Uma obra abre caminhos, a outra vem depois”: Andriolli Costa analisa os limites e as potências de Cidade Invisível

Em palestra promovida pelo Meridianum, pesquisador discutiu como o audiovisual pode adaptar personagens do folclore sem apagar suas histórias, funções e vínculos comunitários

Um papão sem forma definida ganhou corpo de porco-do-mato em Cidade Invisível. Segundo o pesquisador Andriolli Costa, a transformação pode ter começado com a leitura apressada de uma hipótese do folclorista Alfredo do Vale Cabral: uma possível relação etimológica entre Tutú e caititu acabou interpretada como se o personagem tivesse a aparência do animal. O exemplo mostra como uma escolha aparentemente simples de caracterização pode carregar décadas de citações, equívocos e adaptações.

O caso foi apresentado em 8 de junho de 2021, durante a palestra Cidade Invisível: os mitos brasileiros e os desafios nas adaptações midiáticas, transmitida pelo Meridianum, núcleo de pesquisa ligado à Universidade Federal de Santa Catarina. Com mediação e debate do pesquisador Rodolpho Bastos, Andriolli analisou a primeira temporada da série criada por Carlos Saldanha para a Netflix e respondeu a perguntas do público sobre Saci, Curupira, Iara, Cuca, Tutú, lobisomens, culturas indígenas e criação ficcional.

A conversa não tentou decidir se a produção era simplesmente boa ou ruim. Andriolli criticou problemas de roteiro e representação, mas reconheceu que uma série de grande alcance pode aumentar o interesse do público e abrir espaço para outros projetos. “Uma obra não vai resolver todos os problemas coloniais do mundo. Isso não existe. É um conjunto de iniciativas. Uma obra abre caminhos, aí a outra vem depois”, afirmou.

O folclore não cabe numa lista de criaturas

Antes de entrar na série, Andriolli propôs imaginar o folclore como uma árvore. A tradição forma a raiz; o tronco representa o campo folclórico; e os galhos reúnem diferentes manifestações do saber popular. Mitos e lendas ocupam apenas uma dessas ramificações, a da literatura oral, ao lado de causos, parlendas, cantigas e outras narrativas.

Os demais galhos incluem artesanato, pratos típicos, festas, crenças, medicina popular e modos cotidianos de agir. O chá de boldo para o estômago e o chá de quebra-pedra são exemplos tão pertinentes quanto o Saci ou a Caipora. “Aqui no Brasil, a gente tem essa tendência a vincular folclore imediatamente a mitos e lendas”, observou. Essa redução ajuda a explicar por que tantas adaptações começam e terminam num catálogo de criaturas.

O pesquisador definiu o folclore como um conjunto de “modos de sentir, pensar e agir” transmitidos pela tradição e associados à identidade de um grupo. Isso inclui o que uma pessoa faz, mas também aquilo que evita. Quem deixa de sair durante a Quaresma porque o lobisomem estaria solto organiza parte da rotina a partir de um saber compartilhado.

A continuidade não exige que a manifestação permaneça idêntica. Ela precisa circular, produzir reconhecimento e ultrapassar o instante. “Não é folclore o modismo. Não é folclore alguma coisa passageira que não impacta o conhecimento popular”, explicou.

Não existe uma única mitologia indígena brasileira

Essa atenção aos grupos levou Andriolli a questionar o uso genérico da expressão “mitologia brasileira”. Ao tratar de narrativas indígenas, ele recomenda identificar os povos envolvidos: mitos Guarani, Baniwa, Pataxó ou pertencentes a outras tradições específicas. Elementos simbólicos podem aparecer em diferentes comunidades, mas não formam automaticamente um sistema único.

“Quando a gente vai trabalhar com as culturas indígenas, é importante trabalhar nome a nome”, afirmou. A categoria ampla pode apagar heróis fundadores, relações com o território e modos distintos de compreender a pessoa, a natureza e o sagrado. Também pode repetir a ideia de que centenas de povos originários formariam uma cultura homogênea.

Para o pesquisador, Cidade Invisível teve estrutura e recursos para enfrentar essa questão, mas preferiu contorná-la. Ao apresentar um muiraquitã, por exemplo, a série o chamou de amuleto das “guerreiras da lua”, expressão genérica que evita localizar o objeto em tradições e territórios concretos. A origem ficcional do Curupira seguiu caminho semelhante, com um indígena sem povo identificado.

