Luiz Antonio Simas, Andriolli Costa e Otoniel Oliveira analisam como tradição, pertencimento e cultura popular desafiam a busca por uma identidade brasileira fixa
Uma camisa verde-amarela já significou festa, futebol e ruas pintadas em época de Copa do Mundo. Em 2020, porém, o mesmo objeto carregava a marca de manifestações da extrema direita e produzia desconfiança em quem antes o vestia sem hesitar. Foi a partir dessa mudança de sentido que o Folclore BR lançou uma pergunta deliberadamente incômoda: o brasileiro está cancelado?
Realizada durante a quarta edição do Somando Visões, a live reuniu Anderson Awvas, Andriolli Costa e o historiador Luiz Antonio Simas na primeira parte. Depois da saída de Simas, o ilustrador, quadrinista e animador Otoniel Oliveira entrou na conversa. Ao longo de mais de duas horas, eles discutiram bandeira, hino, carnaval, Cacique de Ramos, festas de inversão, Halloween, Dia do Saci, narrativas falsas e o medo de abordar culturas diferentes da própria.
A conversa não procurou absolver ou condenar uma identidade nacional. Em vez disso, mostrou que símbolos, tradições e pertencimentos são construídos historicamente e continuam mudando conforme circulam entre grupos, territórios, mídias e disputas políticas. Simas condensou essa tensão numa frase que atravessou todo o debate: “Tenho a impressão de que a brasilidade vai derrotar o Brasil. Não sei quando, mas vai”.
Uma identidade fixa oferece conforto — e exclusão
Ao comentar a apropriação política da camisa da seleção, Simas começou por rejeitar a ideia de uma identidade brasileira estável. “A identidade pressupõe um processo de construção. Não existe uma identidade fixa”, afirmou. Definir de maneira definitiva o que alguém é pode trazer conforto, mas também estabelece quais práticas, comportamentos e pessoas seriam legítimos representantes da pátria.
O problema se amplia num país constituído por séculos de escravidão, genocídio das populações originárias, colonialismo e sucessivos fluxos migratórios. Para Simas, qualquer tentativa de fixar “o brasileiro” inevitavelmente elimina experiências que não cabem no modelo escolhido. “A possibilidade de pensar a nação no Brasil, para mim, só se inscreve no respeito à multiplicidade e à diferença.”
Por isso, o historiador demonstrou pouco apego ao patriotismo expresso pelos símbolos oficiais. Bandeira, hino e camisa da seleção não estruturam seu sentimento de pertencimento. Ele o encontra no Círio de Nazaré, na Folia de Reis, nos caboclinhos, na dança de uma passista da Mangueira, na culinária e nas muitas maneiras de celebrar a vida ou lamentar os mortos.
“O meu patriotismo está muito mais vinculado àquilo que eu chamo de brasilidade”, explicou. A diferença apresentada na live não separa simplesmente o certo do errado. O “Brasil” designa, nesse raciocínio, a estrutura estatal e suas narrativas oficiais; as “brasilidades” nascem dos modos diversos pelos quais as pessoas constroem sentido e pertencimento no cotidiano.
Andriolli acrescentou que reconhecer o caráter construído de um símbolo não o torna falso. A camisa amarela teve uma história, foi promovida pela imprensa e ganhou novos significados com as vitórias da seleção. “As coisas são construídas. Isso não faz delas menos válidas”, observou. O desafio é localizar cada objeto em seu tempo, em vez de tratá-lo como natural ou eterno.
Quando a festa transforma o eu em nós
Se a identidade nacional não pode ser imposta por uma fórmula, a festa oferece outra possibilidade de pertencimento. Simas a descreveu como o momento em que o indivíduo se desloca em direção ao coletivo. Quem segura a corda no Círio de Nazaré, participa de um cortejo ou entra numa roda não abandona sua singularidade, mas passa a experimentar uma ação compartilhada.
“A festa é aquele momento em que o ser individual acaba fazendo a transição para se inserir numa ideia de coletividade”, afirmou. Essa função se torna especialmente importante em sociedades industrializadas e urbanizadas, nas quais se enfraquecem espaços de sociabilidade e redes comunitárias de proteção.
A experiência festiva também passa pelo corpo inteiro. “Não é só ver a festa. É o cheiro da festa, é o sabor da festa, é a sonoridade da festa”, enumerou Simas. O sagrado e o profano se atravessam; comida, música, dança, memória e presença reorganizam temporariamente as posições sociais.
Andriolli trouxe um exemplo familiar para mostrar que a festa pode funcionar como tecnologia de aproximação. Seu pai, geógrafo, trabalhava com projetos de assentamentos rurais e precisava estimular a cooperação entre moradores que tinham conflitos entre si. A solução proposta foi começar com uma celebração: “Vamos fazer uma festa”. Antes de organizar a cooperativa, era necessário criar uma situação em que as pessoas conversassem, comessem e recuperassem vínculos.
