saci comigo
rindo às escâncaras e sempre
pitando seu cachimbo
a tramar sustos e artes
inocentes
preso aqui
dentro dessa garrafa vermelha
chamada coração.

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