“Os mitos não são histórias sobre monstros, mas sobre nós mesmos”: Opinião debate a reinvenção do folclore brasileiro

Na TV Cultura, Maria Celeste Mira, Adriana Salay e Andriolli Costa discutem como tradições se transformam na literatura, na alimentação, nos jogos e nas novas leituras feitas pelas crianças

Para uma das crianças ouvidas pelo programa Opinião, a Iara permanece debaixo d’água e usa seu canto para impedir que os pescadores capturem os peixes. Outra descreveu o Curupira como protetor da floresta contra incêndios, lenhadores e caçadores. As respostas preservam personagens antigos, mas lhes atribuem preocupações ambientais que pertencem ao presente.

Exibida pela TV Cultura em 24 de agosto de 2023, a edição A reinvenção do folclore brasileiro recebeu a antropóloga e professora da PUC-SP Maria Celeste Mira, a historiadora Adriana Salay e o jornalista e pesquisador Andriolli Costa. Conduzida por Andresa Boni, a conversa discutiu como as tradições se modificam, o que elas dizem sobre a identidade de um povo e de que forma podem chegar às novas gerações.

Ao longo do programa, os convidados recusaram a imagem do folclore como coleção de costumes imutáveis. A cultura popular está na comida cotidiana, nas histórias contadas em família, nas festas, nas crenças e nos personagens que ganham novos sentidos. Valorizar essa herança, defenderam, não significa impedir suas mudanças, mas reconhecer sua diversidade e garantir condições para que seus portadores continuem criando.

Contra a “beleza do morto”

O programa começou com depoimentos colhidos nas ruas. Algumas pessoas associaram o folclore a danças, comidas e tradições transmitidas entre gerações; outras falaram de algo antigo, pouco valorizado pela escola e ameaçado pelo esquecimento. Para Maria Celeste Mira, as respostas revelaram duas percepções que convivem na sociedade: a cultura popular como experiência viva e como objeto deixado no passado.

A antropóloga recorreu a uma formulação de Michel de Certeau para explicar esse segundo olhar: “O que a gente gosta no folclore é da beleza do morto”. Segundo ela, existe uma tendência a admirar manifestações populares depois de isolá-las do movimento que as mantém vivas. “A gente sempre olha para o folclore como uma coisa que ficou parada no tempo, e isso não é verdade.”

Maria Celeste sugeriu substituir o termo, carregado por usos pejorativos, por expressões como cultura popular ou cultura popular tradicional. Para ela, essas práticas alimentam continuamente novas histórias, obras e iniciativas, inclusive na alimentação, na moda, na gastronomia, no turismo e no design.

O processo não elimina tensões. O repertório popular pode ser reconhecido por políticas de patrimônio, mas também apropriado pelo mercado. Mestres de capoeira, congada, candomblé e outras tradições passaram a ser registrados como patrimônio imaterial. Diferentemente de um prédio tombado, no entanto, essas pessoas e práticas não ficam congeladas: “É feito um registro de como aquilo é naquele momento. Depois, claro, elas continuam mudando”.

O cotidiano também é encantado

Andriolli Costa ampliou a definição de folclore para além das figuras que geralmente aparecem nas atividades escolares. Saci, Curupira e outras visagens fazem parte desse universo, mas não estão sozinhos. A espada-de-são-jorge no canto da casa, o prato que reúne uma família, a cantiga usada para embalar uma criança, as festas esperadas durante o ano e os ditados populares pertencem ao mesmo campo de tradições.

“Quando a gente precisa resumir uma sabedoria popular em uma pílula e diz que ‘Deus ajuda quem cedo madruga’, tudo isso vem do mesmo lugar”, afirmou. Ao perceber a origem compartilhada dessas experiências, é possível reconhecer que “o nosso cotidiano presente é encantado assim como as visagens”.

Esse encantamento, explicou, não depende da existência literal de seres sobrenaturais. Ele está ligado às raízes e aos vínculos que permitem a uma pessoa se reconhecer em uma história. “Nós estamos aqui porque temos história, e essa história diz sobre nós e sobre o Brasil.”

