Em encontro do Somando Visões 2023, pesquisadores discutem como a palavra “folclore” assume sentidos distintos — e por que o campo precisa olhar além de mitos, lendas e lembranças da infância
Ao chegar à Inglaterra para fazer um mestrado em Folklore Studies, Mariana Chaves encontrou uma situação menos óbvia do que a imagem de “terra do folclore” poderia sugerir. O país onde a palavra folklore foi criada tinha apenas um mestrado dedicado exclusivamente ao campo. A surpresa maior, porém, veio já na primeira aula: “É muito além disso. Não é só mitos e lendas”. Festival, dança, música, narrativas, costumes, rituais, paisagem e até tradições familiares também cabiam naquela área de estudos.
A experiência de Mariana foi colocada lado a lado com as trajetórias de Andriolli Costa, no Brasil, e Nuno Matos Valente, em Portugal, durante a live “Como estudam sobre folclore lá fora?”, transmitida pelo FolcloreBR em 9 de agosto de 2023. Com mediação de Anderson Awvas, o segundo papo da sétima edição do Somando Visões comparou universidades, usos cotidianos da palavra, políticas culturais e maneiras de fazer circular conhecimentos populares nos três países.
A conversa não produziu um ranking de quem estuda mais ou melhor. Mostrou, ao contrário, que os sentidos atribuídos ao folclore dependem da história de cada lugar — e que todos enfrentam dificuldades para reconhecê-lo no presente. “Isso tudo são estratégias de vivência. Não é mera curiosidade”, afirmou Andriolli. Para ele, o folclore é “presença, vivência, dinâmica e necessidade”: um conjunto de práticas que organiza pertencimentos, afetos, formas de comunicação e até decisões de vida e morte.
A terra da palavra tem apenas um mestrado
Mariana se aproximou do tema por caminhos familiares a muita gente: filmes, literatura fantástica, mitologia grega e histórias ouvidas em casa. Foi somente no mestrado da Universidade de Hertfordshire, entretanto, que percebeu a extensão do campo. Para quem tem o inglês como língua nativa, observou, a junção de folk e lore deixa à vista a ideia de um saber compartilhado por grupos e comunidades. Em português, “folclore” chega como uma palavra menos transparente e frequentemente associada às atividades escolares sobre Saci e Curupira.
“No Brasil, a gente tem uma diferença entre folclore e cultura popular, como coisas diferentes. Aqui é a mesma coisa”, comparou. No curso inglês, folclore podia abarcar “festival, dança, música, história, conto, tudo”. A amplitude transformou inclusive a relação da pesquisadora com o lugar de onde veio. Em um trabalho sobre o carnaval carioca, Mariana precisou revisitar a afirmação, repetida durante anos, de que não gostava da festa. A pesquisa lhe ofereceu a oportunidade de “me reconectar com uma cultura que é minha, mas da qual eu nunca me senti muito parte”.
O cenário acadêmico, apesar disso, não era tão amplo quanto Andriolli imaginara. “Deve ter 500 universidades de folclore na Inglaterra”, brincou ele ao recordar a expectativa anterior à conversa. Mariana explicou que havia pesquisas sobre o tema em departamentos como História, Literatura e Antropologia, mas o mestrado que cursava era o único organizado em torno do folclore como disciplina independente no país. Era também um curso recente, embora os fenômenos que estuda sejam muito anteriores à própria invenção da palavra.
A liberdade temática aparecia nas pesquisas da turma. Colegas estudavam fantasmas, dança, comida irlandesa, narrativas difundidas pela televisão e outros objetos capazes de revelar como grupos constroem identidade. “Se você conectar com folclore, fica à vontade”, resumiu Mariana. A frase ajuda a entender uma abordagem em que o campo não é definido por uma lista fixa de personagens, mas pelas relações entre uma prática, as pessoas que a compartilham e os sentidos que circulam por meio dela.
Quando folclore vira sinônimo de rancho
Em Portugal, a palavra percorreu outro caminho. Segundo Nuno Matos Valente, o interesse por tradições locais ganhou força entre o fim do século 19 e o início do 20, mas, durante a ditadura, o termo ficou estreitamente ligado aos ranchos folclóricos — grupos dedicados a apresentar danças, músicas e trajes considerados tradicionais de cada região. A associação se tornou tão forte que, para parte dos portugueses, falar em folclore ainda é falar em rancho.
