No podcast Regras do Jogo, pesquisador parte das memórias de família para discutir jornalismo, folkcomunicação, inteligência artificial e a criação de Poranduba — Cartas de Cultura
Antes mesmo de Andriolli Costa nascer, a avó já tentava adivinhar se a filha esperava um menino ou uma menina. Escondeu um garfo e uma colher sob almofadas e pediu que a gestante escolhesse onde sentar. A escolha do garfo foi recebida como confirmação de que viria um menino — uma espécie de “chá revelação de antigamente”, como definiu o pesquisador.
A lembrança abriu a participação de Andriolli no episódio 190 do podcast Regras do Jogo, publicado em 27 de julho de 2023. Recebido pelos apresentadores Fernando Henrique e Anderson do Patrocínio, ele falou sobre sua trajetória acadêmica, o projeto Colecionador de Sacis e o desenvolvimento do card game Poranduba — Cartas de Cultura.
Em pouco mais de uma hora e quarenta minutos, a conversa aproximou experiências familiares, teoria do imaginário, jornalismo, folkcomunicação e design de jogos. O percurso mostrou que a cultura popular não aparece apenas como tema de pesquisa: ela organiza modos de lembrar, interpretar o mundo e disputar quais histórias merecem continuar circulando.
O folclore começa antes da pesquisa
Ao recorrer à simpatia feita pela avó, Andriolli procurou desfazer a ideia de que folclore é apenas um conjunto de mitos e lendas encontrado nos livros. “O folclore entra na minha vida como entra na vida de todas as pessoas: desde o nascer”, afirmou. Crenças sobre o formato da barriga, receitas, ditados, festas, gestos e conhecimentos transmitidos entre gerações participam desse universo.
O Saci ganhou uma presença especial durante as férias escolares na zona rural de Terenos, no interior de Mato Grosso do Sul, onde viviam seus avós. Seu pai contava que havia sido perseguido pelo personagem e que o assobio se aproximava à medida que ele tentava fugir de bicicleta. Com o passar do tempo, Andriolli percebeu que a narrativa não era uma distração inventada para uma criança.
“Ele estava me contando aquilo porque era uma experiência de vida. Estava partilhando comigo algo intrínseco à experiência de mundo dele”, explicou. Foi essa convivência que o ensinou a rejeitar a associação do folclore a pessoas mais velhas, moradores do interior ou grupos sem instrução formal. “Não precisa acreditar em Saci. O que interessa é o reconhecimento: você sabe o que é isso, faz parte ou não da sua vivência?”
Na graduação em Jornalismo, um acaso ajudou a transformar esse vínculo em pesquisa. Uma caixa de livros enviada ao departamento continha Geografia dos mitos brasileiros, de Luís da Câmara Cascudo. O Saci na capa chamou a atenção do estudante, que encontrou no volume autores, referências e diferentes registros sobre o personagem. “Eu comecei a folhear e pensei: ‘Isso aqui dá para estudar. Eu não sabia que dava para estudar isso’.”
A descoberta resultou, em 2008, em uma iniciação científica sobre as representações folclóricas na versão televisiva de O Sítio do Picapau Amarelo. Era o começo de uma trajetória que faria o pesquisador circular por universidades de diferentes regiões do país sem abandonar as histórias ouvidas em casa.
Quando o mito deixa de ser curiosidade
O projeto experimental de conclusão de curso deu origem à primeira versão de Poranduba, então um site dedicado a registrar lendas de Mato Grosso do Sul. Durante a apuração, Andriolli encontrou narrativas sobre tesouros enterrados no período da Guerra do Paraguai. Segundo essas histórias, bolas de fogo indicariam a pessoas de coração puro os locais onde riquezas haviam sido escondidas.
A pesquisa para escrever um roteiro de cinema revelou que, no Paraguai, a procura por esses tesouros tinha consequências concretas. Pessoas invadiam terrenos, abriam escavações inseguras e chegavam a morrer soterradas. Enquanto parte da imprensa brasileira costumava tratar mitos e lendas como curiosidades pitorescas, o tema aparecia em diferentes editorias dos jornais paraguaios.
