“A gente não é defensor da palavra folclore; é defensor do povo”: Somando Visões encerra edição de 2025

Live de encerramento reúne Anderson Awvas, Lorena Herrero e Andriolli Costa para discutir linguagem, resistência cultural e os caminhos de um evento que chegou a nove cidades com a Mostra SACI

No último domingo de agosto, o encerramento do Somando Visões 2025 começou com uma constatação e uma teimosia. Depois de um mês de debates, filmes, oficinas e conteúdos sobre cultura popular, o Folclore BR voltou às questões que acompanham o coletivo há anos: por que ainda é necessário explicar que folclore não se resume a personagens, passado ou curiosidade infantil? Batizada de Papo mole, cabeça dura, tanto bate até que fura, a live de 31 de agosto transformou a insistência em tema e método.

Mediada por Anderson Awvas, criador do Folclore BR, a conversa reuniu a ilustradora e quadrinista Lorena Herrero, a HET, e o jornalista, professor e pesquisador Andriolli Costa. Logo na abertura, Andriolli resumiu o ponto de partida do grupo: “A gente não é defensor da palavra folclore; a gente é defensor do povo, do povo e da sua cultura”. Trocar o termo sem rever a maneira hierarquizada de olhar para os saberes populares, acrescentou, não produziria uma mudança real.

A transmissão também fez o balanço da nona edição do Somando Visões, realizado desde 2017. A programação atravessou temas como superstições, inteligência artificial nas festas populares, culturas indígenas, morte, audiovisual e as relações entre folclore e Região Norte. Em paralelo, a terceira Mostra SACI — Somando Arte no Cinema Independente — selecionou 48 filmes entre 193 inscritos, somou mais de dez horas de exibição e chegou presencialmente a nove cidades. O crescimento foi celebrado, mas veio acompanhado de uma pergunta incontornável: até onde um projeto independente, gratuito e feito sem financiamento consegue avançar apenas “na raça”?

Uma palavra como ponto de encontro

Ao perguntar por que os participantes continuam falando de folclore mesmo diante da rejeição ao termo, Anderson reconheceu que o debate parece sempre regressar à primeira etapa. “A gente chega no final do papo e percebe que as pessoas estão ainda no início”, disse. Para ele, o trabalho exige “um retrabalho muito longo” e também a disposição de rever as próprias certezas — inclusive a visão engessada, centrada em personagens, com a qual iniciou o Folclore BR há 12 anos.

Lorena respondeu que a escolha entre “folclore” e “cultura popular” depende do contexto. A palavra rejeitada em alguns espaços continua viva nas escolas, nos festivais e nos nomes de grupos culturais. Professores, por exemplo, ainda procuram atividades para o Dia do Folclore, não necessariamente para o “Dia da Cultura Popular”. Ignorar a expressão usada por esse público significaria perder uma oportunidade de diálogo.

“Existe uma palavra que você pode usar como conexão para dialogar com alguém”, afirmou. “A gente tem que usar os termos para criar essas conexões e conseguir chamar essas pessoas para falar o que a gente quer falar.” A persistência, portanto, não nasce de uma fidelidade abstrata ao vocábulo, mas do desejo de alcançar quem já o utiliza e ampliar o que entende por ele.

Esse trabalho também produz reconhecimento. Lorena recordou o relato de uma pessoa cuja avó dizia que o lobisomem se transformava em jumento. Durante anos, o neto não deu importância à narrativa; ao encontrar a mesma possibilidade em um conteúdo de pesquisa, voltou à memória familiar com outro olhar. “Você começa a ver as coisas que estão no seu dia a dia com um carinho diferente ou com uma perspectiva diferente”, observou.

O impulso para continuar vem do encantamento — “eu gostei muito disso, eu quero mostrar para as pessoas” —, mas não apenas dele. A indignação diante de conteúdos que desvalorizam identidades locais, descontextualizam narrativas ou reproduzem listas rasas também move o trabalho. “Existe um valor naquilo”, disse Lorena. Nas redes sociais, completou, a lógica de circulação costuma premiar imagens e nomes de assombrações sem origem ou contexto; por isso, às vezes, é preciso interromper o fluxo para dizer: “Não, gente, espera aí. Deixa eu explicar uma coisa aqui”.

“Não é historinha”: cultura como força coletiva

Ao refletir sobre sua própria persistência, Andriolli lembrou que começou a estudar o tema em 2008. Desde então, passou pela universidade, por projetos de comunicação, por consultorias para livros, séries e museus e por espaços de articulação política. Descreveu-se como alguém situado num “entroncamento” entre mercado, academia e relação afetiva com a cultura popular.