“A palavra folclórica ganhou um sentido pejorativo”, disse Nuno. “Folclórica é uma coisa fuleira, é uma coisa do povo.” Por isso, expressões como “cultura popular” e “cultura tradicional” seriam mais usadas no país para designar manifestações específicas. O desprestígio não eliminou as pesquisas: ele citou trabalhos universitários e centros dedicados à tradição oral, especialmente no Algarve e em Trás-os-Montes. Ainda assim, avaliou que há pouco investimento nacional e pouca atenção à cultura popular.
Nuno chegou ao tema como escritor, editor e curioso, não como pesquisador universitário. Em 2016, publicou, com ilustrações de Natacha Costa Pereira, o Bestiário Tradicional Português, uma reunião de cerca de 40 criaturas da tradição oral. A motivação nasceu de uma ausência: ele encontrava bestiários ingleses, norte-americanos, brasileiros e espanhóis, mas não uma compilação ilustrada equivalente sobre Portugal. “Foi preciso chegar a 2016 para aparecer o primeiro livro”, contou. “Eu fiz porque vi o americano, vi em inglês, vi brasileiro, vi espanhol.”
O desenho era parte fundamental do projeto. Se todo português reconhecia um duende irlandês, argumentou, isso acontecia porque a criatura havia sido representada muitas vezes em livros, filmes e produtos culturais. As entidades portuguesas não contavam com a mesma circulação visual. Nuno decidiu, então, “jogar com as mesmas ferramentas” e produzir uma obra popular, capaz de chegar também às crianças.
O Brasil que ainda aprende a dizer “saber do povo”
No Brasil, a palavra também costuma aparecer cercada por reduções. Anderson e Andriolli lembraram que o próprio FolcloreBR nasceu da percepção de que o tema era frequentemente mal compreendido ou ensinado como um conjunto de mitos e lendas infantis. Esses personagens são parte importante do campo, mas não o esgotam. “A questão é que isso também é folclore”, reforçou Anderson ao enumerar festas, danças, comidas, crenças, narrativas orais e costumes cotidianos.
Andriolli chamou atenção para o momento em que crianças descobrem a formação da palavra inglesa. Ao ouvir que folk pode ser entendido como povo e lore como saber, “você vê aquele estalo fazendo assim na cabeça”. A explicação abre uma porta para compreender que o tema não pertence apenas a uma semana no calendário escolar, nem se restringe ao que é apresentado como antigo, rural ou exclusivamente brasileiro.
A própria identidade nacional desafia qualquer busca por origens puras. O Saci, mencionou o pesquisador, condensa diferentes matrizes: a agência da floresta presente em narrativas indígenas, características negras e africanas, o gorro vermelho associado a tradições europeias e transformações produzidas no território brasileiro. Mais do que decidir qual versão veio primeiro, interessa observar como os elementos foram compartilhados, disputados e refeitos.
Essa leitura dinâmica marcou a formação de Andriolli. Em Literatura oral no Brasil, de Câmara Cascudo, ele encontrou a ideia de que há várias versões e que não existe uma gênese única e imóvel: “Existe um pedaço de várias coisas que vão formando e se conformando o tempo inteiro”. Depois, pela Comunicação, chegou a Luiz Beltrão e Edison Carneiro, autores que lhe permitiram pensar o folclore como comentário social, resistência e estratégia para distribuir conhecimentos fora dos circuitos hegemônicos.
Uma floresta nunca significa exatamente a mesma coisa
A dissertação de Mariana analisava a floresta como espaço de liminaridade na literatura fantástica em inglês do século 21. Nas histórias, a mata pode ser lugar de perigo e medo, mas também de transformação e descoberta. “É, ao mesmo tempo, o espaço do outro, mas também o espaço do eu, em certos casos”, explicou. O motivo aparece repetidamente em contos de fadas, mitos, lendas e narrativas contemporâneas.
Trabalhar na Inglaterra, contudo, tornou visível um problema de perspectiva. Ao ler estudos que falavam de “literatura fantástica” como se a expressão designasse um universo comum, Mariana se perguntava que repertório estava sendo considerado universal. “Não consigo não parar para pensar que no Brasil vai ser diferente”, disse. “Por mais que seja universal, há particularidades de cada cultura.”
