Em live realizada durante a CCXP 2020, Altemar Domingos e Andriolli Costa discutem as possibilidades e as responsabilidades de transformar Sacis, Cuca, Mapinguari e outras figuras populares em personagens de ficção
Muito antes de chegar aos quadrinhos, o Saci já acompanhava a família de Andriolli Costa. No interior de Mato Grosso do Sul, seus avós contavam histórias de parentes perseguidos pelo assobio do encantado. A criatura aparecia para explicar um ruído sem origem, assustar as crianças ou convencê-las a pentear o cabelo e limpar o terreiro. Era, nas palavras do pesquisador, “um folclore muito vivo”, presente nas férias, nas conversas domésticas e nas lembranças transmitidas entre gerações.
Essa experiência familiar se encontrou com o universo dos super-heróis em “Vamos falar de folclore e Sacis?”, live publicada em 6 de dezembro de 2020, durante a edição virtual da CCXP. De um lado estava Andriolli, jornalista e criador do projeto O Colecionador de Sacis. Do outro, o quadrinista e ilustrador Altemar Domingos, que desde meados da década de 1990 incorpora personagens da cultura popular à trajetória de Jaguara, guerreira criada para defender o vale fantástico de Jaguaretama.
Ao longo de mais de uma hora, os dois discutiram como essas figuras podem ocupar quadrinhos, games, animações e livros sem se transformar em peças intocáveis — nem ter suas novas versões confundidas com registros tradicionais. A conversa atravessou lembranças de infância, financiamento e diferentes corpos atribuídos ao Saci. No fim, Andriolli resumiu a disputa central: “O vilão é o esquecimento”. Adaptar não é apenas atualizar uma aparência. É manter a memória em circulação e assumir responsabilidade pelo que se inventa.
O folclore primeiro ouvido em família
O primeiro contato de Andriolli com o folclore não aconteceu nos livros. Nas férias escolares, ele deixava a cidade e seguia para a casa dos avós, no interior sul-mato-grossense. O avô cearense e a avó de ascendência mineira eram grandes contadores de histórias. Saci, assombrações e acontecimentos extraordinários não apareciam como conteúdos separados da vida cotidiana: faziam parte da memória familiar.
Uma das narrativas lembradas durante a live veio de uma funcionária que deixou a sala quando Andriolli ensinava crianças a assobiar para chamar o Saci. Na infância, ela usava o assobio para avisar ao pai, quando ele voltava tarde do trabalho, que ainda estava acordada e queria um beijo de boa-noite. Certa madrugada, recebeu uma resposta que não vinha dele. O som teria permanecido em seu ouvido durante dias, até que uma benzedeira identificou a perseguição de um Saci e conduziu um benzimento. A criatura participava da interpretação do mal-estar, da procura por ajuda e da memória familiar.
Altemar também conheceu o folclore pela voz do pai, nascido em Alagoas. As primeiras histórias de que se recorda eram sobre lobisomens. Aos seis ou sete anos, escutava relatos envolvendo parentes e habitantes do sertão, sentia medo e tentava imaginar a aparência da criatura. Depois vieram o cinema, as aulas da escola e o Sítio do Picapau Amarelo. “Ao mesmo tempo que me assustava, aquilo também me enfeitiçou”, contou.
Esse encantamento reapareceu quando começou a criar seus próprios personagens. Altemar concebeu Jaguara em 1994 ou 1995 com uma decisão já tomada: “Uma das coisas que estavam muito claras para mim era colocar personagens do nosso folclore dentro desse universo”. A proposta combinava a estrutura das aventuras de super-heróis com um vale habitado por seres como Mula-sem-cabeça, Cuca, Lobisomem, Mapinguari e diferentes Sacis.
Quando a história deixou de ser um glossário
Andriolli acompanhava adaptações do folclore desde o começo dos anos 2000. Naquele período, observou, muitos autores pareciam mais preocupados em provar que haviam pesquisado do que em contar uma boa história. Prólogos longos, explicações e trechos de Câmara Cascudo entravam no meio da narrativa, enquanto personagens e conflitos perdiam espaço. “A pessoa parecia que pegava Câmara Cascudo pela primeira vez e pensava: ‘Que coisa linda, vou botar um texto gigantesco aqui’”, brincou.
