Em live de balanço, Anderson Awvas, Andriolli Costa, Lorena Herrero, Ian Fraser e Mikael Quites revisitam um mês de debates sobre folclore, culturas indígenas, religião, arte, memória e representação
Depois de dez transmissões ao longo de agosto, o Somando Visões 2020 chegou ao fim olhando menos para respostas definitivas do que para as perguntas abertas durante o percurso. Realizada em 31 de agosto, a live de encerramento reuniu o ilustrador e criador do Folclore BR, Anderson Awvas, o jornalista e pesquisador Andriolli Costa, a artista Lorena Herrero (HET), o escritor e dramaturgo Ian Fraser e o ilustrador e concept artist Mikael Quites. Juntos, eles revisitaram a programação e discutiram o que havia mudado em suas próprias maneiras de compreender a cultura popular.
O balanço confirmou a resposta dada na abertura do evento à pergunta “Folclore tem futuro?”. Para Anderson, o tema não pertence a uma vitrine de antiguidades: “O folclore não é só passado. As coisas vêm do passado, mas têm consequências futuras”. Entre personagens fantásticos, brincadeiras escolares, crenças familiares, festas, comidas, modos de falar e disputas políticas, a conversa mostrou um campo vivo, presente tanto nas obras de ficção quanto nos gestos mais íntimos do cotidiano.
Mais do que recapitular cada encontro, a última live apresentou o diálogo como método. A quarta edição colocou na mesma roda pessoas que nem sempre partiam das mesmas definições ou chegavam às mesmas conclusões. “A comunicação, a comunhão, ela não vem do medo”, afirmou Andriolli. O nome do evento, acrescentou Anderson, expressa essa escolha: “É Somando Visões, não subtraindo. A gente quer somar, a gente não quer excluir ninguém”.
Um mês para formular perguntas difíceis
Criado em 2017, o Somando Visões chegou a 2020 como um espaço de revisão permanente. Anderson lembrou que quem voltar às primeiras gravações encontrará versões diferentes dos próprios integrantes do Folclore BR. “Vai encontrar com certeza um Andriolli diferente, um Mikael diferente, vai me encontrar muito diferente”, disse. A mudança, nessa perspectiva, não é sinal de incoerência, mas resultado de pesquisa, convivência e capacidade de escuta.
A programação de agosto levou esse princípio a temas que costumam gerar respostas rápidas nas redes sociais. A live sobre mitologia cristã, com Lívia Carvalho, Renato Machado e Andriolli Costa, foi organizada sob a expectativa de um confronto. O resultado, segundo Anderson, foi o oposto: “A ideia do papo não é fazer a treta. É conseguir diálogo, por mais que as pessoas não concordem”.
O quadrinista Hugo Canuto discutiu a representação dos orixás na cultura pop. Daiara Tukano, Denilson Baniwa e João Paulo Barreto participaram da pergunta “Existe mitologia brasileira?”, mostrando que não há uma única experiência indígena nem uma resposta uniforme sobre os termos usados para nomear cosmologias e narrativas. Alice Pataxó tratou da presença indígena na cultura pop; Luiz Antonio Simas e Otoniel Oliveira entraram no debate sobre símbolos nacionais e brasilidades; e o projeto de animação Eu Sou Caipora apresentou a passagem da reflexão para a criação artística.
O percurso ainda incluiu lobisomens brasileiros, com Lorena, e uma conversa sobre o fantástico nacional, o amazofuturismo e o sertãopunk, com Gabriele Diniz, João Queiroz e Ian Fraser. No encerramento, os participantes não elegeram um único encontro como síntese. Destacaram justamente a possibilidade de colocar diferenças lado a lado e construir uma conversa que não apagasse as tensões.
