“O Brasil não é um Saci, são vários”: diretores revisitam os 15 anos de Somos Todos Sacys
Em live mediada por Andriolli Costa, Rudá K. Andrade e Sylvio do Amaral Rocha relembraram o incêndio que atingiu a produção, as viagens pelo interior paulista, o encontro com Ruth Guimarães e o “reflorestamento de sacis” promovido pelo documentário
Quando Rudá K. Andrade e Sylvio do Amaral Rocha chegaram a uma das cidades da turnê de Somos Todos Sacys, encontraram um auditório tomado por centenas de crianças. O documentário não havia sido pensado especificamente para o público infantil, e os dois diretores sabiam que quase uma hora de depoimentos poderia não resistir à agitação da plateia. Pediram dez minutos à professora, foram até um bar próximo e voltaram com personagens improvisados, uma história e um Saci preso em uma garrafa. “A gente teve que, em dez minutos, criar uma apresentação do filme”, recordou Rudá. Antes mesmo de a projeção começar, o cinema já havia se transformado em brincadeira, teatro e narrativa oral.
A lembrança foi compartilhada em uma live do projeto #OcupaSacy que celebrou os 15 anos de lançamento do documentário, ocorrido em abril de 2005. Mediados pelo jornalista e pesquisador Andriolli Costa, do projeto Colecionador de Sacis, Rudá e Sylvio percorreram a origem do filme, os quase dois anos de viagens e entrevistas, os acidentes de produção e a circulação por cerca de 30 municípios. Mais do que uma retrospectiva, a conversa mostrou como a obra continuou a produzir encontros depois de concluída — e como os próprios realizadores mudaram ao revê-la.
Os cineastas partiram em busca do Saci como se fosse possível encontrar, por trás das variações regionais, uma personagem essencial e definitiva. O trabalho de campo desmontou essa expectativa. Cada narrador oferecia outra aparência, outro temperamento e outra maneira de contar. “A gente começou atrás de um Saci e foi descobrindo essa diversidade de Sacis”, resumiu Rudá. Para Sylvio, essa multiplicidade ultrapassa o personagem: “O Brasil não é um Saci, são vários”.
Um filme construído na estrada
Amigos desde os tempos de universidade, Rudá e Sylvio reuniram formação em História e Cinema quando decidiram trabalhar juntos. A ideia de abordar o Saci ganhou força a partir dos contatos com o movimento de valorização da personagem em São Luiz do Paraitinga e com pessoas que já atuavam na defesa da cultura popular. O apoio da então STV — Sesc Senac Televisão — deu condições para que a equipe viajasse e se dedicasse ao projeto com maior continuidade.
A parceria também definiu o formato. Os realizadores imaginavam inicialmente um longa-metragem, mas precisaram adequar o material a uma faixa de exibição televisiva. O documentário ficou com pouco menos de uma hora, depois de um processo de montagem que deixou de fora muitas horas de gravação. Passados 15 anos, os diretores não manifestaram o desejo de produzir uma versão estendida. “Acho que ficou ali, naquele momento”, avaliou Rudá. “Se fizer alguma coisa hoje, é outra coisa.”
O filme nasceu, portanto, tanto das possibilidades quanto dos limites daquele período. As câmeras eram emprestadas, as viagens dependiam de uma rede de colaboradores e os imprevistos começavam antes mesmo das filmagens. Em uma das primeiras idas a São Luiz do Paraitinga, a equipe aguardava o equipamento que chegaria com um amigo. Depois de horas sem notícias — numa época em que o celular ainda não resolvia qualquer desencontro —, encontraram o colaborador dormindo em um banco da rodoviária, ao lado das câmeras.
“A gente só queria fazer um filme”, brincou Rudá ao reconstituir o início da aventura. Na prática, fazer o filme significaria aprender no caminho a pesquisar, entrevistar, ouvir, produzir e reagir ao inesperado. “Ali foi uma escola”, afirmou, citando o audiovisual, a oralidade, a história e a cultura como dimensões inseparáveis da experiência.
O Saci que não queria ser filmado
Entre as histórias que ficaram fora da tela está a sucessão de tentativas de entrevistar Ditão, morador da região de Catuçaba. Na primeira gravação, os cineastas apertaram o botão da câmera, conduziram a conversa e só depois descobriram que nada havia sido registrado. Voltaram para uma segunda tentativa, mas uma queda de energia obrigou a equipe a filmar à luz do fogão a lenha. As imagens ficaram escuras demais.
O episódio ainda teria um terceiro ato. Durante a montagem, um incêndio atingiu o espaço de produção e destruiu boa parte do que estava no local. As fitas estavam protegidas em uma gaveta, com uma exceção: justamente uma das gravações de Ditão havia ficado fora dela. Diante da repetição, o grupo decidiu não desafiar mais o aviso. “Tem alguma coisa ali que desagradou”, contou Rudá. “Vamos pedir permissão para o Saci.”