Também era comum apresentar Curupira e outras entidades como demônios. Essa abordagem não desapareceu, mas perdeu força à medida que novas obras formaram um público interessado em reconhecer o folclore como matéria de aventura, fantasia e terror. Andriolli citou, entre outros exemplos, o Legado Folclórico, de Felipe Castilho, A Bandeira do Elefante e da Arara, de Christopher Kastensmidt, e os livros de Gustavo Rosseb.
“As pessoas estão querendo consumir folclore, as pessoas estão querendo produzir folclore”, avaliou. A mudança trouxe um problema novo. Quanto mais criadores se aproximam dos repertórios populares, mais aparecem disputas sobre autoria, apropriação cultural e direito de exploração comercial. Diferentemente de uma personagem protegida por uma empresa, uma parlenda como “Um, dois, feijão com arroz” não possui um autor identificável. “Foi sendo acrescida por várias pessoas e acabou virando uma criação coletiva. Folclore é uma criação coletiva.”
Isso não torna toda apropriação legítima. A pergunta é como permitir que o repertório continue se transformando sem apagar as pessoas, os territórios e as relações que o mantiveram vivo. Para Andriolli, a década seguinte exigiria “pisar em ovos” porque criação, circulação e reivindicação de pertencimento nem sempre apontam na mesma direção.
“Este é o meu Saci”, não “este é o Saci”
A licença poética foi defendida pelos dois participantes. Altemar mostrou uma versão do Saci cujo gorro se comporta como uma criatura viva, capaz de revestir o corpo e transformá-lo em animais vermelhos e grotescos. A inspiração visual dialoga com os simbiontes dos quadrinhos norte-americanos, mas a personagem habita uma narrativa própria, construída a partir dos poderes e das imagens atribuídos ao Saci.
Para Andriolli, o problema não está em inventar. Está em apresentar uma invenção individual como se fosse uma versão recolhida da tradição. “Acontece muito de as pessoas tomarem a ficção pelo relato folclórico”, alertou. Ele lembrou uma publicação segundo a qual o Saci teria perdido a perna ao ser atropelado pela carruagem de uma senhora. O texto ficcional circulou milhares de vezes como explicação tradicional, acompanhado por leitores surpresos por nunca terem aprendido aquilo na escola.
A confusão se torna mais provável porque o repertório brasileiro ainda é pouco conhecido. “Eu sou muito mais favorável a você assumir a autoria e falar: ‘Este aqui é o meu Saci’. Não: ‘Este é o Saci’”, explicou. A diferença reconhece a liberdade do artista e avisa ao público que aquela versão responde a uma obra específica.
Altemar aprendeu essa responsabilidade em sala de aula. Ao apresentar sua HQ, ouviu estudantes perguntarem se o Saci realmente havia perdido a perna como acontecia na história de Jaguara. Passou, então, a explicitar que trabalhava com personagens ficcionais baseados em mitos. “Eu não posso misturar com a versão original”, disse — ressalvando que nem mesmo existe uma única versão original do Saci.
Dezoito nomes e muitos corpos para um encantado
As cartas reunidas por Monteiro Lobato no inquérito sobre o Saci, publicado antes de sua incorporação ao universo do Sítio do Picapau Amarelo, já mostravam uma criatura instável. Andriolli contou ter identificado cerca de 18 nomes e grafias diferentes no conjunto de relatos: Saci-pererê, Saterê, Sererê e outras formas que podem guardar tanto aproximações com o canto de pássaros quanto tentativas de registrar sons de línguas indígenas.
Os corpos também variavam. Havia Sacis com braços grossos como pilões, mãos semelhantes às de gorila, pele coberta de fubá, garras de corvo ou olhos vermelhos pela fumaça. Alguns fumavam cachimbo; outros, cigarro. O gorro podia ser descrito como carapuça ou boné. Em determinadas narrativas, o ser aparecia mais brincalhão; em outras, batia em pessoas e animais.
“Naquela própria época já se tinha muitos Sacis distintos”, ressaltou Andriolli. A diversidade desmonta a expectativa de fidelidade a um modelo único. A imagem consagrada — menino negro, de uma perna só, gorro vermelho e cachimbo — não é falsa, mas o resultado mais conhecido de uma história muito mais variada. Adaptar pode significar recuperar traços esquecidos, combinar versões ou criar outra, desde que a operação seja reconhecida.