“Se a gente vai trabalhar com uma inspiração indígena, de que povo é? De onde vem?”, perguntou. O problema não seria inserir ficção na tradição, mas utilizar uma imagem indígena indiferenciada justamente quando a obra poderia mobilizar pesquisa, consultoria e profissionais de diferentes origens.

Essa limitação se torna mais evidente diante da composição do elenco e das equipes. Andriolli reconheceu que produtores independentes frequentemente não possuem dinheiro ou contatos para contratar consultorias especializadas. “Esse não era o problema de Cidade Invisível”, ponderou. Numa produção da Netflix comandada por Carlos Saldanha, a falta de recursos não poderia explicar a opção por “fingir que o problema não existe”.

Uma série que decepciona, mas também abre mercado

Andriolli chegou à série esperando uma produção pasteurizada e se surpreendeu positivamente com o primeiro episódio. A avaliação mudou ao longo da temporada. “Era melhor do que eu esperava, mas ainda assim decepciona”, resumiu.

Parte da frustração veio da condução narrativa, que perde ritmo depois do segundo episódio e concentra movimentos decisivos no final. Outra parte está nas oportunidades desperdiçadas de relacionar o título da série às diferentes formas de invisibilidade existentes no país.

O Rio de Janeiro não foi considerado um problema em si. “É possível falar de folclore em qualquer lugar do Brasil, porque o folclore não está circunscrito ao interior, ao Amazonas ou a qualquer lugar específico. O folclore atravessa todos nós”, afirmou. A crítica recai sobre a escolha de um cenário reconhecível pelo mercado internacional sem que a primeira temporada mostre mais territórios e experiências brasileiras.

O pesquisador imaginou uma alternativa para a Cuca. Em vez de uma personagem que deixa outro lugar para abrir um bar no Rio, ela poderia ser uma presença anterior à própria cidade. Sua caverna permaneceria no mesmo ponto enquanto o espaço urbano crescia ao redor, até se transformar no estabelecimento visto pelo público. “Esses seres já estavam. Nós fomos até lá, e a cidade foi se formando em torno deles”, sugeriu.

A solução alteraria a relação entre mito e cidade. A personagem não seria deslocada para servir à trama; a urbanização é que precisaria negociar com uma presença mais antiga. A série infantil Hilda, lembrada durante a conversa, trabalha ideia semelhante ao mostrar uma cidade construída sobre o território de um troll.

Apesar das limitações, Andriolli evitou tratar a produção como um fracasso sem consequências. “Ela decepciona, mas ela existe. E, por existir, dá uma abertura de mercado que pode levar a boas outras séries e bons outros produtos”, disse. A expectativa é que temporadas e projetos posteriores ampliem o mapa e enfrentem questões que a estreia deixou de lado.

O Saci entre a liberdade e a invisibilidade social

Entre os personagens da série, o Saci foi considerado o mais bem adaptado. Isac vive numa ocupação urbana e aproxima duas invisibilidades: a dos seres do imaginário e a de pessoas que existem diante da sociedade, mas raramente são enxergadas. “Elas são invisíveis não porque são mágicas, mas porque a gente não olha para elas”, afirmou Andriolli.

A série também incorporou uma narrativa contemporânea segundo a qual o Saci teria sido um homem escravizado que arrancou a própria perna para escapar das correntes. Não se trata de uma origem tradicional registrada desde os primeiros relatos, mas de uma história em circulação pelo menos desde o começo dos anos 2000.

Para Andriolli, a imagem ganha força quando interpretada simbolicamente. “O Saci é um mito de liberdade”, afirmou. Cortar a própria perna não deve ser lido apenas como solução prática para uma fuga: “Significa que a liberdade não vem sem sacrifício”. A narrativa pergunta o que alguém estaria disposto a abandonar para deixar de viver acorrentado, inclusive por prisões sociais e simbólicas.

A ausência da perna também não deveria ser reduzida automaticamente a incapacidade. O Saci concentra sua potência no corpo unípede. Há uma proximidade visual entre um ser apoiado num único ponto e o funil do redemoinho que toca o chão. “Ele não ter uma perna é o seu poder. O sacrifício que ele fez lhe deu poder”, explicou.

