“A resposta não é do indivíduo, é do povo”: Andriolli Costa propõe novas linguagens para divulgar o folclore

Em conversa promovida pela Comissão Paulista de Folclore, pesquisador relaciona memória familiar, mídias digitais, educação, financiamento cultural e compromisso com mestres e comunidades

Quando Andriolli Costa fala de Saci em um podcast, numa escola ou em um documentário, também faz circular as histórias de seu avô Oliveira. Morto em 2019, ele continua sendo lembrado por pessoas que nunca o conheceram, mas ouviram sua voz ou acompanharam os relatos da família. “O vô está aí”, resumiu o pesquisador.

A lembrança apareceu na transmissão Folclore: uma nova linguagem é possível?, realizada pela Comissão Paulista de Folclore em agosto de 2024. Recebido por Lilian Vogel e Gerson Ramos, Andriolli recuperou a trajetória do Colecionador de Sacis e discutiu como podcasts, filmes, redes sociais, jogos e materiais digitais podem aproximar a pesquisa de públicos que raramente frequentam congressos ou leem artigos acadêmicos.

Ao longo da conversa, porém, a tecnologia apareceu apenas como parte do desafio. Divulgar o folclore também exige enfrentar a desvalorização dos saberes populares, criar condições materiais para projetos independentes, responder à intolerância religiosa e rever a relação das instituições com os mestres. “A gente não pode falar pelo mestre. A gente tem que aprender com o mestre”, defendeu Andriolli.

Da história de família ao projeto de vida

A trajetória acadêmica começou em 2008, quando uma caixa de livros chegou ao curso de Jornalismo frequentado por Andriolli. Entre os volumes estava uma edição de Geografia dos mitos brasileiros, de Luís da Câmara Cascudo, com um Saci na capa. Ao folhear o livro, o estudante encontrou referências, citações e uma base teórica que mostravam ser possível pesquisar aquilo que conhecia pela experiência familiar.

Seu contato com o personagem não vinha principalmente da televisão ou de O Sítio do Picapau Amarelo. Durante as viagens ao interior de Mato Grosso do Sul, o pai apontava lugares onde o Saci havia passado, perseguido parentes ou feito acordos com membros da família. “Com o tempo, entendi que meu pai não contava essas histórias para distrair uma criança. Ele estava partilhando com o filho uma parte intrínseca da sua experiência de mundo.”

Negligenciar essas narrativas, percebeu, seria apagar parte da história do pai e dos avós. O encontro com Cascudo levou a uma iniciação científica e, depois, ao trabalho de conclusão de curso. Em 2010, Andriolli criou um site jornalístico sobre o folclore de Mato Grosso do Sul e o batizou de Poranduba.

O termo, encontrado na obra de Cascudo a partir de uma referência a Barbosa Rodrigues, pode designar uma história fantástica, excepcional ou mesmo uma notícia. “Eu entendo que todos nós temos uma poranduba para contar. Todo ser humano é atravessado por histórias fantásticas, espetaculares e superlativas que pode partilhar com as pessoas.”

Em 2015, surgiu o Colecionador de Sacis. A iniciativa cresceu até reunir site, redes sociais, podcasts, livros, exposições, cursos, mostras e documentários. Uma professora do pós-doutorado definiu o percurso com uma frase que Andriolli incorporou: “Ele não tem um projeto de pesquisa. Tem um projeto de vida”.

O Saci que mantém o avô presente

Um dos impulsos para criar o Colecionador de Sacis veio durante o doutorado, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Andriolli fotografou um tronco coberto por orelhas-de-pau avermelhadas e escreveu que havia encontrado um “cemitério de sacis”. A brincadeira se apoiava na narrativa segundo a qual o personagem se transforma nesse tipo de fungo depois da morte.

Quase ninguém entendeu a referência. A reação mostrou que os saberes recebidos de sua família não eram tão compartilhados quanto imaginava. “Nem todo mundo teve o privilégio de ter um avô como o meu avô Oliveira e uma avó como a minha avó Marlene, de viver nesse mundo da encantaria do Saci. Mas eu tive. E se eu pudesse contar essas histórias adiante?”

O desejo ganhou uma dimensão mais íntima com Raízes — Um filme sobre colecionar sacis, lançado em 2020. O documentário reúne entrevistas com familiares e busca compreender de onde vieram as histórias que acompanhavam Andriolli. A produção também ajudou a elaborar a morte do avô, ocorrida no ano anterior.