A brincadeira sintetiza um desafio recorrente do documentário: como dar forma audiovisual a uma personagem associada ao desvio, ao desaparecimento e ao que escapa da vista? Os diretores tratam com humor a breve imagem na qual dizem ter finalmente flagrado o Saci. Durante as filmagens, espalharam milho como isca e mantiveram a câmera preparada por dias. “Quando a gente estava quase desistindo, ele apareceu”, disse Rudá, incorporando à conversa o mesmo jogo entre crença e invenção que sustenta as narrativas populares.
O incêndio, porém, foi inteiramente real. Além dos danos provocados pelo fogo, a água usada no combate comprometeu equipamentos e materiais. A equipe passou dias tentando recuperar o que restava e precisou recomeçar a montagem. “Foi uma semana chorando e tentando entender o que dava para salvar”, lembrou Rudá. Um dos objetos sobreviventes foi um fac-símile de O Sacy-Pererê: resultado de um inquérito, obra organizada por Monteiro Lobato. Chamuscado, o livro ganhou outra camada de história e, anos depois, passou a integrar a exposição #OcupaSacy.
“Você faz um filme para quê?”
Concluir a montagem não encerrou o trabalho. Uma pergunta ouvida por Rudá recolocou o propósito do documentário em discussão: “Você faz um filme para quê? Para deixar na prateleira da estante ou para botar no mundo?”. A resposta veio na forma de uma circulação apoiada por políticas culturais, que levou Somos Todos Sacys a aproximadamente 30 cidades.
Os realizadores deram à iniciativa o nome de “reflorestamento de sacis”. A proposta era “levar o Saci onde o Saci não estava” e libertar simbolicamente um deles em cada local visitado. A garrafa, usada como objeto cênico, ajudava a abrir espaço para a imaginação. Na história contada às plateias, o recipiente também resolvia um problema logístico: era a maneira de transportar uma criatura silvestre sem despertar a atenção da polícia.
A turnê mostrou que colocar um filme no mundo exige aceitar que ele encontrará públicos diferentes daquele imaginado na sala de edição. Em uma das sessões iniciais, uma criança anunciou em voz alta, depois de cerca de meia hora: “Eu não aguento mais”. O comentário ensinou aos diretores que seria necessário adaptar a experiência, dividir a exibição e conversar com a plateia.
Foi assim que os cineastas, acostumados ao lugar de quem permanece atrás da câmera, tornaram-se personagens. Em determinadas cidades, Rudá assumia a figura de um pesquisador ou caçador de sacis, enquanto Sylvio participava da encenação que preparava o público para o documentário. “A gente fez isso umas dez vezes”, estimou Rudá. O improviso não diminuía o filme: criava uma passagem entre a linguagem da obra e o repertório das crianças.
Depois da apresentação, elas formavam fila para encostar o ouvido na garrafa. Não havia nada visível dentro dela, mas o gesto de escutar completava o pacto proposto pela narrativa. “A gente via o olho da criança brilhando”, contou Rudá. “Ela tinha visto o Saci.” Ao rever a prática, os diretores também reconheceram uma questão que não formularam na época: por que o Saci precisaria permanecer preso? A autocrítica evidencia que a cultura popular não é um conjunto imóvel de símbolos, mas um campo no qual os sentidos e as responsabilidades também se renovam.
Ruth Guimarães e a autorização para contar
Uma das presenças decisivas do documentário surgiu de um encontro não planejado. Durante uma festa em Silveiras, a equipe conversou com um homem que inicialmente reagiu com desconfiança à abordagem. Ao saber que o grupo produzia um filme sobre o Saci, ele mudou de postura e afirmou que os realizadores precisavam procurar a escritora Ruth Guimarães.
Autora de uma obra marcada pela cultura e pela oralidade do Vale do Paraíba, Ruth se tornaria o fio condutor de Somos Todos Sacys. Para Rudá, a conversa com ela reorganizou tudo o que havia sido reunido até aquele momento: “Quando a gente encontrou a Ruth, eu falei: ‘O filme está pronto’”. Mais tarde, a escritora também participou de exibições e encontros, ocupando um lugar que os diretores faziam questão de lhe entregar.
Ruth ofereceu à equipe uma orientação que se tornou método de pesquisa e princípio de relação com os narradores: “Se você quer saber uma história de Saci, conte primeiro. Porque os que não acreditam vão embora, e os que acreditam e têm uma história para contar vão se sentir autorizados a dividir a história com você”. A frase desloca o pesquisador da posição de quem apenas coleta informações. Antes de pedir uma memória, ele precisa se expor, oferecer uma narrativa e criar confiança.