Por isso, Andriolli questionou a necessidade de uma prótese para Isac. A crítica não desconsidera as experiências de pessoas com deficiência, mas observa que, dentro da lógica do mito, a falta da perna já é parte de uma corporeidade completa e poderosa. Uma adaptação cuidadosa precisaria decidir se a prótese amplia essa leitura ou se apenas tenta normalizar o personagem.

O Curupira não pode abandonar sua função

O Curupira recebeu avaliação diferente. Na série, Iberê aparece como um homem em situação de rua, usa cadeira de rodas, acumula sacolas pelo corpo e vive afastado da mata que deveria proteger. A trama não explica de maneira convincente quando nem por que ele deixou o território.

“Quem abandonaria a mata seríamos nós, não o Curupira, que essencialmente é o protetor”, argumentou Andriolli. Se o personagem permaneceu na floresta até a morte do homem que se tornaria o Corpo-Seco, ocorrida poucas décadas antes, seria necessário mostrar o que o fez desistir justamente naquele momento — e não durante séculos de colonização, exploração e avanço urbano.

A questão mais importante não é conservar uma aparência considerada original. Os primeiros registros coloniais do Curupira remontam ao século XVI e não descrevem uma forma física estável. Ele era uma presença da mata que exigia respeito, recebia oferendas e punia quem entrava no território sem permissão. Características hoje célebres, como os pés virados para trás, foram incorporadas ao longo do tempo.

“É sempre problemático falar ‘o Curupira não era assim’. Não era quando?”, provocou. O mito é dinâmico e pode assumir diferentes corpos. O que atravessa muitas narrativas não é uma ficha visual, mas a função de regular a relação entre a comunidade e o território. O Curupira pune quem mata mais animais do que precisa ou abate uma fêmea com filhotes.

Uma adaptação urbana poderia preservar essa função sem repetir literalmente a floresta. “Se eu quero botar o Curupira numa cidade, o que ele está regulando? O que ele protege na cidade?”, perguntou Andriolli. A resposta poderia envolver rios canalizados, áreas verdes, animais urbanos, moradia ou outras disputas territoriais. Em Cidade Invisível, porém, ele teria sido levado ao espaço urbano sem ganhar uma função equivalente.

Quando uma hipótese transforma um papão em porco

O Tutú tornou visível outro risco das adaptações: uma informação repetida sem retorno às fontes. Nas narrativas populares, ele pertence à família dos papões, seres associados ao medo de devorar crianças. Sua ameaça não depende de uma anatomia fixa. “A criança não precisa de forma. Ela pode simplesmente entender o ato de comer. Isso é suficiente”, explicou Andriolli.

Em uma obra de Vale Cabral, aparece a hipótese de que o nome Tutú teria relação etimológica com caititu, o porco-do-mato. Segundo o pesquisador, uma leitura posterior converteu a aproximação entre palavras numa descrição corporal. A informação circulou, chegou à consultoria da série e ajudou a produzir o personagem visto na tela.

“Alguém entendeu isso errado e escreveu que o Tutú tinha forma de porco-do-mato. É por isso que, na série, eles fazem o Tutú ser um porco-do-mato”, afirmou. A adaptação ainda o transformou num homem branco de grande porte que atua como segurança do bar da Cuca. Para Andriolli, a decisão produz novos problemas: um mito de matriz africana perde esse vínculo, mas escalar um homem negro para o papel de capanga descartável também exigiria cuidado.

O caso não oferece uma solução automática. Mostra que representação envolve uma cadeia de escolhas. Forma, raça, profissão, destino na trama e função simbólica precisam ser pensados em conjunto, e não resolvidos pela primeira descrição encontrada numa busca.

Adaptar não é “melhorar” aquilo que já circula

Ao responder a uma pergunta sobre a mistura de mitos de diferentes culturas, Andriolli colocou a pesquisa como primeiro cuidado. “A gente acha que conhece. Achar que conhece não é suficiente”, afirmou. Ler com atenção, ouvir especialistas e compreender as comunidades relacionadas às narrativas evita que a criação seja conduzida apenas por lembranças escolares ou referências de outras indústrias culturais.

A postura do criador diante da fonte também importa. Quem começa a pesquisa decidido a tornar o material “mais legal” pressupõe que a tradição chegou até o presente por engano. “Não vá tentando melhorar. Aquilo já é instigante, já é envolvente. Não por acaso está aí há tanto tempo e passa geracionalmente”, disse.