“Quando eu falava de Saci, lembrava da minha família. Eu era tributário das histórias do meu avô”, contou. “Mesmo que o câncer o levasse, ele permaneceria vivo nas histórias que eu contava e que as pessoas recontavam a partir dos programas, dos vídeos e das visitas às escolas.”

Divulgação folclórica para além dos especialistas

O uso corrente das palavras “folclore” e “mito” como sinônimos de mentira, atraso ou conhecimento infantilizado foi apontado como sintoma de um problema maior. Andriolli disse encontrar esse entendimento dentro e fora da universidade, embora ele não corresponda ao que lê na teoria do folclore ou na folkcomunicação.

Para o pesquisador, o afastamento do público também revela uma dificuldade das próprias instituições. Congressos e encontros produzem reflexões relevantes, mas costumam alcançar apenas quem já circula naquele meio. “Isso é uma falta de comunicabilidade nossa, de quem está no âmbito institucional do folclore”, avaliou.

A divulgação folclórica foi apresentada como uma atividade semelhante à divulgação científica. Seu objetivo seria compartilhar com públicos não acadêmicos os debates, descobertas e atualizações dos estudos folclóricos. Projetos como Colecionador de Sacis e o coletivo FolcloreBR procuram realizar essa mediação.

“Quantas pessoas não poderiam estar num encontro como o de Trindade? Quantas universidades e pessoas interessadas na cultura não estavam fazendo outras coisas naquele momento?”, questionou. A resposta envolve dois movimentos complementares: “Trazer o público para perto de nós ou chegar perto desse público”.

Mais importante que o nome é o pensamento

Durante a conversa, Lilian Vogel lembrou que a própria palavra “folclore” enfrenta resistência e muitas vezes é substituída por cultura popular, patrimônio imaterial ou outras expressões. Andriolli respondeu que a disputa terminológica não deve ocupar o lugar da ação.

O tema aparece na abertura do livro digital Folclore na escola — Caderno de sugestões, lançado naquele período. O material reconhece que educadores podem optar por outra palavra caso o termo encontre rejeição numa escola ou secretaria. Para o autor, o problema decisivo não está no nome usado, mas no modo como os saberes são tratados.

“Mais importante do que a palavra é o pensamento. Se eu uso o termo que está na moda, mas continuo subalternizando esses saberes como curiosidades lúdicas e anacronismos sem potência, a gente não está avançando. Está trocando palavras e continua achando que aquilo é menor.”

O objetivo da divulgação seria despertar sensibilidades para reconhecer que as tradições falam do presente, mesmo quando trazem elementos herdados do passado. Elas expressam uma ação coletiva que antecede e ultrapassa cada pessoa. “O folclore vai pensar ao contrário da primazia do indivíduo: você é menos importante do que o grupo do qual faz parte.”

Essa perspectiva não apaga singularidades, mas coloca o indivíduo dentro de uma história mais ampla. “Nós somos importantes e únicos, mas estamos dentro de algo maior, que nos antecede. É também uma lição de humildade.”

Quando a mídia lança luz sobre o que estava à vista

Gerson Ramos perguntou se produções contemporâneas conseguiriam despertar o interesse de jovens pela cultura popular. A série Cidade Invisível, da Netflix, serviu como exemplo. Andriolli participou da equipe de consultoria folclórica da segunda temporada e ouviu, durante uma viagem a Belém, relatos de professoras sobre seus efeitos nas escolas.

Segundo elas, estudantes da capital e de comunidades ribeirinhas passaram a demonstrar mais interesse por figuras como Matinta, Caninana e Cobra Norato. As histórias já estavam presentes nas aulas e nas famílias, mas receberam atenção renovada depois da série.

“O braço midiático lança luz sobre algo que é cotidiano”, interpretou Andriolli. “Muitas vezes, aquilo que está sempre à nossa vista some diante de nós, porque a gente deixa de dar valor ao que está sempre presente.”

Ele comparou o processo a um móvel herdado que permanece esquecido num canto. Pode ser necessário que alguém o restaure, pinte ou envernize para que a família volte a perceber seu valor. O mesmo ocorre quando uma obra produzida fora da comunidade faz moradores olharem novamente para histórias conhecidas desde a infância.

