“A nossa história parece que está no subsolo”: Arquivo Folclore escava a memória assombrada das cidades

No primeiro episódio do documentário sonoro, Andriolli Costa percorre Porto Alegre e reúne experiências de turismo lendário realizadas também em Recife, Campinas e São Paulo

Chovia em Porto Alegre quando Andriolli Costa começou a descer a Rua Espírito Santo, ao lado da Catedral Metropolitana. Sob o terreno ocupado pelo templo funcionou, entre os séculos XVIII e XIX, o Cemitério da Matriz. A lembrança reapareceu de maneira concreta em 2012, quando uma obra encontrou mais de 120 crânios e fragmentos de ossos. Parte dos corpos estava organizada em fileiras; outros pareciam ter sido lançados de forma desordenada, quase como numa vala comum. “A nossa história parece que está no subsolo, enterrada”, diz César Williams, do Recife Malassombrado. “Quando a gente começa a pesquisar, isso começa a saltar.”

A caminhada abre Turismo Lendário, primeiro episódio do Arquivo Folclore, podcast narrativo escrito, apresentado e editado por Andriolli. Lançado em 2022 pelo projeto Colecionador de Sacis, o documentário reúne os responsáveis por três iniciativas: Thiago de Souza, de O Que te Assombra?; César Williams, do Recife Malassombrado; e André Neto e Martina Mombelli, do Porto Alegre Malassombrada. Durante pouco mais de uma hora, o programa alterna reportagem em campo, entrevistas, música e reconstituição histórica para perguntar o que as lendas urbanas revelam sobre os lugares onde circulam.

O ponto de partida são as assombrações, mas o assunto não se limita à existência de fantasmas. As histórias conduzem o ouvinte a cemitérios soterrados, comunidades expulsas, mulheres transformadas em bruxas e pessoas negras apagadas dos espaços que ajudaram a construir. “Nosso maior ativo é a realidade”, afirma Thiago. É ela que permite que o passeio atraia quem gosta de mistério, mas também quem deseja caminhar, fotografar, conhecer a história e “se reconhecer na cidade”.

A rua entra no documentário

Antes de apresentar o podcast, Andriolli deixa o ouvinte caminhar ao seu lado. O som da chuva, a respiração durante a descida, os carros e as conversas com quem o acompanha situam a reportagem num espaço concreto. Quando ele chama o templo de “Catedral Municipal”, uma voz o corrige imediatamente: “O nome correto é Catedral Metropolitana”. O pequeno diálogo permanece na edição e reforça a sensação de que a cidade não é apenas assunto. Ela participa da narrativa.

Ao redor da igreja, oito cabeças indígenas esculpidas sustentam visualmente a construção. Os rostos têm os dentes cerrados, os olhos sem pupilas e marcas produzidas pelo tempo e por intervenções recentes. André Neto explica que a imagem sugere indígenas “suportando o peso de uma civilização”. A interpretação encontra confirmação na apresentação oficial do projeto arquitetônico: as figuras representariam uma fase considerada primitiva, sobre a qual se ergueriam uma nova cultura e uma nova fé.

O podcast não precisa explicar longamente a violência dessa ideia. Depois de mostrar o antigo cemitério sob a igreja, basta aproximar os dois elementos. “Os prédios, as ruas, contam histórias muitas vezes terríveis de violência, dominação e negligência”, narra Andriolli. “São histórias que a cidade tenta esconder, mas que, invariavelmente, como esqueletos mal enterrados, voltam à tona.”

A construção sonora acompanha esse movimento de escavação. As entrevistas não aparecem como blocos isolados. Elas são atravessadas pela narração, por deslocamentos, pausas, música e cenas gravadas nos locais mencionados. O ouvinte deixa de receber apenas informações sobre os passeios e passa a experimentar uma pequena viagem lendária por conta própria.

Um banho nos sentidos

César Williams descobriu o potencial desse tipo de experiência durante viagens à Irlanda e à Escócia. Em um dos passeios, desceu aos túneis sob a cidade e encontrou antigas celas. O ar mais pesado, o cheiro de limo e tijolos úmidos, as grades ao alcance das mãos e as marcas nas paredes fizeram com que a história deixasse de ser uma explicação abstrata.

“Aquilo é um banho nos sentidos”, recorda. “Você quase faz uma imersão no tempo em que aquilo aconteceu.” Para César, os objetos e os espaços permanecem impregnados pela experiência das pessoas que passaram por eles. A visita cria a sensação de que os personagens continuam próximos, “falando no seu ouvido: ‘Foi assim, não foi assim’”.

A descoberta o levou a imaginar um passeio semelhante no Recife. O resultado foi o Recife Malassombrado, que combina pesquisa histórica, narrativa, performance e uma dimensão ritual ligada à trajetória de seu criador. Durante as atividades, César assume o título de “sacerdote Devas”, personagem que guia o público pelas histórias da cidade.