Pesquisa não deve funcionar como camisa de força, mas como repertório capaz de produzir ideias menos previsíveis. A comparação entre personagens de diferentes culturas pode funcionar quando identifica funções simbólicas, e não apenas semelhanças superficiais. Andriolli deu como exemplo um encontro entre Loki e Exu: ambos mobilizam aspectos do arquétipo do trickster, embora pertençam a universos e operem de maneiras diferentes.

“Reflita bem sobre as coisas com que você está trabalhando para encontrar esse espelhamento”, aconselhou. Já colocar o Saci ao lado de Eros apenas porque os dois são personagens míticos não cria, por si só, uma relação capaz de sustentar a história.

Conhecimento popular também possui método

A palestra ainda contestou a hierarquia que apresenta o conhecimento científico como verdade e o saber popular como erro a ser superado. Andriolli recordou livros de metodologia que descrevem o primeiro como metódico e o segundo como espontâneo ou incapaz de explicar suas práticas.

“Quem fala isso nunca conversou com alguém do povo”, criticou. Uma pessoa que trabalha com cerâmica conhece etapas precisas da queima, porque alterar o processo pode destruir a peça. Alguém que utiliza marcela para aliviar o estômago pode explicar a prática com exemplos familiares, experiências acumuladas ou fundamentos espirituais. O método existe, ainda que não seja organizado segundo a linguagem de um laboratório.

Rodolpho comparou esse saber ao uso cotidiano de medicamentos. A maioria das pessoas não conhece os mecanismos químicos do remédio que toma, mas reconhece seus efeitos e confia numa rede de especialistas. O mesmo princípio de experiência e transmissão aparece na medicina popular.

Para Andriolli, ciência e folclore não precisam ocupar campos inimigos. “O grande inimigo da ciência e do folclore é a ignorância”, afirmou. Ela se manifesta tanto no corte de bolsas e no ataque à pesquisa quanto na incapacidade de reconhecer a importância da arte, da cultura e dos conhecimentos produzidos por diferentes comunidades.

O Saci também pode sumir com dados do computador

No final, Rodolpho perguntou como os mitos sobrevivem às transformações do cotidiano. Andriolli respondeu a partir do Saci, personagem que permanece reconhecível mais de 150 anos depois de seus primeiros registros escritos.

A permanência não depende de repetir indefinidamente as mesmas travessuras. Por trás delas existe uma potência de liberdade, confusão, deboche e enfrentamento. O Saci derruba o fazendeiro do cavalo e desorganiza o cotidiano porque desafia poderes que continuam presentes, como a exploração econômica e a demonização religiosa.

As ações podem mudar sem que essa postura desapareça. “O Saci está sumindo com o fone de ouvido, está sumindo com os dados do computador, está fazendo seu e-mail não chegar”, exemplificou. Durante as transmissões realizadas na pandemia, qualquer falha de som ou câmera já provocava comentários atribuindo a confusão ao personagem.

Esse movimento não torna o mito menos autêntico. Mostra que ele continua disponível para interpretar experiências novas. “Isso mostra o quanto é um mito muito vivo, muito ativo e muito persistente”, afirmou.

O mesmo cuidado deve orientar o uso da bibliografia. Ao responder se Câmara Cascudo ainda era uma fonte válida, Andriolli comparou seus registros a uma fotografia feita décadas atrás. Ela preserva pessoas, histórias e práticas de determinado momento, mas não prova que tudo permaneça igual no presente. “Ele é uma fonte, mas não deve ser a única”, alertou.

Adaptar, portanto, não significa escolher entre fidelidade absoluta e liberdade sem limites. Significa reconhecer que os mitos já mudam antes de chegar às telas, acompanhar as comunidades que os narram e decidir o que cada alteração produz. Cidade Invisível abriu uma porta importante. O desafio colocado pela palestra é fazer com que as próximas obras atravessem essa passagem com mais pesquisa, diversidade e coragem criativa.

A palestra A Cidade Invisível: os mitos brasileiros e os desafios nas adaptações midiáticas foi transmitida pelo Meridianum UFSC em 8 de junho de 2021. A conversa teve Andriolli Costa como palestrante e Rodolpho Bastos como debatedor.

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