“É como fazer sempre o mesmo caminho de carro e, um dia, percorrê-lo a pé. Você percebe coisas que nunca havia visto”, acrescentou. A mídia não cria sozinha essas tradições, mas pode provocar uma mudança de atenção.

Do pop ao popular

O diálogo com a cultura de massa também apareceu no campo da educação. Lilian contou que a circulação de jogadores de Pokémon Go em um museu foi usada para apresentar a história de uma estátua conhecida no aplicativo como “homem desconhecido”. Ao lado do monumento, a equipe disponibilizou informações sobre o major Juvenal Alvim, personagem ligado à história local.

Para Andriolli, proibir referências como Pokémon porque elas desviariam a atenção da aula pode desperdiçar uma oportunidade. “Será que o caminho não seria beber dessa cultura pop para, do pop, chegar ao popular?”

A relação não precisa ser lida apenas como destruição da tradição pela cultura de massa. “As coisas se alimentam e retroalimentam. O que a gente precisa fazer é lançar luz sobre o tradicional para que as pessoas deem valor e não o entendam como conhecimento errado.”

Um ouvinte do Colecionador de Sacis percebeu isso ao escutar uma conversa sobre lobisomens brasileiros, que nem sempre assumem forma de lobo. Eles podem reunir características de porco, touro ou jumento. “Minha avó sempre falou de lobisomem-jumento, e eu achava que ela estava maluca”, escreveu. Para Andriolli, o relato mostrava como a imagem hollywoodiana havia levado o neto a desacreditar um saber da própria família: “Dê valor à sua avó. Escute a sua avó”.

Um jogo para construir pontes afetivas

O card game Poranduba — Cartas de Cultura nasceu durante o pós-doutorado como tentativa de criar pontes afetivas por meio da ludicidade. Andriolli observou que jogos inspirados no folclore costumavam se concentrar no combate e na destruição mútua. Essa lógica parecia pouco adequada a personagens como o Saci.

“Quantas vezes você viu o Saci matando o inimigo? Ele usa a ginga, a sabedoria e a astúcia para resolver os problemas”, explicou. O jogo deveria comunicar outra relação com a cultura popular e ampliar o repertório para além de mitos e lendas.

Por isso, as cartas incluem palhaços de Folia de Reis, mascarados de cavalhada, comidas, saberes, ofícios e manifestações locais. Artistas ligados aos quadrinhos, aos videogames e às redes sociais foram convidados a construir uma estética contemporânea. “A partir do encantamento inicial que vem da arte, a pessoa chega ao conteúdo e, pelo conteúdo, se apaixona e fica.”

Cada carta traz um QR Code que conduz a um texto de pesquisa. A Perna Cabeluda, por exemplo, não aparece apenas como assombração pernambucana que chuta suas vítimas. O material recupera a circulação da história por jornais, programas de rádio e cordéis, mostrando como diferentes meios alimentaram o imaginário popular.

Editais, financiamento coletivo e uma conta inesperada

A realização do jogo também expôs as condições materiais necessárias para produzir cultura. O projeto envolveu 27 ilustradores na primeira edição e cerca de 40 artistas na segunda, além das equipes de identidade visual, site, revisão e pesquisa. Ao todo, Andriolli estimou a participação de aproximadamente 70 profissionais.

O financiamento do Programa de Ação Cultural de São Paulo permitiu remunerar a equipe e produzir o material. Depois, uma campanha coletiva viabilizou a impressão física e vendeu 900 exemplares. “É uma tiragem espantosa para um projeto independente, sem editora por trás e enviado por mim e pelo André Vazzios.”

O processo também trouxe prejuízos. A produção na China parecia economizar R$ 10 mil, mas despesas com impostos, despachante e armazenamento elevaram o custo em cerca de R$ 15 mil além do previsto. “Tudo o que era para ser lucro acabou ficando nesse erro. Foi muito frustrante”, contou.

Apesar do problema, Andriolli interpretou a experiência como parte da tentativa de levar o jogo a escolas, eventos e novos públicos. “A gente estava se metendo nesse mundo de cabeça. Queria fazer o projeto vingar, vender, distribuir e produzir em escala. Na próxima vez, não vai ser na China.”

Quando a intolerância sufoca a imaginação

Nem toda dificuldade está ligada a orçamento ou tecnologia. Andriolli relatou uma visita escolar em que foi avisado de que um aluno pertencia a uma família muito religiosa, embora adorasse histórias de Saci. O pedido era evitar aspectos que pudessem ser interpretados como demoníacos.