Lorena apontou a escassez desse tipo de troca no ambiente digital. Segundo ela, as redes se tornaram lugares em que alguém “joga uma verdade e vai embora”, enquanto o debate é reduzido a frases de efeito e sentenças finais. “Para nós como indivíduos, isso não acrescenta nada”, avaliou. Na live sobre mitologia brasileira, mesmo com divergências claras, ela viu a produção de uma conversa possível: “Mais do que tudo, a gente traz visões — e visões diversas”.
“Não é a palavra, é o uso”
Uma das discussões centrais do mês foi o próprio uso da palavra “folclore”. Em parte do debate público, o termo aparece associado a mentira, atraso, exotização ou infantilização. Em outros contextos, designa um campo de estudo e um conjunto amplo de saberes, práticas e expressões populares. A live rejeitou tanto a defesa automática da palavra quanto seu abandono sem investigação.
Lorena retomou uma fala de João Paulo Barreto no encontro sobre mitologia brasileira. Substituir “mito” ou “ser folclórico” por “encantado”, observou, não garante respeito a uma cultura. O mesmo vale para “cosmologia”, termo que também possui uma história acadêmica ocidental. “Não é a palavra, é o uso. É o uso que a gente dá, o que a gente está querendo dizer com isso”, resumiu.
A artista chamou atenção para a distância possível entre vocabulário e prática. Uma pessoa pode dominar os termos considerados mais adequados e ainda assim tratar povos indígenas como objetos exóticos. “Eu posso chamar do que eu quiser, e as minhas ações, as minhas intenções e todo o entorno do meu discurso vão falar por si”, afirmou. Por isso, a mudança de nome não substitui pesquisa, escuta, responsabilidade e atenção às relações de poder envolvidas numa obra.
Anderson também recusou a ideia de que palavras possam ser compreendidas fora da história e do contexto. “Palavras não são o demônio. A gente precisa falar sobre elas”, disse. Quando “folclore” é usado para diminuir uma cultura, produz violência; quando integra um trabalho sério de pesquisa e valorização, assume outro sentido. O problema, para o grupo, não se resolve com uma lista universal de expressões permitidas e proibidas.
Andriolli comparou esse abandono à maneira como conceitos como feminismo e comunismo são deformados pelo senso comum. Se a pesquisa simplesmente cede ao entendimento mais ruidoso das redes, perde a oportunidade de construir conhecimento. “A gente enfrenta esses entendimentos errados porque eles estão errados. A gente constrói saber. Se a gente só abandona as coisas, não está construindo saber; está inventando a roda de novo”, argumentou.
Pesquisa não termina no carimbo de aprovação
A defesa do diálogo não foi apresentada como licença para trabalhar sem cuidado. Ao contrário: os participantes insistiram que nenhuma pessoa, livro ou comunidade pode funcionar como autorização definitiva para uma obra. Ouvir diferentes integrantes de um povo é indispensável, mas uma única opinião não representa toda a diversidade interna de uma cultura.
O mesmo princípio vale para a bibliografia. Autores mudam de posição, conceitos são revistos e textos antigos precisam ser localizados em seu momento histórico. A pesquisa, portanto, não deve procurar apenas uma citação que confirme uma ideia já pronta. Deve comparar fontes, reconhecer divergências e acompanhar as transformações do debate.
Anderson alertou para o desejo de receber “o carimbo de uma pessoa” que validaria uma criação. O que um artista pode obter é uma perspectiva, não uma garantia contra críticas ou erros futuros. A decisão de usar ou não determinado conceito precisa nascer da consciência formada pelo conjunto da escuta. Retirar uma palavra apenas para evitar controvérsia, disse ele, empobrece o processo.
Essa postura também define a relação do Folclore BR com o público. “Isso aqui é construção. Não é vir pedir o carimbo do Folclore BR de que está tudo certo”, afirmou Anderson ao contar a própria trajetória. Quando criou o projeto, em 2013, ele tentava combater a infantilização do folclore recorrendo ao extremo oposto: criaturas violentas, terror e imagens com sangue. Aos poucos, passou a perceber outras dimensões do fantástico e da cultura popular.
