“Vamos ver muitos filhos do Somando Visões por aí”: primeira edição termina formando uma rede pelo folclore

Anderson Awvas, Andriolli Costa e Mikael Quites revisitaram a programação de 2017, reconheceram os erros da estreia e defenderam pesquisa, colaboração e continuidade para os projetos culturais

O Somando Visões nasceu como uma pergunta prática: existia público interessado em acompanhar conversas longas e aprofundadas sobre folclore brasileiro na internet? Em agosto de 2017, o Folclore BR reuniu pesquisadores, artistas, escritores, cineastas, desenvolvedores de jogos, animadores, contadores de histórias e produtores independentes para testar a resposta em transmissões ao vivo, podcasts, textos, ilustrações e vídeos.

No dia 31 daquele mês, o ilustrador e criador do Folclore BR, Anderson Awvas, o jornalista e pesquisador Andriolli Costa e o concept artist Mikael Quites voltaram à tela para avaliar a experiência. Durante quase três horas, eles revisitaram cada tema, falaram das dificuldades técnicas e financeiras, cobraram maior diversidade entre os convidados e perceberam que as lives haviam aproximado pessoas que produziam sobre cultura brasileira sem necessariamente conhecer o trabalho umas das outras.

O encerramento confirmou que o evento valera a pena, mas não como uma fórmula pronta. O principal resultado estava na rede criada e no impulso oferecido a novos projetos. “Tenho certeza de que vamos ver muitos filhos do Somando Visões por aí: gente que se inspirou, ouviu as lives e quer fazer ou mudar seus trabalhos por causa disso”, afirmou Andriolli. “É só o começo mesmo.”

Um mês inteiro tratado como projeto-piloto

A ideia começou nas conversas entre Anderson, Andriolli e Mikael. Os três já trocavam referências e discutiam folclore quando decidiram levar o encontro para uma transmissão pública. Anderson criou a identidade visual, procurou convidados, organizou a divulgação e iniciou a programação sem experiência anterior com lives.

“O mês de agosto foi um gigantesco teste para a gente ver se funcionava, se teria gente interessada em falar sobre isso, conhecer novos projetos e divulgar o próprio trabalho”, contou. O primeiro encontro, É tudo folclore, durou quase três horas. Quando a transmissão terminou, os participantes continuaram conversando por mais meia hora, como se ainda estivessem no ar.

O debate de abertura forneceu um vocabulário para o restante do evento. Um pequeno texto, repetido no início das lives, situava o folclore para além de mitos e lendas. “São todos os saberes populares. São coisas que falam com a gente e falam da gente”, explicou Andriolli. A definição marcava a posição do projeto diante de um termo frequentemente reduzido a personagens fantásticos, brincadeiras escolares ou conteúdos infantis.

À medida que a programação avançava, o caráter experimental aparecia na duração das conversas, nos convidados que não conseguiam se conectar e nas dificuldades para acompanhar simultaneamente a transmissão e o chat. Também se manifestava na liberdade de testar linguagens. Houve mesas temáticas, apresentação musical, discussão de obras, podcast ao vivo, materiais enviados por parceiros e sorteios.

Quando uma espectadora perguntou se as horas poderiam valer como atividade acadêmica, os organizadores perceberam que o conjunto já se aproximava de um seminário online. “A gente juntou pessoas do Brasil inteiro para falar sobre folclore, cada uma com um tema específico, e falou de coisas muito profundas”, avaliou Anderson. Aquilo que começara como uma sequência informal de lives adquiria consistência de arquivo e formação.

Ouvir povos indígenas além do mês de agosto

Entre os encontros retomados no encerramento, Índio não é folclore, com Denilson Baniwa, ocupou um lugar especial. Anderson contou que a mesa estava em seus planos antes mesmo da definição do restante do evento. Ele procurou Denilson pessoalmente durante uma atividade de literatura indígena e apresentou o convite.

A conversa ajudou os organizadores a rever a própria linguagem sobre representatividade. Não se tratava de “dar voz” a quem já fala e produz conhecimento, mas de reconhecer lugares de autoria e escuta. “Talvez seja colocar as pessoas em seu devido lugar”, refletiu Anderson. O passo seguinte seria convidar profissionais indígenas, negros, mulheres e pessoas LGBTQIA+ para falar sobre qualquer assunto, e não apenas sobre identidades marcadas pela diferença.