Durante a conversa, o pesquisador explicou a formação da palavra Boitatá como serpente ou cobra de fogo. O menino, que até então participava com entusiasmo, levou as mãos ao pescoço, começou a hiperventilar e precisou sair da sala. Depois, Andriolli entendeu que a expressão “serpente de fogo” havia sido imediatamente associada a Satanás.

“Ele estava sendo sufocado diante de nós, não por Jurupari, mas por uma visão extremada de religião”, afirmou. O episódio o fez pensar em quantas experiências culturais e possibilidades imaginativas eram impedidas de chegar àquela criança.

O problema também atinge adultos. Mestres abandonam ofícios quando seus trabalhos passam a ser tratados como fabricação de ídolos; benzedeiras deixam de benzer porque familiares afirmam que somente Deus pode curar. “Toda benzedeira vai dizer que não é ela quem cura. Ela tem um dom e faz essa mediação”, lembrou.

Além da interrupção de um saber, Andriolli observou uma perda de reconhecimento social. Pessoas que eram referências em suas comunidades passam a ocupar um lugar de subalternização. Lilian acrescentou que resistências semelhantes aparecem em escolas quando famílias impedem crianças de participar de quadrilhas por causa da relação com santos católicos.

Pesquisadores não devem falar pelos mestres

Na parte final, a conversa voltou à responsabilidade das comissões, universidades e instituições. Para Andriolli, dar visibilidade aos mestres não pode significar transformá-los em objetos para pesquisadores produzirem artigos, fotografias ou prestígio.

“A gente precisa lutar contra o impulso que a academia sempre teve de falar pelo outro. Não pode falar pelo mestre; tem que aprender com o mestre”, disse. O papel institucional seria usar espaços, influência e circulação para permitir que essas vozes compartilhem diretamente seus saberes.

Esse compromisso exige contrapartidas. “Se eu tiro uma foto, guardo para mim ou publico nas redes, mas não entrego à comunidade, isso é um problema. Ela continua sendo vista como objeto.” A relação precisa ser construída com diálogo, confiança e reconhecimento de conflitos anteriores.

Andriolli lembrou que comunidades já viram pesquisadores levarem imagens sem devolvê-las ou comprarem peças tradicionais por valores irrisórios. Por isso, uma nova aproximação não começa num terreno neutro. É necessário reconhecer essa história e estabelecer outras bases: “Estamos construindo pontes. E construir pontes é um trabalho difícil, porque estamos lidando com seres humanos, não com objetos”.

Calma, afeto, coletivo e família

Ao ser convidado a deixar uma mensagem final, Andriolli rejeitou a ideia de que todo interessado em folclore precise transformar o tema numa missão total. Seu próprio percurso não foi planejado dessa forma. “Eu fui tomado por isso. O Saci me pegou pela mão e não soltou mais. Quando percebi, tinha que fazer o que faço.”

Para quem deseja começar, ele organizou quatro orientações. A primeira é ter calma; a segunda, aproximar-se com afeto e reconhecer a legitimidade das manifestações. Quem chega com a intenção de “melhorá-las” parte da suposição de que elas não têm valor.

A terceira orientação é reduzir a centralidade do indivíduo. “A resposta não é do indivíduo. A resposta é do povo”, afirmou. Narrativas avançam por meio do reconto coletivo, no interior dos grupos que as mantêm vivas. Não cabe a uma pessoa isolada determinar de fora como uma tradição deve mudar.

Por fim, Andriolli convidou o público a olhar primeiro para as próprias raízes. Em vez de buscar apenas histórias de povos distantes, alguém pode perceber tradições ainda não registradas na família, na rua, na vila ou na cidade onde vive. “Não deixe o cotidiano se invisibilizar diante de você. Olhe para ele e veja a magia que atravessa tanto a encantaria do imaginário quanto a materialidade dos objetos da cultura popular.”

“Todos eles são mágicos e fascinantes. Quando a gente vê isso, encanta a vida também.”

A conversa Folclore: uma nova linguagem é possível?, promovida pela Comissão Paulista de Folclore, foi transmitida em agosto de 2024. O livro digital Folclore na escola — Caderno de sugestões está disponível gratuitamente no portal eduCAPES.

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