Em 2017, as conversas com Andriolli e Mikael deram origem a um olhar mais multifacetado, do qual o Somando Visões se tornou parte. A “nova visão” anunciada no nome inicial do Folclore BR deixou de significar apenas uma estética sombria e passou a designar uma disposição para ampliar perspectivas. “Daqui nós vamos continuar existindo e nos corrigindo, entendendo esse caminho”, afirmou Anderson.
O folclore que mora dentro de casa
Se uma parte do público ainda associa folclore exclusivamente a uma lista de criaturas ensinada na escola, a live propôs começar pela própria experiência. Lorena observou que, diante do tema, muitas pessoas pensam imediatamente em procurar alguém indígena ou negro para falar — como se a cultura popular estivesse sempre localizada no outro. A escuta de grupos historicamente representados de maneira estereotipada é fundamental, mas não elimina outra pergunta: quais tradições já atravessam a vida de quem cria?
“É muito enriquecedor, para sair dos estereótipos, a gente olhar para si mesmo também”, disse Lorena. Relatos sobre a Loira do Banheiro mostraram essa potência. Ao publicar uma ilustração inspirada na versão contada em sua escola, a artista recebeu histórias de pessoas de diferentes lugares, cada qual com detalhes próprios. O personagem compartilhado não impediu que cada comunidade produzisse sua variante.
Mikael sugeriu transformar esse olhar numa live chamada “Minha casa, meu folclore”. Em sua própria estante, identificou uma carranca e outros objetos de proteção. Alguns estavam ligados diretamente à religião; outros, à confiança herdada de que a presença daquele objeto ajuda a guardar a casa. A distinção não era uma fronteira rígida, mas uma oportunidade de perceber como fé, tradição e memória convivem no espaço doméstico.
Ian trouxe um exemplo ainda mais íntimo. Desde criança, ele bate três vezes na própria cabeça quando pensa em algo ruim e não encontra madeira por perto. O gesto nasceu num período em que vivia com o pai e sentia saudade da mãe e do irmão. Sem querer explicar sua tristeza, adaptou a prática de bater na madeira e a carregou para a vida adulta. “É uma coisa que está dentro do meu ser e nasceu de uma coisa que é folclórica”, contou.
Andriolli relacionou o relato à memória familiar. Em seu documentário Raízes, as conversas sobre os avós fizeram espectadores quererem telefonar para os próprios familiares e perguntar de onde vinham. “Você é suas lembranças, a sua vivência”, afirmou. Quando o repertório popular deixa de ser um objeto distante e se conecta à experiência, ganha impulso para circular: “O folclore está com você. Quando ele está com você, você tem vontade de contar”.
Da criatura à brincadeira no recreio
O encantamento por sacis, curupiras, caiporas e lobisomens pode ser uma porta de entrada, mas não esgota o campo. Ian descreveu o momento em que as criaturas passam a integrar um organismo maior, composto também por modos de falar, rimas, canções, receitas, jogos, crenças e gestos cotidianos.
As brincadeiras escolares oferecem um exemplo visível. Crianças brincam de pique-pega, pique-esconde, amarelinha e jogos de mãos sem precisar classificá-los como folclore. Cantam versos recebidos de outras gerações mesmo quando já não compreendem todas as palavras. No banheiro, repetem histórias da loira que aparece diante do espelho. “Nunca me passou pela cabeça que isso tinha a ver com folclore”, admitiu Ian ao recordar a própria infância.
Para Anderson, a continuidade dessas práticas não depende de uma instituição que as autorize. Ao ver crianças repetindo a história da Loira do Banheiro, ele reconhece algo que existia antes delas e provavelmente seguirá depois: “Isso está sobrevivendo antes de mim e vai continuar, porque tem algo que está conversando com a criança”. O medo, a dúvida e o acordo silencioso entre quem conta e quem escuta ajudam a manter a narrativa em movimento.