Essa posição, avaliou, cria uma responsabilidade. Se poucas pessoas conseguem acompanhar simultaneamente essas diferentes esferas, articular as informações deixa de ser apenas uma escolha pessoal. O objetivo não é conquistar fama de influenciador, mas fazer circular uma leitura do folclore que revele sua dimensão social e política.

Recorrendo ao legado de estudiosos como Edson Carneiro e às leituras de Antonio Gramsci, Andriolli defendeu que a cultura popular seja entendida como estratégia de resistência e comentário político das classes populares. “Não é historinha, não é uma amenidade, não é um exotismo. É resistência”, afirmou. Essa resistência pode aparecer na reivindicação explícita, mas também no ato de permanecer, celebrar e transmitir uma prática: “Cultura luta. E muito dessa luta é estar vivo; muito dessa luta é continuar festando”.

Na mesma direção, o pesquisador sustentou que o folclore não pode ser separado das condições concretas de vida de quem o produz. Ao recordar a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, destacou iniciativas que identificavam problemas sociais nas comunidades e os encaminhavam a órgãos públicos. “Não dá para pensar o folk sem pensar o povo. Se esse povo está morrendo de fome, se esse povo está morrendo de doença, a gente não tem como pensar o folk.”

Para além do Saci e do cenário rural

A live também enfrentou uma confusão recorrente: a ideia de que falar em cultura popular resolveria automaticamente os problemas associados à palavra folclore. Para os participantes, os dois termos podem ser reduzidos aos mesmos estereótipos — uma festa nordestina, uma tradição rural, um grupo de personagens ou algo ameaçado de desaparecer.

Lorena citou o funk, o passinho e a dança vogue como exemplos de manifestações contemporâneas que desafiam essa imagem. Mesmo quando nascem de forma orgânica em comunidades populares e reúnem transmissão, pertencimento e criação coletiva, elas ainda encontram resistência em espaços dedicados ao estudo do folclore. “Parece que tudo o que move até hoje ainda é meio que isso: a gente tem que investir nisso daqui, senão eles vão desaparecer”, criticou, ao questionar por que práticas vivas e urbanas tantas vezes ficam fora do enquadramento.

Andriolli propôs observar o deslocamento entre indivíduo e coletivo. Um elemento popular pode ser apropriado pela indústria cultural e transformado em produto, mas tende a perder parte de sua força reivindicadora quando o “eu” ocupa completamente o lugar do grupo. “O folk é sempre o nós. É o eu junto ao nós”, sintetizou.

O cotidiano ofereceu exemplos ainda mais próximos. A identidade visual do Somando Visões 2025 foi inspirada em superstições: bater na madeira, desvirar o chinelo, usar um amuleto numa prova, brindar ou vestir uma peça considerada de sorte em dia de jogo. São gestos que muitas pessoas praticam sem nomeá-los como folclore. “A coisa está rolando independentemente do nome que a gente dá para aquilo”, afirmou Anderson.

Foi o que ele observou ao conversar com crianças durante a Mostra SACI. Quando perguntou o que era folclore, ouviu imediatamente nomes como Saci, Boto e Cuca. Diante de “cultura popular” e “superstição”, prevaleceu o silêncio. Bastou, porém, mencionar o chinelo virado para que as respostas surgissem. “Eles sabiam de todas as superstições. É um negócio impressionante”, contou.

Comunicação para a praça pública

Ao longo de toda a conversa, comunicar apareceu como uma tarefa inseparável da pesquisa. Anderson definiu o objetivo do Folclore BR com a imagem de uma praça: chegar com um megafone e anunciar “Gente, folclore é legal. Olha aí, vem ver o que a gente está fazendo”. Para ele, o conteúdo não pode depender de uma linguagem exclusiva, compreensível apenas por especialistas. “Todo mundo tem que entender.”

Isso não significa eliminar a complexidade. Significa construir pontes entre o repertório de quem chega e um campo muito mais amplo de práticas, memórias e conflitos. A nona edição buscou fazer esse movimento ao discutir a presença da inteligência artificial no carnaval, as relações entre culturas indígenas e folclore, o imaginário da morte, as formas de representar o Norte e até uma recriação brasileira de Nosferatu.