O pesquisador também recusou a noção de que toda mudança representa uma perda. “Nos processos de lembrança, o esquecimento faz parte. Coisas vão ser esquecidas para que a gente continue lembrando de outras”, observou. A transmissão da cultura não funciona como reprodução exata: cada geração seleciona, reorganiza e acrescenta sentidos.

Do virado à paulista ao prato feito

Na alimentação, essa transformação pode ser percebida tanto nas receitas quanto nos hábitos cotidianos. Adriana Salay lembrou que o virado à paulista costuma ser apresentado como prato tradicional fixo, embora tenha passado por mudanças ao longo do tempo. A cultura, afirmou, acompanha as condições de vida da sociedade.

O prato feito, ou PF, foi usado como exemplo de uma composição que se consolidou como “instituição brasileira”: arroz, feijão, uma proteína, alface e tomate. Ao mesmo tempo, a industrialização e a globalização aproximaram os padrões de consumo de diferentes regiões e reduziram a diversidade de plantas e ingredientes presentes na mesa.

“Hoje você encontra a mesma bolacha recheada em São Paulo, no Ceará, nos Estados Unidos, na França e na China”, comparou a historiadora. Mesmo assim, determinadas comidas preservam uma força simbólica que já não corresponde necessariamente à frequência do consumo. “O arroz e o feijão continuam nos representando, embora sua presença no prato tenha caído. É interessante essa diferença entre aquilo que nos representa e aquilo que consumimos no cotidiano.”

O feijão-carioca ajuda a demonstrar como uma tradição pode ser recente. Apesar do nome, a variedade surgiu em São Paulo e passou a ser incentivada na década de 1970 por causa da produtividade. Em cerca de 50 anos, tornou-se o tipo mais consumido no país. Adriana resumiu o fenômeno com uma frase do historiador italiano Massimo Montanari: “A tradição é uma inovação que deu certo”.

O Saci que muda sem deixar de ser Saci

A literatura e a mídia também participam dessas transformações. Maria Celeste observou que o Saci conhecido hoje não é o mesmo que assustava gerações anteriores nem corresponde exatamente ao personagem recriado por Monteiro Lobato. Em O Sítio do Picapau Amarelo, ele se tornou mais amistoso e passou a integrar o grupo de Emília, Narizinho e Pedrinho.

Andriolli recordou que o inquérito realizado em 1917 por Monteiro Lobato já reunia versões muito diferentes do personagem, enviadas por leitores. Havia sacis mais agressivos, amigáveis ou brincalhões. Essa capacidade de assumir novas formas ajuda a explicar por que o mito continua presente no campo, nas cidades e em diferentes produtos culturais.

Para o pesquisador, a permanência também está ligada àquilo que o personagem representa. “O Saci é um mito que responde à impostura. Ele nos convida a usar a sagacidade, o humor e a ginga para enfrentar os poderosos.” O contexto muda, mas os poderes enfrentados permanecem reconhecíveis: “Ainda é o Saci que enfrenta o racismo e o poder econômico agrário”.

O personagem, portanto, não sobrevive apenas porque foi escolhido como símbolo nacional ou incorporado pelo ensino. Ele permanece porque continua oferecendo uma linguagem para pensar conflitos, astúcias e formas de resistência. “É por isso que ele ainda faz tanto sentido no campo e na cidade.”

Quando a tradição precisa de condições materiais

A valorização da cultura popular não se resolve apenas com homenagens. Ao tratar dos queijos artesanais, Adriana Salay chamou a atenção para a necessidade de garantir a existência material dos modos tradicionais de produção.

As regras sanitárias costumam ser definidas a partir do modelo industrial, o que dificulta a regularização de pequenos produtores. Reconhecer um queijo como patrimônio exige admitir que há diferentes técnicas legítimas e adaptar políticas públicas a essa diversidade. “Não existe uma única forma de fazer queijo”, afirmou.

“Quando você diz que esse queijo também é importante e precisa permanecer, tem que dar condições materiais para que ele seja feito daquele jeito”, acrescentou. A patrimonialização pode contribuir para esse processo, mas somente quando o registro vem acompanhado de meios para que os produtores continuem trabalhando.

O argumento também vale para festas, ofícios e saberes. Uma manifestação não permanece apenas porque foi documentada ou colocada em uma lista. Ela depende de comunidades, espaços, recursos, transmissão entre gerações e liberdade para continuar se transformando.