“A gente trata como ‘olha como o folclore é engraçadinho, como é fofo’. No Paraguai, as pessoas estavam morrendo. Há consequências sérias”, comparou. Para ele, uma cobertura jornalística atenta à sociedade não poderia ignorar crenças capazes de orientar comportamentos, escolhas e riscos.
Andriolli reuniu dois anos de notícias antes mesmo de ingressar no mestrado. O material o levou aos estudos do imaginário e a uma pergunta que seguiria atravessando sua produção: como os mitos ajudam a organizar tanto as narrativas culturais quanto as teorias usadas para explicar o mundo?
Prometeu, Fausto e as promessas da técnica
No podcast, Andriolli explicou que os estudos do imaginário permitem identificar mitos diretores, estruturas simbólicas que atravessam diferentes épocas e ajudam a ordenar a vida social. Um dos exemplos foi Prometeu, personagem que rouba o fogo dos deuses e pode representar as promessas de progresso associadas à técnica.
No século XIX, esse imaginário sustentou o entusiasmo com a industrialização. “Prometeu é aquele que faz as promessas. A gente olha para a tecnologia e pensa: ‘Esse é o futuro’”, resumiu. O problema surge quando a promessa revela seus custos e o mito prometeico cede lugar a Fausto, personagem que vende a alma em troca de poder e conhecimento.
“A gente percebe que vendeu a alma para o progresso, para o capital e para as grandes propriedades, achando que esse era o futuro. Nesse processo, a gente se desumanizou”, afirmou. Na leitura do pesquisador, a sucessão não pertence apenas ao passado: reaparece no entusiasmo que cerca as inteligências artificiais.
“A inteligência artificial está reatualizando essas promessas prometeicas e fáusticas. Dizem que o futuro agora é o ChatGPT, que tudo será inteligência artificial”, provocou. A mitanálise, nesse caso, não tenta provar que os agentes contemporâneos repetem conscientemente uma história antiga. Ela identifica estruturas recorrentes que ajudam a compreender desejos, medos e discursos sobre a técnica.
Quem escolhe o mito de uma leitura brasileira?
A aplicação dessas teorias também exige enfrentar o eurocentrismo. Andriolli contou que questionou a associação automática entre Hermes, da tradição grega, e Exu, das cosmologias afro-brasileiras. Embora ambos possam ser relacionados à comunicação, à circulação e à astúcia, tratá-los como equivalentes apaga diferenças históricas e culturais.
“É insuficiente. A gente perde tanta complexidade de coisas potentes de Exu e, vice-versa, de Hermes”, argumentou. Em vez de definir previamente qual mito será procurado, ele defende que a escolha nasça do próprio objeto: “Quem vai definir o mito da minha mitocrítica é o objeto. Se estou estudando uma coisa muito brasileira, posso trair o meu projeto ao trabalhar com Hermes e não com Exu”.
O pesquisador reconheceu que a crítica encontrou resistência entre colegas mais experientes, mas disse que pretende continuar insistindo nela. O debate, segundo ele, não significa descartar toda a tradição teórica europeia. Significa impedir que a experiência humana continue reduzida a um catálogo de mitos greco-romanos.
O Saci como memória e presença
O Colecionador de Sacis nasceu em 2015, quando Andriolli cursava o doutorado e sentia falta da cultura popular em uma pesquisa dedicada à epistemologia do jornalismo. Ao encontrar um tronco coberto por orelhas-de-pau em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, publicou uma fotografia com a frase: “São Leopoldo é um cemitério de sacis”.
A brincadeira dependia da narrativa segundo a qual, ao morrer aos 77 anos, o Saci se transforma nesse tipo de fungo. Como quase ninguém entendeu a referência, Andriolli percebeu que os saberes compartilhados por seus avós não estavam ao alcance de todas as pessoas. “Nem todo mundo teve o privilégio de ter uma avó como a minha avó Marlene e um avô como o meu avô Oliveira.”