O percurso também trouxe uma advertência contra a fantasia de olhar para o folclore como “cultura do outro”. Avanços tecnológicos e projetos de progresso podem destruir territórios, deslocar comunidades e interromper práticas culturais. “Esse imaginário da tecnologia não é inocente. Ele tem consequências práticas na nossa vida”, disse Andriolli.

Mostra SACI cresce entre escolas e salas de cinema

O resultado mais visível da edição foi a expansão da Mostra SACI. Criada para reunir produções audiovisuais ligadas ao folclore e à cultura popular, a iniciativa recebeu 193 inscrições — mais que o dobro da média dos anos anteriores — e ampliou a seleção de 24 para 48 filmes. Documentários, animações, ficções, suspenses, musicais e videoclipes formaram três sessões online, com mais de dez horas de conteúdo.

As versões reduzidas da mostra circularam por nove cidades, entre elas Salvador, Belém, Manaus, Juiz de Fora, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Niterói, Petrópolis e Gravatá. A maior sessão, segundo o balanço apresentado na live, reuniu cerca de 300 crianças em Belo Horizonte. Anderson descreveu uma plateia que batia palmas para os filmes e, espontaneamente, se dividiu em coros: de um lado, “Saci”; do outro, “Pererê”. “Foi um momento muito legal”, recordou.

Para as próximas edições, a organização pretende aprofundar o trabalho pedagógico. A proposta é que os estudantes tenham contato prévio com os filmes, personagens e temas por meio de desenhos, redações e atividades mediadas por professores. “A mostra seria uma consequência depois disso tudo”, explicou Anderson. Em vez de apenas assistir a uma sessão, as turmas chegariam ao cinema depois de investigar aquilo que encontrariam na tela.

O crescimento, contudo, expôs os limites materiais. “A gente faz isso tudo sem edital, sem dinheiro”, afirmou o organizador. A circulação por nove cidades ocorreu com colaboradores carregando as sessões “debaixo do braço”; a divulgação online foi feita sobretudo no boca a boca; e grande parte do trabalho se acumulou sobre uma equipe pequena. “Foi difícil, mas conseguiu, e vamos continuar tentando.”

Lorena reforçou que o cenário não é exclusivo dos podcasts. Há poucos projetos digitais dedicados continuamente à cultura popular, apesar da importância do tema. “A gente só comprova a importância de estar trazendo esses papos aqui”, disse. O acervo acumulado ao longo dos anos, acrescentou, permanece disponível mesmo sem adotar sempre os formatos mais rápidos exigidos pelas redes.

Folclore depois de agosto

Uma das metas anunciadas para o futuro é fazer as versões itinerantes da Mostra SACI circularem durante todo o ano. A escolha busca provocar justamente a pergunta “por que falar de folclore se não é agosto?”. Para Anderson, a resposta está na experiência cotidiana: “Todo dia é dia do folclore”.

O Somando Visões chegará à décima edição em 2026. Ainda sem formato definido, o próximo encontro já mobiliza ideias de financiamento, publicações, quadrinhos, produtos e atividades presenciais. Entre os desejos revelados na transmissão está o de realizar cada conversa em uma praça diferente do Brasil, com convidados locais, plateia e estrutura de gravação. “Vou plantar uma semente de um sonho aqui agora”, disse Anderson. “Um Somando Visões em que cada papo acontece em uma praça no Brasil.”

O sonho depende de recursos, parcerias e políticas de financiamento capazes de preservar o acesso gratuito sem esgotar quem realiza o projeto. Também depende do público a quem a iniciativa procura chegar desde a primeira edição. Ao encerrar a live, Anderson retomou o ditado que deu nome ao encontro: “A gente vai seguir tentando. Vai continuar aqui batendo, conversando e falando disso de forma cada vez mais acessível”.

Depois de duas horas de conversa, a conclusão não foi a de que o debate sobre as palavras estava resolvido. Foi outra: folclore, cultura popular ou “sabedoria do povo” só ganham sentido quando retornam às pessoas, aos territórios e às relações que os mantêm vivos. A persistência, nesse caso, não é repetir a mesma fórmula. É continuar procurando uma linguagem capaz de fazer mais gente reconhecer que já participa dessa história.

O encontro Papo mole, cabeça dura, tanto bate até que fura — Papo 07: Encerramento integra a nona edição do Somando Visões, promovido pelo Folclore BR. Os números, os filmes selecionados e outros detalhes da terceira Mostra SACI estão disponíveis no site do projeto; as transmissões podem ser acessadas no canal do Folclore BR no YouTube.

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