Essa ampliação também oferece um caminho para a criação brasileira. Anderson observou que muitos artistas desejam reproduzir referências norte-americanas, mas sentem vergonha quando o resultado parece “brasileiro demais”. O problema não é consumir obras estrangeiras, e sim tratá-las como as únicas formas legítimas de imaginação. “Você pode ser a sua própria referência na sua vivência e colocar isso dentro do trabalho também”, defendeu.
O convite não se transforma em obrigação nacionalista. Nenhum escritor brasileiro precisa abordar o folclore, e pertencimento não pode ser imposto. “Ninguém é obrigado a nada”, reforçou Andriolli. A proposta é criar acesso e afeto: quem reconhece valor em uma prática tende a desejar conhecê-la, contá-la e abrir espaço para que continue existindo.
O simbólico como aquilo que reúne
Na parte final, Anderson retomou uma ideia apresentada por Tatiana Henrique numa conversa sobre oralidade: a oposição entre o simbólico, entendido como aquilo que reúne, e o diabólico, em seu sentido etimológico de separação. Para ele, essa relação ajudava a interpretar toda a edição do evento.
Reunir não significa dissolver as diferenças numa suposta identidade brasileira única. A noção do país como encontro harmonioso de três povos — indígena, africano e europeu — esconde a pluralidade existente dentro de cada uma dessas categorias e as violências que marcaram seus cruzamentos. “Não é sobre unificar. É sobre essa diversidade, sobre quanto de gente tem aqui dentro e quantos povos do mundo estão dentro do nosso país”, afirmou Anderson.
O simbólico, nesse sentido, aparece no espaço em que perspectivas distintas conseguem se encontrar sem se tornar iguais. Já a separação se fortalece quando o debate cultural distribui pessoas em campos estanques, elimina a controvérsia e transforma discordância em impossibilidade de escuta. “A controvérsia faz parte da vida humana”, observou Andriolli.
Por isso, Anderson encerrou a edição pedindo que o público acompanhasse também participantes com posições diferentes das suas. “É importante seguir e você mesmo tirar suas conclusões, em vez de ficar só pela nossa voz”, disse. Conhecer o Brasil, acrescentou, exige “ouvir opiniões discordantes e ver perspectivas completamente contrárias” às próprias.
Um documento aberto para novos aprendizados
Ao longo de agosto, a organização reuniu lives, artes, indicações bibliográficas, convidados e comentários do público em meio às limitações de um projeto independente. Anderson reconheceu que nem todos os links e referências haviam sido organizados no ritmo desejado. Ainda assim, destacou o valor do arquivo criado: “Essas lives são um documento”.
O documento não pretende fixar uma verdade final sobre folclore ou cultura popular. Registra um momento do pensamento de seus participantes, disponível para ser retomado, criticado e ampliado. A própria comparação com as edições anteriores mostra que aprender também implica abandonar certezas e reconhecer erros.
Mikael condensou essa disposição nas despedidas: “O que a gente está fazendo aqui é um momento de aprendizado. O que a gente está falando hoje não é, e nunca vai ser, verdade absoluta. Todo mundo é passível de questionamento”. Para ele, todos permanecem “no arco do aprendizado, do crescimento e, principalmente, do diálogo”.
Ao terminar a quarta edição, o Somando Visões deixou menos um manual do que uma forma de trabalho. Pesquisar antes de afirmar, ouvir mais de uma voz, localizar as palavras em seus contextos, olhar para a cultura dentro de casa e não fugir da divergência. Se o folclore tem futuro, sugeriu a live, é porque continua sendo contado, questionado e transformado no presente.
A live de encerramento integrou a quarta edição do Somando Visões, promovida pelo Folclore BR em agosto de 2020. As transmissões e demais atividades do evento podem ser encontradas no canal do Folclore BR no YouTube.