Andriolli relacionou a discussão ao livro O Saci Verdadeiro, de Olívio Jekupé. Quando o escritor Guarani apresenta como verdadeiro um Saci indígena e com duas pernas, parte do público entende que ele estaria tentando invalidar todas as outras versões. O sentido, argumentou o pesquisador, é outro: “É o Saci verdadeiro porque é o Saci com o qual ele se relaciona, o Saci que está ali e habita aquele mato de verdade”.

A palavra não estabelece uma competição entre um personagem legítimo e outros falsos. Expressa a relação de uma comunidade com uma presença que integra sua experiência. “Essa é a sutileza do ouvido que a gente tem que ter quando conversa com esses povos”, observou Andriolli.

Uma história contada por Denilson expôs as consequências da representação escolar. Uma criança teria dito à mãe que indígenas não existiam de verdade, assim como o coelhinho da Páscoa. Para Anderson, o episódio não deveria ser usado para culpar isoladamente professores ou escolas. Ele revelava um sistema que concentra o tema em datas comemorativas, imagens do passado e músicas estereotipadas.

“A criança está sendo sincera. Ela realmente não entendeu que uma pessoa indígena pode estar na cidade”, disse. A mesa deixou como proposta para futuras edições a participação de educadores capazes de discutir o que já fazem em sala e quais caminhos podem substituir a apresentação episódica e folclorizada dos povos originários.

Quem publica também se torna referência

Pesquisa e responsabilidade atravessaram as mesas de animação, literatura, jogos e ilustração. O trabalho de Otoniel Oliveira em Icamiabas, por exemplo, foi lembrado por sua aproximação com comunidades indígenas. A série Juro que Vi, produzida pela MultiRio, envolveu crianças na construção das narrativas e registrou seus nomes nos créditos.

Para Mikael, essa preocupação importa porque qualquer criador pode se tornar fonte para outra pessoa. “Todo mundo pode ser uma referência. Se você está produzindo conteúdo, estudando e colocando sua opinião, você é uma referência”, afirmou. Uma postagem aparentemente despretensiosa pode aparecer numa pesquisa como se fosse a descrição definitiva de um personagem.

“Nós somos responsáveis por tudo o que a gente escreve e posta”, completou Anderson. Isso não significa que toda obra precise alcançar uma pesquisa impossível ou aguardar autorização para existir. Exige que o autor identifique de onde partiram suas escolhas e não apresente uma invenção particular como tradição antiga.

O exemplo do “Saci biônico” apareceu para mostrar que a pesquisa não proíbe a liberdade criativa. Um artista pode transformar o personagem, desde que pense por que aquela alteração é necessária e como se relaciona com as histórias anteriores. “Não estamos proibindo. Só acho que você tem que buscar uma referência e dizer por quê”, explicou Anderson.

Andriolli citou Neil Gaiman para defender as restrições como exercício de criação. Ao recontar narrativas nórdicas, o escritor preserva acontecimentos fundamentais e utiliza os vazios para imprimir seu estilo. O reconhecimento do leitor nasce justamente da combinação entre uma base compartilhada e uma solução nova.

Mikael concordou a partir de sua experiência como artista: “Quando me limitam com um briefing, uma referência ou uma pesquisa, eu me sinto mais vivo para criar”. Em vez de impedir o trabalho, esses limites funcionam como guias. A liberdade absoluta, acrescentou, pode deixar o criador sem direção.

Entre a animação infantil e o terror

A programação revelou dois caminhos recorrentes nas adaptações audiovisuais do folclore. De um lado estavam obras voltadas à infância, como Liga da Mata, Icamiabas, Além da Lenda e Juro que Vi. Do outro, filmes e histórias de terror, muitas vezes interessados em sangue, monstros e violência.

A mesa sobre animação mostrou que produzir para crianças não precisa significar empobrecer narrativas. Andriolli lembrou que o público infantil muda rapidamente e reconhece quando uma obra o trata de maneira condescendente. “Tem outras formas de trabalhar com crianças sem tratá-las como se fossem recém-nascidas”, afirmou.

As integrantes do grupo Contação da Rua ofereceram um exemplo ao cantar, contar histórias e conversar sobre educação. A apresentação alcançava as crianças sem excluir pais e outros adultos. “É uma coisa que sai daquele universo e fica mais universal”, avaliou Mikael.

No campo do terror, os participantes lembraram trabalhos de Roberta Cirne, do Sombras do Recife; Ikarow, de Rio Negro e a Bruxa; Márcio Benjamin, de Maldito Sertão; e Beto Beltrão, de O Recife Assombrado. Os projetos utilizavam assombrações e narrativas locais para recuperar a memória de casas, bairros e cidades.