O nome Colecionador de Sacis surgiu pouco depois, em uma pesquisa de etnografia virtual. Um robô programado para reunir publicações que mencionassem o personagem foi batizado dessa forma. Durante apenas uma semana, foram encontrados cerca de mil registros: o Saci aparecia como mascote de futebol, nome de estabelecimentos, ofensa racista, referência musical e expressão de intensidade ou travessura.
O material mostrava que o personagem permanecia vivo, inclusive fora das narrativas tradicionais. “Ele estava em tudo. Era nome de música, nome de lugar, era ofensa, mas não era só isso. Era também um lugar de pertencimento, fazia parte da vida das pessoas.”
O projeto se expandiu para uma página de divulgação, um podcast e o documentário Raízes — Um filme sobre colecionar sacis. Ao entrevistar familiares, Andriolli descobriu que as histórias atravessavam várias gerações e chegavam até sua tataravó. O filme também se tornou uma maneira de elaborar a morte do avô.
“Quando eu falo de Saci, eu falo de memória. Falar de Saci é falar da minha família. Quando conto uma história para alguém, falo de mim, mas também de quem veio antes”, disse. Essa proximidade também muda a posição de quem pesquisa: “O Saci não é um objeto meramente acadêmico, é a minha vida. É parte de quem eu sou”.
Folkcomunicação entre resistência e apropriação
Ao ser questionado sobre a presença da cultura popular na mídia, Andriolli apresentou a folkcomunicação como a primeira teoria brasileira da comunicação. Formulada por Luiz Beltrão a partir de diálogos com o folclorista Edison Carneiro, ela volta a atenção para os processos criados por grupos populares e historicamente afastados dos meios hegemônicos de produzir e circular informação.
“Uma coisa não é folclórica por si mesma. Ela é folclórica em relação à cultura hegemônica e dominante”, explicou. Nessa perspectiva, festas, brincadeiras, rituais e outras manifestações não são apenas entretenimento ou sobrevivências do passado. Elas podem funcionar como estratégias de presença, organização e resistência.
Andriolli recorreu às coroações dos reis do Congo, que estão na origem de manifestações como maracatus e congadas. Durante a escravidão, as festas permitiam reconhecer publicamente lideranças negras. Quando os senhores passaram a perseguir essas autoridades, as comunidades chegaram a coroar figuras falsas para desviar a atenção e proteger aquelas a quem a homenagem realmente se destinava.
“Mesmo em um contexto de violência extrema, eles usavam a festa, que era também religião e enfrentamento, para mostrar: ‘Essas são as nossas figuras’”, observou. O exemplo permite compreender a cultura popular como ação política, ainda que ela não se apresente nos formatos institucionais reconhecidos pelo poder.
A relação se inverte quando a mídia de massa transforma essas manifestações em mercadoria. Andriolli distinguiu esse movimento, estudado pela folkmídia, das apropriações promovidas pelo folkmarketing. A polêmica do “acarajé rosa da Barbie”, discutida naquele período, serviu como exemplo de um produto que usa uma tradição para incorporar o prestígio de uma marca global. “Temos a resistência e temos o contrário, que é a cooptação: como o sistema busca utilizar, transformar e padronizar.”
Um jogo que não vence pelo esquecimento
O card game Poranduba — Cartas de Cultura apareceu na conversa como desdobramento prático dessas questões. Criado após uma pesquisa de pós-doutorado na Universidade do Estado da Bahia, o jogo procura superar duas limitações percebidas em outros títulos: a redução do folclore a mitos e lendas e a centralidade do combate.
Além de visagens, o baralho inclui brincantes, mestres de ofício, parteiras, rezadeiras, festas, comidas, simpatias e práticas de medicina popular. “A maioria dos jogos entende folclore só como sinônimo de mito e lenda. Todos os outros aspectos acabam ignorados”, explicou.
As regras também procuram acompanhar os comportamentos dos personagens. “Você não vê normalmente o Saci resolvendo as coisas com combate direto. Ele usa astúcia, usa o jeitinho, engana. O combate não podia ser a única solução.” Por isso, os jogadores disputam desafios que podem exigir luta, descarte ou acúmulo de cartas, além de brincadeiras como rimar de improviso ou recitar um trava-língua.