Ele insiste, porém, que o trabalho não é improvisado nem se reduz a reunir casos fantásticos. “O Recife Malassombrado não trata principalmente de histórias fantasiosas, mas daquilo que perturbou o nosso passado ou marcou as gerações anteriores.” Antes de entrar em casarões, museus, teatros, antigos engenhos ou espaços públicos, a equipe pesquisa, procura responsáveis pelos imóveis, pede autorizações e visita os locais.

Os roteiros podem ser feitos a pé ou de ônibus e incluem aparições ao longo do caminho. Quando perguntado se eram atores fantasiados, César respondeu com o humor que caracteriza a atração: “Atores, não. A gente faz invocação mesmo”. A brincadeira preserva o mistério, mas vem acompanhada por uma preocupação objetiva. “Somos fanáticos por segurança”, assegura.

Quando 1.800 pessoas se inscreveram durante a noite

Em Porto Alegre, o passeio nasceu de maneira quase acidental. André Neto já era conhecido entre os amigos por contar histórias da cidade. Martina Mombelli participava da produção e da comunicação de sua banda quando o grupo procurou uma maneira de divulgar um disco dedicado a arquétipos e à sombra. Um tour pelas ruas parecia uma extensão natural daquele universo.

A expectativa era reunir um pequeno grupo. “A nossa meta nem era meta. Se cinco ou dez amigos confirmassem, a gente já fazia”, lembra Martina. O evento foi publicado no Facebook à noite. Na manhã seguinte, havia cerca de 1.800 inscrições.

O primeiro passeio precisou ser cancelado por motivos de segurança. A procura, no entanto, mostrou que existia um público interessado em ouvir as histórias no lugar onde elas teriam acontecido. A equipe criou novas datas e passou a realizar atividades nos fins de semana. As vagas inicialmente gratuitas logo apresentaram outro problema: muitas pessoas se inscreviam, não compareciam e impediam a participação de quem realmente desejava ir. O grupo começou a cobrar um valor e desenvolveu uma programação regular.

O Arquivo Folclore encontra a equipe na Rua Fernando Machado, antigo nome da Rua do Arvoredo. Ali circula uma das lendas mais conhecidas da capital gaúcha: a história de José Ramos, Catarina Palse e do açougueiro que teria transformado corpos de pessoas assassinadas em linguiças vendidas aos moradores. É também onde funciona o Café Mal Assombrado, criado como desdobramento do projeto.

Caminhar também é aprender a ouvir

Thiago de Souza não conhecia experiências brasileiras de turismo lendário quando começou O Que te Assombra?, em Campinas, em agosto de 2021. Advogado, compositor e roteirista, ele reuniu Silo Sotil, Júlia Zampieri e Matheus Hass para pesquisar e transformar histórias sobrenaturais da cidade em produções para a internet com elementos de radionovela.

“Eu não gosto muito de falar ‘projeto’, porque projeto parece uma coisa que não vai dar certo”, brinca Thiago. A iniciativa avançou rapidamente. Quando o grupo levou o público aos locais pesquisados, encontrou uma procura maior do que imaginava. Três possibilidades ficaram evidentes: ativar o patrimônio material e imaterial, criar identificação com a cidade e estabelecer empatia com as pessoas mortas que se tornaram personagens das lendas.

Os passeios também despertam lembranças de outros narradores. “É inevitável alguém se lembrar de um contador de histórias que passou pela vida dela, normalmente uma pessoa muito querida, um tio, um avô ou uma avó.” Para Thiago, essas recordações criam “pontes afetivas” entre desconhecidos.

Em São Paulo, um dos roteiros sai do Vale do Anhangabaú, segue até a Capela dos Aflitos, no bairro da Liberdade, e depois alcança o Cemitério da Consolação. Quem permanece até o fim percorre cerca de oito quilômetros e passa mais de cinco horas acompanhando as narrativas. “Todo mundo fica em silêncio, prestando atenção. Ninguém vai embora”, conta.

O gesto mais surpreendente, para ele, não é enfrentar a escuridão ou entrar num cemitério. É dedicar horas a outra pessoa. “É uma atitude de extrema generosidade você escutar alguém hoje em dia. Num mundo em que se quer tanto falar, ouvir é um exercício louvável.” Dentro do documentário, a frase alcança também quem acompanha a viagem pelo fone de ouvido.

O que aconteceu e o que a cidade decidiu contar

O caso do chamado Linguiceiro da Rua do Arvoredo permite ao Arquivo Folclore mostrar que respeitar uma lenda não exige abandonar a apuração. O episódio apresenta primeiro a versão popular: Catarina atrairia homens; José Ramos os mataria; e um açougueiro alemão transformaria os corpos em linguiças. O plano seria descoberto quando o cachorro de uma das vítimas seguisse o cheiro do dono até a casa do assassino.

Em seguida, o podcast confronta essa narrativa com a pesquisa da historiadora Sandra Pesavento, baseada nos autos judiciais e na cobertura jornalística da época. Os documentos confirmam assassinatos e corpos esquartejados, mas não mencionam canibalismo nem o destino da carne. A linguiça só aparece em textos publicados cerca de três décadas depois, quando articulistas já tratavam o detalhe como parte da memória popular.