O terror, porém, também concentra algumas das versões mais preconceituosas de personagens populares. Se uma criatura ligada a determinada comunidade aparece apenas como maligna ou monstruosa, a adaptação pode repetir antigas violências. “Como é que você trabalha isso com respeito ao mesmo tempo em que está falando de um personagem que mata, persegue e assusta?”, perguntou Anderson.

Para Mikael, não bastava produzir uma sucessão de sustos. O gênero também pode falar de preconceitos, corrigir formas de violência e atualizar a antiga função pedagógica das narrativas de medo. O desafio é transformar o material sem retirar dele a possibilidade de produzir reflexão.

Folclore não substitui a história que se deseja contar

A conversa com o produtor Marcel Izidoro, sobre o mercado audiovisual, levou Mikael a outra conclusão: uma obra não deve começar apenas com a vontade de encaixar personagens folclóricos. Primeiro, o autor precisa saber o que deseja comunicar.

“Antes de pensar ‘vou usar isso ou aquilo do folclore’, é preciso saber o que você quer falar com o conteúdo”, disse. Os elementos tradicionais entram porque ajudam a desenvolver a mensagem e já mobilizam imagens presentes no repertório social. O folclore deixa de ser decoração e passa a integrar o sentido da obra.

O filme O Diabo Mora Aqui foi destacado porque não interrompe a narrativa para anunciar cada referência. Quem conhece determinadas histórias percebe as camadas; quem não conhece ainda consegue acompanhar o conflito. “Você não precisa dar nome para ninguém. Se você conhece, beleza. Se não conhece, beleza também: tem o contexto”, resumiu Andriolli.

Os participantes também discutiram a necessidade de apresentar uma obra ao mercado por comparações reconhecíveis. Chamar uma animação amazônica de “Meninas Superpoderosas brasileira” pode parecer redutor, mas ajuda alguém a compreender rapidamente uma proposta ainda desconhecida. Depois da entrada, a obra precisa mostrar aquilo que só ela possui: o Ver-o-Peso, as garrafadas, as linhas de ônibus, os modos de falar e viver.

“O mercado não é uma pessoa, não é um grande empresário atrás de uma mesa. O mercado é uma máquina; é todo mundo junto fazendo”, afirmou Anderson. Saber divulgar não elimina a invenção. Ajuda o projeto a encontrar público, parceiros e financiamento num ambiente em que as produções brasileiras já enfrentam desconfiança antes mesmo de serem vistas.

Projetos precisam continuar dizendo que existem

A mesa sobre jogos colocou a criação diante de editais, financiamento coletivo, planejamento e comunicação com o público. Projetos como Arani, Guerreiro Folclórico e Cafundó mostraram que uma boa ideia não elimina o tempo necessário para formar equipe, preparar documentos, construir protótipos e buscar recursos.

“A gente tem que ficar com os pés no chão, aterrissar e fazer o planejamento”, resumiu Mikael. Comparar uma produção independente brasileira com um grande jogo internacional ignora diferenças de equipe, orçamento, tecnologia e tempo. Também pode desmobilizar criadores antes que encontrem um escopo possível.

Anderson criticou a ideia de que editais seriam caminhos fáceis ou pouco concorridos. Projetos visualmente atraentes podem perder por falhas documentais, enquanto propostas bem estruturadas avançam sem apresentar artes espetaculares. “Não é de uma hora para outra. É muito trabalho”, disse.

Depois da aprovação, a responsabilidade continua. Um projeto que anuncia uma campanha e reúne seguidores não pode desaparecer por anos sem responder ao público. Mesmo quando não há imagens novas, os criadores precisam explicar o estágio da produção. “Você tem que continuar dizendo que existe”, afirmou Anderson.

Essa comunicação não serve apenas aos apoiadores. Pode fazer uma empresa, editora ou instituição conhecer a proposta antes de seu lançamento. “O mínimo é responder às pessoas e falar o que está acontecendo”, reforçou. Credibilidade, nesse caso, também é uma forma de patrimônio construída ao longo do processo.

Folclore também permite discutir aborto

O podcast Popularium ao vivo levou o evento a um tema inesperado. Partindo da Porca dos Sete Leitões, Andriolli, Mariana Bandarra e Pablo de Assis discutiram aborto, sofrimento, punição e controle sobre o corpo feminino. O encontro recebeu avaliações negativas na plataforma, interrupções e cobranças do público, mas mostrou a capacidade do mito de participar de debates contemporâneos.

Andriolli explicou que, ao escolher o tema, considerou indispensável a presença de uma mulher. Sem Mariana, dois homens conduziriam uma conversa sobre aborto e restringiriam as experiências em jogo. A convidada deslocou a leitura moralizante da porca punida e perguntou de onde vinha seu sofrimento.