Andriolli lembrou que um dos jogos analisados transformava conhecimento em pontos de vida. Para vencer, era necessário reduzir o saber do oponente a zero e enviar suas cartas ao “esquecimento”. “Você tinha que acabar com o conhecimento de um povo e levar sua cultura ao esquecimento. Era praticar um epistemicídio, e não era esse o jogo que eu queria fazer.”
Em Poranduba, as cartas derrotadas vão para o Beleléu, mas existem formas de recuperá-las. A regra expressa uma concepção dinâmica de cultura: saberes podem desaparecer, retornar e adquirir novos significados. “O esquecimento faz parte da lembrança. Para que algo surja de novo, alguma coisa pode ser esquecida. Mas a saudade também faz parte e faz com que o antigo seja relembrado.”
Jogar não é apenas gamificar a escola
Embora possa ser utilizado por professores, Poranduba não foi apresentado como jogo educativo. Cada carta traz um QR Code que conduz a um texto de pesquisa com referências bibliográficas, mas o acesso é opcional. É possível jogar, observar as ilustrações, inventar outras regras ou simplesmente bater bafo.
“Eu não quero usar o jogo para gamificar o aprendizado. Quero que ele produza uma aproximação com a cultura popular por meio da ação lúdica e da própria estética”, disse Andriolli. O projeto reuniu 27 ilustradores de diferentes estados e teve direção de arte de André Vazzios, responsável por colorir as imagens e criar uma identidade capaz de acolher estilos diversos.
Para o pesquisador, o contato com as cartas já pode despertar perguntas. Uma criança pode querer descobrir o que é um bastião de Folia de Reis ou o miolo de um bumba meu boi, mesmo sem seguir o manual ou acessar os textos. “Se ela quiser bater bafo, tudo bem. Ela está tendo uma relação com aquilo. Com o tempo, vai olhando e pensando: o que é isso?”
A questão também envolve reconhecimento. Andriolli recordou um trabalho realizado em uma escola com crianças que se sentiam esquecidas pela sociedade. Ao serem convidadas a falar das práticas de suas famílias, elas não conseguiam atribuir importância à experiência de uma avó benzedeira ou aos saberes do próprio bairro.
“Olhar para nós e perceber que a cultura da nossa região e da nossa família tem lugar, que está representada num jogo ou pode estar, também é uma ação de autoestima”, afirmou. O card game, assim, não pretende encerrar o repertório brasileiro, mas convidar jogadores a perceber o que falta e criar suas próprias cartas.
Quando o algoritmo decide o que pode ser contado
Na despedida, Andriolli retomou a relação entre imaginário e tecnologia ao comentar o artigo A mula sem cabeça segundo o ChatGPT: imaginário, técnica e misoginia. Ao pedir que a ferramenta narrasse o mito, recebeu um aviso de que a história poderia violar as políticas de conteúdo e, em seguida, uma versão inventada sobre uma mula que puxava trens no século XIX e teria sido decapitada em uma ferrovia.
O episódio permitiu discutir o poder dos sistemas automatizados como mediadores da cultura. A Mula sem Cabeça carrega elementos misóginos que precisam ser problematizados, mas eliminar a narrativa ou substituí-la silenciosamente impede o debate sobre a violência que ela expressa.
“Quem tem que decidir se conta, como conta e o que faz com essa história é a sociedade, não a inteligência artificial”, defendeu. A conclusão retorna ao ponto que atravessou toda a conversa: tradições não são arquivos imóveis nem mercadorias prontas. Elas vivem quando pessoas as reconhecem, contestam, recriam e encontram novas formas de fazê-las circular.
O episódio Regras do Jogo #190 — Andriolli Costa, O Colecionador de Sacis foi publicado pelo Holodeck Design em 27 de julho de 2023. A campanha de Poranduba — Cartas de Cultura pode ser consultada no Catarse.