Outros elementos também mudaram. Nos registros oficiais, José Ramos e Catarina não circulavam pela elite. Eram pobres e viviam de trabalhos ocasionais e da hospedagem de pessoas em casa. A descrição racial do casal foi invertida pela tradição: Ramos, apresentado mais tarde como mestiço, aparece nos autos como branco e pálido; Catarina, transformada em mulher loira e sedutora, tinha cabelos negros.

O documentário não usa as diferenças para declarar a lenda falsa e encerrar a conversa. “Podemos discutir qual dessas versões é mais ou menos factível. Agora, legítima, isso não está em questão”, narra Andriolli. A história da linguiça continua viva porque foi transmitida, refeita e incorporada à memória de Porto Alegre. “Mais de 150 anos depois, o cachorro continua latindo à espera de seu dono.”

O mistério, para Thiago, pode ser mais fértil do que uma resposta definitiva. Quando alguém pergunta se houve mesmo linguiça de carne humana, ele prefere preservar a dúvida. “Contemplar o mistério é mais perturbador do que a certeza.”

Fantasmas revelam quem a cidade tentou esconder

As lendas urbanas registram medos recorrentes da vida nas metrópoles: abandono, desabrigo, violência contra as mulheres e desaparecimento. O Que te Assombra? utiliza a figura da noiva fantasma para discutir como a sociedade definiu o casamento como destino obrigatório para as mulheres. Se uma jovem morria antes da cerimônia, a tradição encontrava nesse projeto interrompido a explicação para seu retorno.

“Uma história de assombração só transita se ela tem sentido, e ela só tem sentido se é recebida pelo senso comum”, explica Thiago. À medida que o papel social das mulheres muda, determinadas histórias também deixam de convencer ou passam a receber outras interpretações. Ao mesmo tempo, os feminicídios do presente mostram que parte da violência que originou essas narrativas não desapareceu.

Em Belo Horizonte, o exemplo escolhido é Maria Papuda, mulher que vivia sozinha no antigo Arraial do Curral del Rei e teria sido retirada de sua casa durante a construção da nova capital. No local foi erguido o Palácio da Liberdade, depois associado a mortes e a uma maldição. Para Thiago, a lenda guarda tanto a violência da expulsão quanto o modo como mulheres autônomas e conhecedoras de ervas eram transformadas em bruxas.

No Recife, César cita Antônia Maria, degredada de Portugal sob acusação de feitiçaria e novamente perseguida depois de se estabelecer na colônia. “As histórias de assombração trazem um diagnóstico muito preciso da época em que foram concebidas”, afirma.

Esse diagnóstico também alcança o racismo. Thiago questiona a ideia de que antigas senzalas ou pelourinhos seriam assombrados pelas pessoas escravizadas e torturadas. “Se existe um lugar amaldiçoado, é de quem fez isso, de quem escravizou, explorou e torturou, não de quem sofreu.” Para ele, a exigência de documentos aparece com muito mais força diante de narrativas negras do que de personagens brancos europeus: “Há uma má vontade quando a história vem do povo africano”.

As assombrações permitem iluminar ainda os mecanismos de renomeação. Um lugar onde pessoas negras foram executadas pode perder a referência à forca e receber depois o nome de um militar branco. “É literalmente colocar um pontinho de luz sobre aquela sombra da cidade”, diz André Neto. Não se trata de acrescentar uma curiosidade mórbida ao passeio, mas de perguntar quem foi autorizado a permanecer na memória pública.

Um podcast para escutar o que permanece

Ao transformar essas experiências em documentário sonoro, Arquivo Folclore reproduz a lógica do próprio turismo lendário. A narrativa não entrega um catálogo de assombrações. Ela conduz o ouvinte por ruas, apresenta versões contraditórias, confronta a tradição com os arquivos e retorna ao presente para observar o que ainda não foi resolvido.

O programa também evita escolher entre uma experiência mística e um passeio histórico. César afirma pedir permissão às forças ligadas aos lugares antes de conduzir determinados roteiros. Thiago diz gostar mais de acreditar do que acreditar de fato. “Contemplar o mistério dá sentido à minha existência”, admite. As diferenças permanecem na montagem sem que uma voz precise anular a outra.

No fim, o medo funciona como convite. Ele chama a atenção para um prédio diante do qual alguém passava todos os dias, para um nome antigo apagado da placa ou para uma personagem reduzida à caricatura. Depois que a história é contada, o espaço já não parece o mesmo.

“Descobrir a cidade a partir do folclore é um trajeto de vários caminhos”, conclui Andriolli. “Pode ser uma experiência mística ou um passeio lúdico. Pode ser uma forma de encontrar a crueza da realidade ou de se deixar atravessar pelo fascínio que ela oculta.” Em Arquivo Folclore, todas essas rotas permanecem abertas. Basta caminhar e escutar.


Arquivo Folclore 1 – Turismo Lendário foi lançado em 2022 pelo Colecionador de Sacis. O documentário tem apresentação, roteiro e edição de Andriolli Costa e arte de capa de Bruno Brunelli. O episódio pode ser ouvido na publicação original do Colecionador de Sacis ou no Spotify.

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