Para Anderson, encerrar a sequência principal com uma discussão séria foi importante para enfrentar a ideia de que folclore seria sinônimo de brincadeira, mentira ou conteúdo infantil. “Mesmo brincando, nós estamos falando sério. Folclore não é só brincadeira”, afirmou.

A distinção não diminui histórias para crianças ou manifestações lúdicas. Impede que elas sejam usadas como desculpa para retirar do campo suas dimensões políticas, religiosas, econômicas e sociais. “Esse pacote que a gente fez com o Somando Visões foi um pacote sério. Você pode levar essas discussões para a escola”, defendeu Anderson.

Os erros que a próxima edição precisaria enfrentar

O balanço reconheceu que a programação não alcançou a diversidade desejada. Anderson tentou ampliar a presença de mulheres, pessoas negras, indígenas e LGBTQIA+, mas nem todos os contatos se concretizaram. A agenda foi organizada em pouco tempo, algumas pessoas não responderam e outras não conseguiram participar nos horários disponíveis.

“O mérito foi ter tentado”, avaliou Mikael, sem transformar a tentativa em resultado suficiente. A primeira edição deixava contatos e perguntas para o planejamento seguinte. Também mostrava que nenhuma programação consegue reunir todos os profissionais relevantes, mas pode construir critérios mais claros para não repetir ausências.

Houve ainda problemas de ritmo, mediação e tecnologia. Algumas conversas tinham apenas duas pessoas, o que dificultava acompanhar o chat. Outras reuniram muitos convidados e exigiram atenção para evitar atropelos. A maratona de lives em dias seguidos dispersou parte do público e sobrecarregou a organização.

O trabalho ficou concentrado em Anderson, responsável por artes, convites, postagens, transmissões e boa parte da produção. “Eu tenho muita dificuldade de pedir ajuda”, reconheceu. O evento mostrou, ao mesmo tempo, que a colaboração já existia e precisava ser formalizada. Convidados enviaram vídeos, divulgaram os encontros e ajudaram a conectar projetos.

“A gente não precisa estar produzindo sempre sozinho”, afirmou Andriolli. A rede formada entre participantes e espectadores permitia compartilhar críticas, encontrar profissionais e desenvolver obras com interlocução. “Se a gente estiver em conjunto, caminha muito mais longe.”

Um arquivo para continuar depois de agosto

Ao avaliar a repercussão, Andriolli disse ter encontrado mais interesse pelo folclore do que imaginava. A rejeição parecia vir de “uma minoria que fala bem alto”, enquanto muitas pessoas reconheciam naturalmente histórias, comidas, expressões e práticas populares em suas vidas.

A dúvida era se o tema realmente vivia uma retomada ou se os produtores estavam apenas mais conectados, tornando visíveis trabalhos que antes circulavam separadamente. Anderson comparou a percepção aos carros de determinada cor: depois que alguém repara no primeiro, começa a encontrá-los por toda parte. Os projetos talvez já estivessem na estrada; faltava um espaço comum para vê-los.

O Somando Visões funcionou como esse ponto de encontro. Andriolli descreveu os criadores como “ilhas perdidas” que, reunidas, produziam outra energia. “Isso traz oxigênio e movimentação para o folclore e para todo esse nosso Brasil”, disse.

Mais do que os números imediatos, Anderson valorizou a permanência das gravações. “O que importa é que está lá, está feito e todo mundo pode ter acesso no YouTube para sempre”, afirmou. Alguém poderia encontrar as conversas cinco anos depois e utilizá-las como referência para um projeto ainda inexistente em 2017.

Na despedida, Andriolli chamou Anderson de “agitador cultural” por conseguir reunir tantas pessoas em torno de um conteúdo compartilhado. O elogio registrava uma mudança de escala: o Folclore BR já não era apenas o trabalho visual de um ilustrador, mas uma plataforma capaz de aproximar pesquisa, criação, mercado e cultura popular.

O encerramento não se despediu do folclore. Terminou com a promessa de manter as portas abertas durante todo o ano e voltar ao mês de agosto com mais planejamento, apoio e participação coletiva. O projeto-piloto havia cumprido sua função: demonstrar que havia público, criadores e perguntas suficientes para que a conversa continuasse.

A live de encerramento da primeira edição do Somando Visões foi transmitida em 31 de agosto de 2017, com Anderson Awvas, Andriolli Costa e Mikael Quites. As gravações do projeto estão reunidas no canal do Folclore BR no YouTube.

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