Altemar percorreu caminho semelhante ao desenhar Jaguara. O Mapinguari ganhou dimensões titânicas e olhos adicionais; a Cuca tornou-se um jacaré-guaçu capaz de incorporar poderes de outros seres. “Esta é a versão da ficção, baseada no mito”, frisou. Andriolli mostrou como a Cuca já reunia papões ibéricos, uma criatura monstruosa europeia, a bruxa de Lobato e o jacaré consolidado por ilustrações e adaptações televisivas. “É uma tartaruga-dragão, é um papão, é uma bruxa, virou tudo isso junto.”
A pesquisa antes e depois da internet
Altemar lembrou um tempo em que pesquisar exigia percorrer bibliotecas, enfrentar filas, consultar catálogos físicos e copiar as páginas antes da viagem de ônibus para casa. Parte de seu trabalho dialogou com os estudos de Eduardo de Almeida Navarro sobre o tupi antigo e com os livros de Luís da Câmara Cascudo.
Andriolli apresentou Cascudo como um dos grandes compiladores da cultura popular brasileira. O pesquisador potiguar reuniu mitos, superstições, alimentação e literatura oral por meio de cartas, traduções e redes de colaboração formadas antes da comunicação instantânea. “Imaginem vocês hoje, que têm acesso à internet e conseguem conversar com pessoas do mundo. Ele fazia isso com carta.” Sua obra pode e deve ser criticada, ponderou, mas um erro localizado não anula a produção que preservou relatos e traduções hoje difíceis de encontrar.
Um Saci de duas pernas e a diferença como ponto de vista
Entre os trabalhos apresentados por Altemar estava O Saci de Duas Pernas, escrito por Djair Galvão e ilustrado pelo quadrinista. A narrativa nasceu para discutir bullying, diversidade e inclusão. Seu protagonista possui duas pernas, característica que pareceria “normal” aos leitores humanos, mas que o transforma em alguém diferente dentro de uma comunidade formada por Sacis de uma perna só.
“Na comunidade do Saci, ele é um deficiente”, explicou Altemar. O deslocamento do ponto de vista impede que a diferença seja tratada como uma propriedade natural do corpo. Ela aparece na relação entre o indivíduo e as expectativas do grupo. Outros personagens do folclore conduzem uma reunião para decidir o destino do protagonista, discriminado por seus semelhantes.
O repertório popular oferece uma imagem reconhecível; Djair muda uma característica e cria um conflito capaz de falar sobre a escola contemporânea, sem alegar que exista uma lenda tradicional sobre um Saci de duas pernas. A adaptação assume a mensagem e a autoria da nova narrativa.
Algo semelhante ocorre quando Andriolli leva a Mula-sem-cabeça ao ensino médio. Além da versão conhecida sobre a relação com um padre, relatos antigos aproximam a maldição de relações com padrinho, compadre e até o próprio pai. O mito permite discutir violência sexual e familiar. “É uma mulher que é violentada e, ainda por cima, amaldiçoada, transformada numa criatura monstruosa porque a sociedade a julga.”
O jovem pode não se manifestar durante a aula, ponderou, mas encontra uma linguagem para pensar abuso, culpa e punição. O folclore deixa de ser apenas definição ou data comemorativa e passa a abrir conversas difíceis.
Quando 800 crianças prendem a respiração
Uma das cenas mais vivas da conversa ocorreu fora dos quadrinhos. Andriolli contou que exibiu episódios da animação Juro que Vi para cerca de 800 estudantes reunidos em um teatro de Mococa, no interior paulista. Na tela, o Saci provocou gargalhadas. Depois, quando o Curupira recebeu um tiro, o ambiente ficou silencioso.
“Você ouvia no teatro todas as crianças prendendo a respiração e algumas com aquele soluço de choro”, recordou. A sequência logo revela que o Curupira transforma a bala em vagalume, mas, durante aqueles segundos, os estudantes temeram a morte da personagem. A reação coletiva demonstrava que os seres não precisavam ser importados de outra mitologia para mobilizar o público.
“Quando a gente consegue usar as nossas histórias para levar isso à potência máxima, toca qualquer um, de criança a adulto”, afirmou. O valor da adaptação não estava em repetir uma descrição tradicional, mas em permitir que os espectadores rissem, sofressem e se reconhecessem com aquelas figuras.