Esse aprendizado permitiu aos diretores perceber que uma entrevista sobre o Saci raramente começa pelo Saci. Ela pode atravessar lembranças de infância, trabalho, família, medo, mata, religião e acontecimentos dolorosos antes de chegar à personagem. Em uma das visitas, por exemplo, a equipe foi recebida por um homem com uma foice. Só depois soube que a família vivia um luto recente. A situação revelou o risco de entrar em uma comunidade sem conhecer inteiramente o contexto e reforçou a necessidade de escuta e cuidado.
Rudá recordou que aprendeu a não preencher rapidamente os silêncios. “A memória vai caminhando”, explicou. “Se você deixa a pessoa falar, em algum momento ela chega no Saci.” A oralidade, nesse sentido, não funcionou apenas como tema do documentário. Ela ensinou aos cineastas outra forma de filmar.
Onde se conta uma história, nasce um Saci
No começo da pesquisa, as diferenças entre os relatos pareciam um problema. Rudá procurava uma espécie de essência da personagem e estranhava encontrar descrições incompatíveis. Em um lugar, o Saci tinha determinada aparência; em outro, agia de maneira completamente diferente. Foi uma frase de Wilson Nakamoto que ofereceu a chave para compreender essa variação: “Onde você conta uma história, você cria um Saci”.
Em vez de medir cada narrativa por sua fidelidade a um modelo, o filme passou a observar a potência criadora do ato de contar. “Está aí a chave para a diversidade dos sacis”, afirmou Rudá. A personagem existe justamente porque pode ser refeita por cada voz, comunidade e circunstância. A imaginação não corrompe uma versão original: ela mantém a história em circulação.
Essa descoberta também mudou a maneira de os diretores pensarem o Brasil. Sylvio observou que a leitura presente no filme tem marcas de seu tempo e de uma juventude que ainda buscava explicações mais totalizantes para a formação nacional. Quinze anos depois, os dois reconhecem novas camadas, tensões e perguntas que uma eventual obra contemporânea precisaria enfrentar. “A gente tinha uma visão mais ingênua, mais romântica”, avaliou Rudá.
A revisão não os levou a renegar o documentário, mas a tratá-lo como registro de um processo. Para Sylvio, o desafio continua sendo afirmar a pluralidade brasileira sem apagar conflitos nem substituir as próprias narrativas pelo consumo exclusivo de mitologias estrangeiras. “Podemos conhecer os outros, claro, mas jamais apagando os nossos”, defendeu. E acrescentou: “O vácuo é terrível”. Quando artistas e instituições deixam de disputar as imagens do país, outras representações ocupam esse espaço.
É nesse contexto que ganha força a afirmação que resumiu a conversa: “O Brasil não é um Saci, são vários”. A frase não propõe apenas multiplicar versões de uma criatura folclórica. Ela reconhece que o país é feito por muitas experiências, vozes e formas de narrar, impossíveis de reduzir a um único retrato.
“Cinema se faz com os amigos”
Ao percorrerem os créditos e as histórias da produção, Rudá e Sylvio insistiram no caráter coletivo do trabalho. Câmeras emprestadas, acolhimento nas cidades, música, animação, montagem, pesquisa e produção de campo formaram uma rede sem a qual o documentário não existiria. “Cinema se faz com os amigos”, repetiram durante a live.
Sylvio ampliou a ideia: “Cinema é um trabalho coletivo, de vários artistas; é a junção de almas, corações e mentes”. A formulação ajuda a entender por que a memória dos realizadores não se organiza apenas em torno de decisões estéticas. Eles lembram pessoas, mesas compartilhadas, estradas, imprevistos e soluções concebidas em conjunto.
Essa rede não terminou com a estreia. Projetos posteriores, como a exposição #OcupaSacy e iniciativas de pesquisa, comunicação e criação inspiradas pelo personagem, prolongaram os encontros iniciados pelo filme. Durante a conversa, os diretores reconheceram inclusive trabalhos mais recentes como “filhos do documentário”: desdobramentos que não repetem a obra, mas continuam a fazer perguntas a partir dela.
Por isso, os 15 anos de Somos Todos Sacys foram apresentados menos como uma comemoração encerrada no passado do que como uma oportunidade de observar o caminho aberto desde 2005. O filme cumpriu sua tarefa cada vez que levou alguém a ouvir outra história, lembrar de um relato familiar ou inventar seu próprio Saci. “A história continua”, concluiu Rudá. Se cada narrativa cria uma nova personagem, o documentário permanece inacabado da melhor maneira possível: ainda há muitos sacis — e muitos Brasis — por contar.
Somos Todos Sacys tem direção e roteiro de Rudá K. Andrade e Sylvio do Amaral Rocha, produção da Confraria Produções e coprodução da STV. O documentário pode ser assistido integralmente no Vimeo. Informações sobre sua estreia e a mostra Visões de Saci, realizada no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, também estão disponíveis em registro publicado em 2006.