Sua bagagem brasileira e a experiência histórica de um país colonizado a impediam de generalizar sem marcar o ponto de vista: “Eu me sinto estranha de generalizar que a floresta é isso sem dizer: é isso para o mundo ocidental, para a Europa, para os Estados Unidos”. O incômodo mostra por que estudar folclore “lá fora” não significa apenas importar bibliografias. Também exige perguntar quem tem o poder de transformar sua experiência local em regra geral e quem aparece apenas como variação.
A colonização atravessou o debate sem se converter em uma explicação única. Nuno ressaltou que Portugal também foi formado por sucessivas ocupações antes de se tornar um Estado e defendeu que o intercâmbio presente não seja reduzido à culpa individual herdada. Anderson e Andriolli, por sua vez, lembraram que reconhecer essa complexidade não elimina a necessidade de examinar as estruturas e violências do processo colonial. A tarefa proposta foi evitar tanto a celebração acrítica quanto a demonização simplificadora: localizar as relações de poder, comparar versões e reconhecer as misturas que produziram os repertórios atuais.
A tradição não parou há 80 anos
A vontade de preservar pode facilmente se transformar em vigilância. Nuno contou que, nos ranchos portugueses, surgem disputas sobre a maneira “correta” de dançar, vestir ou nomear uma prática. O mesmo aconteceu quando precisou sintetizar relatos contraditórios sobre as criaturas do bestiário: em uma localidade, um ser tinha determinado nome; na aldeia seguinte, mudavam a cor, a aparência ou a narrativa.
“Qualquer síntese que tento fazer vai sempre ser uma síntese”, afirmou. Para ele, o problema dos ranchos não está em conservar memórias, mas na “tentativa de cristalizar uma forma de vestir, pensar e cantar de 80 anos, como se o mundo tivesse parado há 80 anos”. A tradição viva não repete mecanicamente o passado; seleciona, adapta, esquece e incorpora novos elementos.
O cotidiano ofereceu vários exemplos. Mariana relatou uma aula inteira sobre aniversários e descobriu que, na Inglaterra, não se batem palmas durante o “Parabéns” como no Brasil. Anderson e Nuno acrescentaram versos e respostas cantadas em regiões brasileiras, em Portugal e em países de língua espanhola. A ocasião parece universal, mas o ritual nunca é idêntico. Cada grupo aprende quando aplaudir, que versos acrescentar e como reconhecer aquele instante coletivo.
Até os cadeados deixados por casais em pontes entravam no programa do mestrado inglês. Para Mariana, uma manifestação pode ganhar interesse folclórico quando carrega significado para um grupo — seja ele uma família, uma comunidade digital ou um país. Andriolli observou que a tradição continua sendo um critério particularmente forte nos estudos brasileiros: a prática precisa perdurar e permitir alguma transmissão entre gerações.
Ele lembrou a expressão “ver passarinho verde”, usada para descrever alguém visivelmente feliz. Câmara Cascudo registrou a explicação de que, no século 19, periquitos teriam carregado bilhetes amorosos presos às pernas. O hábito desapareceu — e sua origem pode até permanecer incerta —, mas a expressão sobreviveu. “A manifestação oral perdura mesmo que o hábito de se comunicar dessa maneira não perdure”, explicou Andriolli.
De Maria Gancha às meias para Dobby
A cultura de massa não apenas adapta tradições: também produz rituais e sobrepõe imaginários. Mariana contou que fãs passaram a deixar meias e outros objetos na praia onde foi filmada a morte do personagem Dobby, da série Harry Potter. O memorial espontâneo cresceu a ponto de provocar preocupações ambientais e discussões sobre sua retirada. Ninguém precisava acreditar que Dobby fosse uma entidade tradicional para que a prática afetasse o espaço e construísse uma identidade coletiva.
Em Portugal, Nuno percebeu uma operação parecida ao mostrar a crianças a imagem de Maria Gancha, figura da tradição oral que vive em um poço e ameaça quem perturba suas águas. Quem não conhecia a história local respondia de imediato: “Maria Sangrenta”. A referência global de Bloody Mary se instalava sobre a narrativa dos avós e produzia uma nova camada cultural.