Das brincadeiras digitais às cartas de cultura

Ao responder como aproximar crianças e jovens, Andriolli defendeu o diálogo com os repertórios que já fazem parte de suas vidas. Professores podem partir de jogos, redes e linguagens contemporâneas sem reduzir a cultura popular a uma obrigação escolar. Ele citou experiências inspiradas em Pokémon Go e apresentou o card game Poranduba — Cartas de Cultura, desenvolvido como resultado de seu pós-doutorado.

O baralho reúne lendas, brincantes de festas populares, comidas, superstições e outros elementos. As cartas funcionam como convites para que crianças e jovens voltem o olhar ao próprio entorno. “O que da minha terra, da minha família, do meu bairro ou da minha comunidade poderia virar uma carta também?”, sugeriu.

A pergunta inverte uma dinâmica recorrente. Em vez de apenas memorizar uma lista nacional de personagens, o participante é convidado a perceber os saberes que circulam em casa e na vizinhança. A atividade também reconhece que nenhum jogo ou livro é capaz de representar sozinho a diversidade brasileira.

Os mitos falam sobre nossos medos

Andriolli exemplificou a força das narrativas locais com a Mulher da Trouxa, assombração conhecida na Bahia. Ela aparece carregando roupas na cabeça e pede ajuda. Quando alguém segura o fardo, a mulher desaparece e deixa a pessoa mergulhada em confusão mental.

O mito pode ser lido como imagem do sofrimento provocado por assumir pesos que não pertencem a alguém. “Os mitos não são histórias sobre monstros encantados. Eles são histórias sobre nós mesmos”, afirmou. “A gente se reconhece neles porque falam das nossas experiências e dos nossos medos.”

Isso também significa encarar os preconceitos presentes nessas histórias. O pesquisador mencionou a Mula sem Cabeça como narrativa construída sobre o controle do corpo feminino. A mulher é amaldiçoada por violar o comportamento esperado pela sociedade, lógica que reaparece quando vítimas de violência são responsabilizadas pela roupa que vestiam ou por suas escolhas.

Em vez de simplesmente abandonar a narrativa, Andriolli propôs mudar seu foco. Algumas versões contam que a maldição é rompida quando alguém retira o freio encantado da Mula. A cena pode ser narrada como libertação de uma mulher das culpas impostas a ela. “Essa história ainda pode ser muito poderosa. Mas quem tem que decidir como contá-la somos nós, enquanto sociedade e coletividade.”

Novas gerações, novos sentidos

As falas das crianças ouvidas pelo programa mostraram essa atualização acontecendo. A Iara apareceu como defensora dos peixes, enquanto o Curupira foi descrito como protetor das florestas. Para Maria Celeste, a leitura ambiental não pertencia às versões mais antigas, mas demonstra que os personagens foram incorporados a preocupações contemporâneas.

“Elas já absorveram esses personagens com um pensamento tremendamente contemporâneo”, observou. Segundo a antropóloga, a atual valorização da cultura popular está ligada tanto à diversidade cultural quanto à diversidade biológica. As narrativas passam a incorporar um apelo ecológico e continuam relevantes justamente porque conseguem receber novos significados.

Adriana Salay encerrou sua participação alertando para o risco de transformar uma manifestação em síntese de todo o país. “Quando a gente escolhe uma história nacional do Brasil, escolhe uma em detrimento de outras”, afirmou. Reconhecer que existem “vários Brasis” é uma forma de evitar a história única e de preservar as diferentes experiências dos povos que constituem o país.

Andriolli voltou ao cotidiano para lembrar que essa responsabilidade não pertence apenas à escola. Famílias transmitem tradições antes mesmo do primeiro contato formal com uma lenda: nas crenças sobre a gestação, nos alimentos, nas palavras e nos pequenos rituais. “A nossa vida é atravessada pela cultura popular antes mesmo de a gente nascer. Do nascer ao morrer, ela diz sobre nós. Muitas vezes, a gente nem se dá conta, mas está em tudo.”

O programa Opinião — A reinvenção do folclore brasileiro foi exibido pela TV Cultura em 24 de agosto de 2023.

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