Altemar relacionou a dificuldade de alcançar resultados semelhantes nos games às condições da produção brasileira. Jogos tridimensionais exigem equipes, anos de trabalho e investimentos de milhões. Editais espaçados e recursos insuficientes alongam os projetos.
Para Andriolli, tentar copiar diretamente um sucesso estrangeiro pode aumentar o problema. Apresentar um projeto como “o God of War brasileiro” coloca a criação em permanente comparação com uma indústria muito mais capitalizada. “Se você fizer o Homem-Aranha, só que não é o Homem-Aranha, é o Homem-Saci, não vai ser tão criativo quanto construir uma narrativa própria”, disse. A melhor chance de circular fora do país estaria justamente naquilo que a obra consegue fazer de singular.
Heróis não precisam de espada e escudo
Ao responder que características um protagonista inspirado no folclore deveria ter, Andriolli recusou uma fórmula. Há heróis enganadores, inocentes e combativos. O Saci e Pedro Malasartes, por exemplo, vencem conflitos por meio da astúcia, da conversa e da pregação de peças. Transportá-los automaticamente para o modelo do guerreiro armado pode apagar justamente o que os torna particulares.
“Eu pego um livro e o cara bota lá um Curupira sacando uma espada. Eu falo: ‘Espada, cara? Pelo amor de Deus’”, contou. “Tem tanta coisa para a gente fazer, tantas armas para usar, tantas outras soluções.” O problema não é proibir a espada, mas perceber quando ela entra apenas porque o imaginário estrangeiro já ensinou que todo herói fantástico precisa lutar com lâmina e escudo.
A observação dialogou com Jaguara, criada em conversa com os super-heróis admirados por Altemar. Ele lembrou que até Batman reúne elementos do Zorro, de Drácula e de Sherlock Holmes. Nenhuma criação surge sem referências; o desafio é fazer a combinação deixar de parecer cópia e produzir suas próprias regras.
Altemar avaliou que parte da produção brasileira precisa ser reconhecida no exterior para depois ganhar atenção no país. Andriolli acrescentou uma ressalva: buscar circulação internacional não deveria obrigar o artista a reproduzir o que já faz sucesso lá fora. A criação brasileira tem mais a oferecer quando não esconde sua diferença para parecer familiar.
“O vilão é o esquecimento”
Perto do encerramento, Andriolli foi questionado sobre os vilões de O Colecionador de Sacis e outros contos folclóricos. Como o livro reúne narrativas de gêneros diferentes, nem todas possuem um antagonista individual. Em algumas, respondeu, “o vilão é o esquecimento”; em outras, é a instituição que abandona o folclore ou o governo que permite o desaparecimento das memórias.
Em um dos contos, sobreviventes de um futuro semelhante ao de Mad Max enfrentam inteligências artificiais com a ajuda de projeções dos próprios avós. “É um jeito de a gente pensar o passado para enfrentar o futuro”, explicou. A imagem sintetiza a concepção desenvolvida na live: tradição não é recuo ou nostalgia. Pode se tornar recurso para imaginar tecnologias, cidades, crises e relações que ainda não existem.
Essa capacidade permanece porque o Saci continua fazendo sentido. “As pessoas se identificam com os perrengues dele, com o deboche dele, com o desejo dele de ser livre, de voar”, disse Andriolli. Em suas próprias histórias, há Sacis velhos e jovens, personagens que falam de saudade, depressão e inspiração. “Dá para pensar o folclore não como algo descolado do mundo, descolado do nosso sentimento, mas como algo que está bem ali junto, apoiando tudo o que a gente sente e faz.”
Ao reunir pesquisa, memória familiar e cultura pop, a conversa mostrou que a sobrevivência do folclore não depende de repetir uma figura sem mudanças. Depende de criar vínculos entre aquilo que chegou do passado e o presente. A pergunta decisiva deixa de ser se a adaptação alterou o Saci, a Cuca ou o Mapinguari. Passa a ser o que essa mudança comunica e se o autor distingue a tradição coletiva da ficção que escolheu construir.
Sobre a live: “Vamos falar de folclore e Sacis?” foi publicada pelo canal Jaguara em 6 de dezembro de 2020, durante a CCXP Worlds. Participaram o quadrinista Altemar Domingos, criador de Jaguara, e o jornalista e pesquisador Andriolli Costa, responsável pelo projeto O Colecionador de Sacis.
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