O movimento também atravessa o Atlântico no sentido contrário ao esperado. A geração de Nuno cresceu assistindo ao Sítio do Picapau Amarelo. Por isso, muitos portugueses passaram a reconhecer a Cuca brasileira — a bruxa com aparência de jacaré popularizada pela televisão — antes da coca ou do coco de tradições portuguesas. “É esta questão desta permanente substituição e impacto das outras culturas”, observou. Ele não propôs interromper a mudança: “Eu pessoalmente abraço estas coisas, mas gosto de manter um pouco da memória”.
O próprio bestiário se assume como parte dessa circulação, e não como palavra final. Nuno o descreveu como “mais um elo da cadeia folclórica”, uma forma de divulgação que também transforma aquilo que divulga. “Sou, na verdade, um curioso”, reconheceu. “Fiz um produto cheio de erro, certamente, sem cuidados acadêmicos, mas com muita liberdade artística.” A franqueza situa a obra entre pesquisa, criação e memória, sem fingir que uma ilustração possa encerrar todas as versões de uma criatura.
“Tudo é mais complexo do que o Twitter faz parecer”
Para Andriolli, compreender a força do folclore exige olhar para aquilo que as narrativas fazem na vida das pessoas. Em sua dissertação de mestrado, ele estudou histórias sobre tesouros enterrados no Paraguai, protegidos por espíritos. A busca mobilizava pessoas que cavavam poços cada vez mais profundos e, em alguns casos, morriam soterradas. “Como é que eu vou dizer que isso não é real, no sentido de que influencia a vida e a morte dessas pessoas?”, perguntou.
O caso rompe a ideia de que lendas são meras curiosidades sobre um passado distante. Elas podem orientar sonhos, esperanças econômicas, medos e escolhas concretas. Podem servir à resistência e ao comentário social, mas também conservar hierarquias e repetir valores dominantes. “A gente não repete as coisas como robôs, como algoritmos”, afirmou o pesquisador. “A gente repete porque está seguindo uma prática afetiva, sensível, que está em contato com a nossa comunidade.”
As contradições não cabem em slogans. “Tudo é muito mais complexo do que o Twitter faz parecer”, resumiu Andriolli. Seu convite foi olhar além da manifestação isolada e, mesmo dentro de mitos e lendas, perguntar o que essas histórias tensionam, autorizam ou impedem. O estudo deixa de ser apenas uma busca pela origem mais antiga e passa a examinar usos, disputas e consequências.
Um cotidiano encantado de memória e raiz
No encerramento, Andriolli apresentou a lógica do card game Poranduba, concebido para aproximar novos públicos da cultura popular sem transformar cada carta em uma aula. O baralho coloca no mesmo universo seres encantados, comidas, gestos religiosos e práticas cotidianas. “O folclore é o Saci e as visagens que tanto nos encantam, mas é a espada-de-são-jorge na porta da sua casa, as cantigas de ninar que embalam as nossas crianças, o prato típico que reúne a família no fim de semana e a festa de São João que a gente tanto espera todo ano.”
Uma carta da feijoada e outra de Santo Antônio de cabeça para baixo aparecem lado a lado porque pertencem ao mesmo “espaço do sensível”. Andriolli fez uma distinção importante: folclore não é religião, mas atravessa religiões. Festas, promessas, simpatias e narrativas religiosas podem se tornar manifestações folclóricas quando são apropriadas, transmitidas e transformadas pelas comunidades.
Ao aproximar três países, a live mostrou que estudar folclore não significa procurar uma coleção intacta de relíquias. Significa acompanhar formas de saber que mudam de nome, migram com pessoas, recebem imagens da televisão, ocupam pontes e praias, sobrevivem em expressões e reaparecem em livros ou jogos. “O nosso cotidiano é encantado de memória e de raiz”, disse Andriolli. Reconhecer esse encantamento talvez seja o primeiro passo para perceber que o folclore não está apenas “lá fora” — nem ficou parado em algum lugar do passado.
Sobre a live: “Como estudam sobre folclore lá fora?” integrou a sétima edição do Somando Visões e foi transmitida pelo FolcloreBR em 9 de agosto de 2023. Participaram Andriolli Costa, Mariana Chaves e Nuno Matos Valente, com mediação de Anderson Awvas.
Links relacionados: Somando Visões — FolcloreBR · MA Folklore Studies — University of Hertfordshire · Bestiário Tradicional Português