Para Simas, essa abertura envolve uma “pedagogia do afeto e do assombro”. Não se trata de oferecer respostas prontas, mas de devolver às pessoas a capacidade de se surpreender com a complexidade do lugar onde vivem. É nesse sentido que a brasilidade — múltipla, contraditória e cotidiana — poderia derrotar o Brasil rígido das definições oficiais.
Entre a vivência e o simulacro
As discussões sobre cancelamento chegaram ao carnaval por meio do Cacique de Ramos. O bloco havia sido criticado nas redes pelo uso de uma imagem estereotipada de indígena. Simas reconheceu que fantasias podem produzir representações agressivas, mas argumentou que casos diferentes exigem análises diferentes.
Fundado em 1961, o Cacique carrega uma história comunitária ligada ao samba, à comida, a relações religiosas e a sucessivas gerações de participantes. A imagem do “índio” do bloco também foi atravessada por filmes de faroeste norte-americanos e outras referências midiáticas. “A gente tem que estar atento à diferença entre vivência e simulacro”, disse Simas.
Um simulacro pontual, usado para caricaturar um povo, não produz o mesmo sentido que um símbolo incorporado a uma experiência coletiva de seis décadas. Isso não torna a imagem imune à crítica. Significa apenas que transformá-la exige conhecer a rede de afetos e práticas em torno dela, conversar com o grupo e compreender por que ela permanece.
Os bate-bolas do Rio de Janeiro ofereceram outro exemplo desses cruzamentos. Há grupos que relacionam suas roupas aos palhaços da Folia de Reis, outros que incorporam elementos europeus e alguns que escolhem personagens da cultura pop, como a Pequena Sereia ou a Galinha Pintadinha. “A cultura proporciona essas contaminações, no melhor sentido: deixar-se animar por outras coisas”, afirmou Simas.
A mesma cautela foi aplicada às festas em que homens assumem roupas ou papéis femininos. Os participantes reconheceram a contradição entre celebrar a inversão no carnaval e viver num país marcado pela violência contra pessoas trans. Para Simas, a resposta não deveria ser simplesmente proibir a prática, mas criar diálogo e conhecimento dentro dos grupos.
Uma tradição pode ser preservada e, ao mesmo tempo, ressignificada como denúncia. “As tradições são dinâmicas. Elas não são estáticas”, lembrou. O passado não serve como desculpa para interromper a reflexão contemporânea: “O pensamento ancestral só é ancestral porque, um dia, foi contemporâneo”.
Memória do futuro, não culto ao passado
Ao citar Mikhail Bakhtin, Simas propôs uma mudança de direção para os trabalhos com cultura popular. “Não se trata só de construir memória do passado. É importante construir a memória do futuro.” Pesquisar e transmitir uma tradição não significa guardar uma relíquia, mas decidir o que se deseja levar adiante.
Quando conversa com o filho sobre a Iara, por exemplo, o historiador não procura reproduzir integralmente um passado perdido. Ele participa da formação de um repertório que a criança carregará para outros tempos e relações. “Não estamos falando só daquilo que fomos ou poderíamos ter sido. Estamos falando daquilo que a gente quer ser.”
Essa perspectiva também altera a maneira de encarar mudanças nas festas. Uma prática não precisa permanecer idêntica para continuar ligada a uma história. Preservar não é congelar; é sustentar uma corrente capaz de incorporar as perguntas, os conflitos e os sujeitos do presente.
Uma boa história também pode produzir apagamento
Na segunda parte, a conversa avançou sobre narrativas falsas que circulam porque parecem bonitas, edificantes e fáceis de compartilhar. Um dos exemplos foi a história segundo a qual oferendas teriam começado como alimentos deixados em encruzilhadas para pessoas escravizadas em fuga.
Andriolli explicou que a versão nasceu de um entendimento equivocado de uma fala acadêmica e se espalhou nas redes como se fosse uma origem histórica comprovada. O problema não está apenas na imprecisão. Ao reduzir a oferenda a uma ação de solidariedade material, a narrativa apaga sua relação com o sagrado e com as religiões de matrizes africanas. “Ela não dá a real dimensão do que significa simbolicamente esse espaço da encruzilhada”, alertou.
O caso das bonecas Abayomi seguiu raciocínio semelhante. Criadas pela artesã Lena Martins na segunda metade da década de 1980, elas passaram a ser apresentadas como brinquedos confeccionados por mulheres escravizadas com pedaços das próprias saias nos navios negreiros. A versão tem força imagética, mas desloca a autoria de uma mulher negra contemporânea e se apoia numa cena historicamente inconsistente.
“Não precisamos fundamentar narrativas de resistência a partir de coisas inventadas só porque são bonitas, compartilháveis e instigantes”, afirmou Andriolli. O trabalho de Lena Martins não perde valor por ser recente. Ao contrário: reconhecer sua autoria permite contar uma história concreta de criação, educação, arte e mobilização de mulheres negras.
Otoniel observou que essas narrativas também podem funcionar como estratégias de venda. Uma origem comovente ajuda a comercializar uma boneca, um curso ou um produto, enquanto a história real parece menos espetacular. O efeito revela quanto o público desconhece as próprias tradições e como a boa intenção, sem pesquisa, pode repetir apagamentos.
Bandeiras mudam porque seus sentidos estão em disputa
O debate retornou aos símbolos nacionais com uma campanha da Folha de S.Paulo que tentou associar a cor amarela à democracia. Os participantes receberam a iniciativa com ironia, mas reconheceram que símbolos podem, de fato, ser disputados e ressignificados. O sucesso desse movimento, porém, não depende apenas da vontade de uma empresa ou instituição.
Otoniel lembrou que tradições podem nascer de interesses econômicos e ainda assim ser incorporadas à vida social. O Dia dos Namorados brasileiro, por exemplo, foi criado por uma campanha comercial. O Halloween se expandiu no país com a ação de escolas de inglês, produtos culturais e o poder de circulação da indústria norte-americana.
Isso não significa que toda tentativa institucional será aceita. “O folclore vai sempre depender do povo”, resumiu Andriolli. O Estado pode criar uma data, a imprensa pode lançar uma campanha e uma empresa pode promover um costume, mas a continuidade depende da adesão, da repetição e dos sentidos construídos por quem participa.
A própria bandeira brasileira reúne camadas de poder. O verde e o amarelo foram herdados do Império e reinterpretados como mata e riqueza mineral; o brasão monárquico saiu para dar lugar ao céu republicano; e o lema positivista perdeu a primeira parte da formulação de Auguste Comte. “Não sobrou nem o amor para a gente. Ficou só Ordem e Progresso”, brincou Andriolli.
Rever esses símbolos não exige necessariamente abandoná-los. Pode significar reconhecer sua origem, compreender quem foi excluído da narrativa e decidir o que se deseja expressar no presente. A bandeira não é neutra nem imutável; é um objeto dentro de uma disputa contínua pelo significado de Brasil.
O medo que pesquisa não é o medo que paralisa
Na parte final, Otoniel abordou o receio de produzir histórias sobre povos, experiências e identidades diferentes das próprias. Para ele, algum medo é necessário porque impede que o criador trate um assunto com excesso de segurança. “Se você estiver numa zona de conforto, não vai pesquisar. Vai achar que sabe mais do que realmente sabe.”
Esse cuidado, contudo, não pode encerrar a conversa antes que ela comece. “O processo de pesquisa não pode ser finito. Tem que ser constante, tem que ser todos os dias”, afirmou. Pesquisar significa conversar, rever ideias, trabalhar com equipes plurais e criar condições para que profissionais historicamente excluídos participem das obras que pretendem representá-los.
Andriolli distinguiu esse “medo respeitoso” do medo paralisante. Pessoas interessadas em culturas indígenas, relatou, às vezes abandonam o tema por receio de críticas nas redes. Quando essa retirada é apresentada como respeito, pode apenas preservar a separação e o silêncio. “Respeito, cuidado e atenção, mas não inação”, defendeu.
Errar permanece possível, inclusive depois de muita pesquisa. A resposta não é esconder o erro ou afirmar que o especialista tem a palavra final, mas escutar quem aponta o problema e retornar ao trabalho com outras perguntas. O cancelamento, quando substitui essa mediação por condenações imediatas, reduz fenômenos complexos a decisões binárias: pode ou não pode, é brasileiro ou estrangeiro, é resistência ou ofensa.
Amar o Brasil como compromisso com outro futuro
Ao perguntar se ainda era possível amar o Brasil, Anderson recebeu respostas menos patrióticas do que comprometidas. Otoniel comparou esse vínculo ao amor por uma pessoa: não se ama verdadeiramente alguém sem conhecê-lo, sem reconhecer suas contradições, seus desgostos e suas feridas.
“Eu amo o Brasil que a gente pode ser. Eu não amo esse presente agora”, disse. O país desejado por ele é mais plural, menos fascista, consciente de que a maioria de sua população é negra e capaz de enxergar as diferenças regionais como parte de sua força.
Andriolli respondeu que, ao falar em amar o brasileiro, pensa nas pessoas ligadas aos seus afetos, à família e ao desejo coletivo de construir outra forma de estar no mundo. “Eu quero amar o Brasil porque vou me esforçar para isso”, afirmou. Sem esse esforço, acrescentou, restaria apenas o desespero.
O amor à pátria apresentado no encerramento não exige reverência automática à bandeira, ao hino ou à camisa amarela. Ele se aproxima mais do trabalho cotidiano de reconhecer feridas, enfrentar preconceitos estruturais, produzir novas histórias e manter abertas as pontes com quem vive experiências diferentes.
Se as brasilidades podem derrotar o Brasil, como sugeriu Simas, essa vitória não seria a destruição do país. Seria o deslocamento de um modelo único e excludente por uma comunidade capaz de se reconhecer plural. Uma memória do futuro, construída não com aquilo que o Brasil afirma ter sido, mas com aquilo que seus povos ainda desejam ser.
A live O brasileiro está cancelado? integrou a quarta edição do Somando Visões, promovido pelo Folclore BR em agosto de 2020. As transmissões e demais atividades do evento estão reunidas no canal do Folclore BR no YouTube.